Sexta-feira, 06 de Dezembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1066
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Autores, idéias e tudo o que cabe num livro

Por Vitor Sznejder em 20/11/2000 na edição 102

ARMAZÉM LITERÁRIO

Autores, idéias e tudo o que cabe num livro

ASPAS

ENTREVISTA / M.C.

Copyright Vitor Sznejder <http://www.vitorsznejder.com.br/index.htm>, 13/03/2000)

"O jornalista e pintor Demetrio (Mino) Carta anuncia a quem interessar possa que está terminando de escrever um livro. De que tipo? No estilo dos editoriais que ele escrevia na Veja durante o período mais negro da ditadura militar: personagens ficcionais e fantásticos, numa história em que se identificam fatos e figuras reais. Em outras palavras, uma autobiografia ficcional ou ficção autobiográfica, datilografada numa boa e velha máquina de escrever manual.

O livro está sendo escrito com base na sua imaginação e memória, pelo simples fato de que Mino não tem guardadas as coleções dos muitos veículos que criou: Quatro Rodas, Veja, Jornal da Tarde, Jornal da República, IstoÉ, Senhor, Carta Capital etc.

Filosoficamente um discípulo de Gramsci (‘otimista na ação, pessimista na inteligência’), Mino Carta concedeu esta entrevista bebericando goles de refrigerante ‘light’, mas pegando pesado com o espírito crítico que preconiza para o exercício do jornalismo.

Você está com 66 anos, não é mesmo?

Mino Carta – Sou do fim de 33. Há dúvidas sobre o mês. Não sei se foi novembro de 33 ou fevereiro de 34. (sorrisos)

E tornou-se jornalista por causa do exemplo paterno?

Mino – Eu virei jornalista por causa de um terno azul marinho. (risos)

Como é isso?

Mino – Chegaremos lá. O sogro do meu pai também era jornalista. E meu pai, por sua vez, virou jornalista por causa do meu avô. Meu avô era jornalista desde os 15 anos de idade e dirigiu jornais de alguma importância – mas aí chegou o fascismo na Itália e ele perdeu o emprego. Quando meu pai se casou, em 1927 (ele era formado em Direito mas precisava de um emprego), meu avô disse: ‘Eu te arrumo um emprego’. Ele acabou gostando e virou jornalista e muito bom jornalista.

Quando vieram para o Brasil?

Mino – Ele veio para cá em agosto de 46, chamado pelo Matarazzo, que procurava um jornalista jovem que estivesse disposto a transpor o Atlântico e se mudar para cá. Meu pai tinha 41 anos e dirigia o principal jornal de Gênova, onde eu nasci, chama-se Il Secolo XIX e ainda hoje é o jornal mais forte da região. Convicto de que vinha pela frente uma 3ª Guerra Mundial, com dois filhos pequenos, meu pai achava que aqui era o país do futuro.

Mas ao chegar, evidentemente com tudo pago, o Matarazzo nos chamou e disse: ‘Estou enterrado, não dá para fazer o tal jornal! Mas eu posso oferecer um emprego, porque sou sócio de uma editora que vai lançar livros muito importantes. Não posso lhe pagar o que pagaria no jornal. E em todo o caso, se quiser voltar lhe ofereço as passagens de volta.’

Mas que situação, hein?

Mino – Meu pai disse: ‘`Passagem de volta não quero; emprego, ótimo; e me dá a indenização prevista no contrato.’ Aí ele foi chamado pelo Assis Chateaubriand, que queria fazer uma página em italiano no Diário de S.Paulo. Meu pai fez esta página e trabalhava na editora como diretor artístico. Mas ela não foi bem administrada e, antes que acabasse, o meu pai já tinha se mandado, a convite do Paulo Duarte. Ele havia sido responsável pelo retorno do Estadão às mãos dos Mesquita, porque foi ele quem arrancou do Gastão Vidigal o cheque salvador – se não eles perderiam o jornal!

Como foi essa história?

Mino – Houve o leilão, o Gastão Vidigal arrumou o cheque para o Paulo Duarte e não para os Mesquita. E por dever de gratidão o Paulo Duarte virou redator-chefe do jornal. Paulo Duarte convidou o meu pai para trabalhar como secretário – era um jornal que estava se reestabelecendo, financeiramente, mas era provinciano, atrasado, fazia um jornalismo superado.

Como era ele, digo a figura humana?

Mino – Meu pai era um camarada muito legal, simpático, tolerante, acho que não sou tão simpático e tolerante. Aí vem o Mundial de futebol de 1950. Meu pai recebe do Il Messaggero, de Roma, um pedido de matérias sobre a preparação brasileira para aquela Copa. E ele destestava futebol! Então ele me convocou. ‘Olha, Mino, você não quer escrever estes artigos?’

Quantos anos você tinha? E o que fazia, nessa época?

Mino – Estava com 16 anos. Só pintava e estudava, havia terminado o Clássico – cheguei muito adiantado da Itália e entrei dois anos antes na faculdade .

Qual?

Mino – Direito, porque era uma tradição familiar. Meu avô era formado, meu pai também.

Voltando ao convite…

Mino – Eu disse: Quanto vai dar isso? Ele disse: vai dar tanto. Então dá para fazer o terno azul marinho para ir aos bailes de sábado….(risos)

Bom, enfim, surgiu o convite para trabalhar em um jornal de Turim. E aí topei – fui para Turim na véspera do Natal de 56. Comecei no dia 2 de janeiro e fiquei até março de 58. Trabalhei lá, aprendi bastante, mas estava pensando em pintar – tanto que, neste período, fiz uma exposição em Milão. Fui incentivado pelo principal crítico de São Paulo, Sérgio Milliet, e ele me colocou em uma exposição no Ibirapuera, em 56, sobre paisagem brasileira – eram 20 pintores e ‘os outros’ eram Di Cavalcanti, Rebolo, Tarsila.

Que tipo de coisa você pintava?

Mino – Eu era muito menino. Pintava muita paisagem, natureza morta, influenciado por artistas italianos… Em junho de 1958 me mudei para Roma, para trabalhar no Messagero, e também fazia correspondência para o Diário de Notícias e o Mundo Ilustrado. O editor-chefe era o Joel Silveira. Meu irmão era diretor-editorial da Editora Abril, que estava no começo.

Fazia o Pato Donald, não é?

Mino – Havia uma série de revista infantis, um esboço da idéia de fascículos, tinha uma revista chamada Manequim, a primeira na área de moda, e sonhava dar saltos. O Victor Civita queria lançar Quatro Rodas e meu irmão me indicou.

Como foi esse primeiro contato?

Mino – Chegou o tal do Victor Civita em Roma, ligou-me e convidou para almoçar. Eu disse: ‘Não sei dirigir carros e não pretendo fazê- lo’. (risos) ‘Isso é besteira’, disse. ‘Vai lá e, se der tudo certo, vamos lançar em 61 uma revista que vai se chamar Veja e que vai ser uma concorrente da Manchete!’

E foi esse aspecto que te cativou?

Mino – Sim, e também outros. Então eu era casado com uma senhora que sonhava voltar para Brasil. Teria uma situação mais folgada, com bom salário. Voltei em março de 60 e assumi o comando de uma redação que era composta por uma pessoa a mais. Eu e esta pessoa. (risos) Tínhamos um fotógrafo free-lancer, mas a máquina era minha. Havia um homem de arte e um mapista, que fazia os mapas, um dos trunfos da revista, porque eram mapas rodoviários detalhados.

Verdade que você viajou numa kombi, com o Roberto Civita, para fazer a primeira matéria turística da Quatro Rodas, sobre a Via Dutra?

Mino – Sim, numa Kombi.

E como foi a convivência com ele?

Mino – Ele é terrível, arrogante! Roberto Civita eu conheço a fundo! Um panaca, o cara bom era o pai dele, homem de grande ímpeto, um realizador. Não é que tivesse grandes escrúpulos, queria ganhar a parada e fazia qualquer negócio para ganhar, mas era um fazedor, ia em todas as bolas, um lutador e Roberto é um bobalhão.

Quem são os bons jornalistas da sua geração?

Mino – O jornalismo brasileiro é excepcionalmente ruim. Você não acompanha o que está acontecendo no mundo pela imprensa brasileira, a não ser que você siga alguns programas de televisão a cabo. Por exemplo, os nossos suplementos de cultura ou programas na televisão não falam de cultura. A crítica morreu, não somente em Política; os grandes críticos, estão velhos: Wilson Martins, Antônio Cândido, Sábato Magaldi. O Décio Almeida Prado acaba de morrer.

Mas você não citaria um bom jornalista da sua geração?

Mino – Para mim o bom jornalista é o Cláudio Abramo, mas ele é da geração anterior. Este é um jornalista completo, sabia tocar todos os instrumentos e pode virar diretor da orquestra. Este tipo de jornalista não existe mais.

Você formou algum sucessor?

Mino – Trabalhei com alguns talentosos que se perderam por terem aderido a um jogo qualquer.

Que jogo? Dinheiro?

Mino – Tem gente que ganha bem, não acho que são pessoas corruptas, mas toparam o jogo do poder, de uma forma ou de outra.

E quem foi adiante?

Mino – Gosto muito do Paulo Henrique Amorim, que trabalhou comigo; acho-o muito talentoso. Ele foi para a televisão, fez um programa excelente, e naturalmente o perdeu, um pouco por causa da emissora e muito por causa das pressões políticas, porque ele fazia um programa corajoso, tentava contar as coisas. O Elio Gaspari certamente é um jornalista talentoso, mas entra em patota e às vezes serve a interesses que não são os dos leitores.

Outro nome?

Mino – Outro muito talentoso é o Raimundo Pereira, um sonhador, um sujeito reto. Raimundo Pereira, Elio e Paulo Henrique Amorim são três jornalistas de mãos cheias.

Então você está dizendo que não formou ninguém?

Mino – Não formei ninguém. Da geração seguinte, o Bob (Fernandes) certamente é o melhor repórter brasileiro, é uma flor rara de caráter ilibado, posições boas e firmes, perdigueiro nato, de vivacidade extraordinária e texto excelente.

Falando em jornalistas, o que lhe pareceu o livro do Mário Sérgio Conti, Notícias do Planalto?

Mino – Este é um pobre diabo. As pessoas se contentam com bobagens. O livro é jornalisticamente vulnerável e esteticamente discutível. Acontece que as pessoas gostam de fofocas, querem se divertir – e é um trabalho que atende aos interesses de uma patota…

Por que ‘jornalisticamente vulnerável’?

Mino – O problema do livro do Mário Sérgio Conti é que ele não ouve as partes, ele ouve alguém e pronto. Segundo ele, me desentendi com o Roberto Civita e ele me mandou embora. Não é nada disto – durou dois anos, esta coisa, pressões políticas – você leu as as declarações do Figueiredo a meu respeito, feitas em 87 e que saíram agora?

Lembre-as, por favor.

Mino – Figueiredo estava em um churrasco na casa de amigos, em 87, e gravaram um longo papo. Deveria ter tomado umas e outras, ele está falando de Tancredo, Sarney, Marco Maciel, Antonio Carlos Magalhães. Ele fala do Roberto Marinho. Disse que o Roberto Marinho queria tudo para ele, era muito monopolista , acabou se indispondo com ele; fala do Victor Civita, dizendo que ia nele querendo imprimir fascículos e os livros do MEC, isto a (TV) Globo informou no Fantástico e a IstoÉ deu.

Disse: ‘A este tipo de gente eu prefiro o Mino. O Mino tem este vício de contestar tudo, ele questiona tudo, é um chato, foi um crítico feroz do nosso regime, Geisel o odiava, se lhe derem chance ele vai querer reescrever o Evangelho, mas nunca ficou com o rabo preso!’ Recortei e guardei.(sorrisos)

Voltemos um pouco à sua saída da Veja…

Mino – Ofereci duas vezes a saída correta e eles por trás agiram da pior maneira. Quando fui embora o Victor Civita correu atrás de mim para resolver, porque ele não queria assim. Então eu lhe disse: ‘Me põe de novo no expediente da Veja, chama de volta o Plínio Marcos, que vocês mandaram embora depois que eu saí, e eu preparo uma carta de demissão, deixo com os redatores-chefes e a Redação se acalma. Não quero levar nada, não quero um tostão, quero ir embora, porque aqui não vou trabalhar mais, seu filho é um cretino! ‘Não diga isto, diga ingênuo’, Victor Civita me pediu. ‘O (Armando) Falcão vai dizer o quê?’, perguntou? ‘Não tem problema, porque já marquei um encontro com o Falcão’, respondi.

E como foi esse encontro?

Mino – ‘Por que você não vai para minha fazenda, começou ele, passa lá dois meses embaixo das árvores frondosas, em bela rede, tomando alguma coisa; Mino, entenda o meu ponto: vinham quatro diretores da editora dizer que a culpa era sua, que a revista era como era por tua causa, o que você quer que eu faça?’

Pedi aos redatores-chefes que entregassem a carta de demissão. Saiu uma carta aos leitores que me deixou louco da vida. A carta dizia: o senhor Mino Carta se vai para um glorioso futuro. Fez esta revista maravilhosa, e agora será feliz em outro lugar. Preferia uma notinha de duas linhas comunicando a saída."

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