Quarta-feira, 22 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

PRIMEIRAS EDIçõES > FREI CANECA

Autoria e "livre adaptação"

Por lgarcia em 27/01/2004 na edição 261

FREI CANECA

Marco Morel (*)

Foi num misto de surpresa, emoção e decepção que assisti à peça teatral Frei Caneca, de autoria da jornalista e deputada Heloneida Studart (PT), encenada de maneira intermitente no Palácio Tiradentes, sede da Assembléia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj), como parte do Projeto Cultural "Libertas Quae Sera Tamen" e com apoio de empresas privadas. Estes três sentimentos aparentemente contraditórios têm uma explicação simples: a referida peça é literalmente baseada no meu livro Frei Caneca ? entre Marília e a Pátria (Rio de Janeiro, FGV, 2000) e não há sequer uma referência a meu nome ou minha obra.

Alguns episódios pessoais podem levar a reflexões sobre questões mais amplas, como o papel dos jornalistas na criação e reprodução cultural, sobre o valor do trabalho e a ética na política. A banalização da contravenção é nociva. Por isso reitero: a peça Frei Caneca, de Heloneida Studart, é não apenas livremente inspirada, ou diretamente inspirada, mas nitidamente embasada no livro que publiquei há pouco mais de três anos. Guardadas, é claro, as diferenças, especificidades e liberdades que distinguem a criação literária de uma pesquisa histórica ? distância, aliás, que considero atenuada em meu trabalho.

Quem leu o livro (tenho certeza que a jornalista e escritora Heloneida o fez) e assistiu à peça não terá nenhuma dificuldade em identificar: o roteiro, a seqüência dos fatos, o perfil e escolha dos personagens e a maior parte das informações saíram do meu texto, resultado de trabalho de pesquisa, escrita, análise e criação ensaística. Não me refiro a um trecho ou parte, mas ao espetáculo teatral como um todo. E não vou cansar aqui o eventual leitor com citações, num exercício comparativo, mas estou tranqüilo quanto à afirmação. E por isso resolvi torná-la pública. Está claro que a biografia de Frei Caneca é de domínio público, existem outros trabalhos históricos e artísticos sobre o tema ? e por isso, aliás, é fácil identificar a matriz de onde a peça foi tirada.

Quem se colocar na minha pele poderá entender o misto de sentimentos. Alegria, pela qualidade técnica e artística: diálogos, interpretações, cenários ? tudo se fez com beleza e coerência. É um trabalho que deveria ganhar as ruas e outros meios de comunicação. Mas no programa da peça há o registro de 37 nomes, pessoas que trabalharam e/ou colaboraram para sua realização, desde a diretora e adaptadora (sic) Vilma Dulcetti até as camareiras. Acredito que todas deram contribuição relevante. Entretanto, devo dizer, senti desconforto pela omissão de meu nome e de meu livro entre as referências. Daí a surpresa: ver diálogos que escrevi serem literalmente falados pelos atores no palco, com poucas modificações.

Omissão

Ao que parece, o Projeto Cultural da Alerj não tem fins lucrativos. Não me considero movido por vaidade ou desejo de lucro financeiro. Trata-se apenas de justiça e reconhecimento do meu trabalho e da evidente influência que ele teve na elaboração da peça teatral em questão. A deputada Heloneida Studart, como jornalista experiente e autora de vários livros, sabe que tal reconhecimento é praxe em qualquer produção cultural (teatro, cinema, novela etc.) baseada na obra de determinado autor.

Afinal, a valorização do trabalho ainda é uma bandeira do Partido dos Trabalhadores? Valor e reconhecimento do trabalho intelectual, ética, transparência na política, criatividade na cultura ? ainda contam alguma coisa? Como os jornalistas e os historiadores se relacionam com o texto de ficção literária? E, vice-versa, como os escritores de ficção interagem e usam a produção de pesquisadores?

Solicito, pois, que seja publicamente reconhecido que a peça teatral Frei Caneca é baseada no meu livro. Caso contrário, fica caracterizado um roubo intelectual ? tão grave quanto qualquer outro roubo. Seria triste ver os deputados do Rio de Janeiro serem acusados de coniventes com uma omissão como esta, tão fácil de desmascarar. Admito que nas últimas eleições parlamentares votei na deputada Heloneida Studart ? mas meu trabalho (nem o de ninguém) não pode ser tratado como objeto de cama e mesa.

(*) Jornalista e professor do Departamento de História da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj)

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