Quarta-feira, 17 de Julho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1046
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Baixaria na TV e os pobres brasileiros

Por lgarcia em 20/10/1999 na edição 77



“Quando a concorrência entre as televisões comerciais atinge seu nível mais deletério, seria difícil imaginar a solidariedade delas em torno de um projeto de cunho social. Pois isso aconteceu, sob a liderança e inspiração da AACD (Associação de Assistência à Criança Defeituosa), no segundo Teleton, em 18 e 19 de setembro, comandado pela TV Cultura e animado por todas as demais emissoras de televisão brasileiras.
Quem acompanhou as 27 horas de programação produzida para arrecadar fundos para a construção de um novo centro da instituição em outro Estado da Federação pôde aprender inúmeras lições, além do gesto de generosidade que rendeu mais de R$ 11 milhões. A emoção de todos, voluntários da associação e funcionários de todas as televisões participantes, simbolizada pela figura carismática de Decio Goldfarb, traduzia todas as lições contidas no evento.

Essa gente especial ou diferente -como alguns preferem tratar, sem discriminação, os deficientes físicos e mentais- está, como se viu, muito mais integrada à sociedade e à vida do que se possa imaginar. Demonstram e demonstraram uma garra e um amor ao fazer, ao participar e ao ser útil que emocionaram todo mundo.

De todos, retive na cabeça três exemplos magníficos. Primeiro, aquele ‘toco de gente’, sem braços, sem pernas, que se movia o tempo todo no estúdio da TV Cultura, na véspera do evento, com um entusiasmo contagiante, com um sorriso no rosto, mas um ar de gravidade de quem sabia que estava participando de uma coisa grande. Olhei para ele, mas não sabia que seria o mascote e símbolo da festa. Soube no dia seguinte, quando ele compareceu ao palco, com suas próteses inimagináveis, com a postura de um pequeno grande homem. Depois aquele jogador de futebol, recorde dos recordes, capaz de controlar mil vezes a bola com o único joelho. Por fim, leve como um pássaro, com a alegria de quem gosta do mar, o surfista de uma perna só. ‘Incredibile’, como se diria na novela.

Mas o dinheiro e esses exemplos edificantes não foram tudo. O Teleton haveria de nos deixar um recado e uma idéia extraordinária.

Durante 27 horas, artistas, apresentadores, produtores, dirigentes, editores de todas as televisões públicas e privadas se solidarizaram para produzir o espetáculo cívico do Teleton. Alguns não dormiram, outros sonharam, alguns carregaram pedras, outros idéias, mas cada um, na dimensão que conferiu ao próprio engajamento, deu sua contribuição, com generosidade.

Disso tudo resultou uma grande idéia, verbalizada por Silvio Santos. Por que não formar a rede da solidariedade todas as vezes que ela seja necessária? A idéia incendiou minha cabeça. Passei a elaborá-la, a divulgá-la e a conquistar parceiros. Seria mais ou menos assim: todas as vezes que a sociedade desse um alerta sobre um problema fundamental, capaz de produzir grandes efeitos benéficos ou maléficos sobre a vida e a própria sociedade, as televisões, públicas e privadas, se uniriam na Rede da Amizade, para travar o bom combate.

A droga, por exemplo, que é o problema mais grave da sociedade brasileira, ao lado da exclusão, mereceria a atuação da rede da solidariedade. Não seria necessário que todas as TVs entrassem no ar em tempo real, mas que combinassem uma estratégia de combate, elucidação, advertência sobre o consumo de droga. Essa estratégia poderia ser uma semana temática sobre o assunto, que seria desenvolvido na programação jornalística, nos programas de auditório, nas novelas de todas as TVs. O resultado seria incalculável, não apenas para a sociedade, mas para as próprias televisões, que têm a obrigação constitucional de desempenhar um papel educativo e social.

Melhores até do que códigos de ética, de difícil aplicação, seriam esse gesto, essa atuação positiva em defesa da sociedade e a mensagem de que em torno de questões cruciais a luta pelo mercado não haveria de prevalecer sobre a responsabilidade.
Certamente alguns poderão imaginar a idéia utópica, quase quimérica, mas os fatos demonstram o contrário. O Teleton já provou o que pode ser feito. As grandes crises, a droga, a exclusão, o analfabetismo, a violência etc. provam a necessidade.

Silvio Santos verbalizou e lançou o foguete. José Roberto Marinho, com quem conversei rapidamente, gostou da idéia. Na rede pública de televisão todos os escalões estão mobilizados para pô-la em prática. Tenho certeza de que a Bandeirantes, a Record, a Gazeta, a Rede TV!, todos os canais, todos os satélites e todos os provedores de Internet entrarão na Rede da Amizade.

O Brasil, que já possui uma das televisões mais desenvolvidas do mundo, que busca tão ansiosamente resolver o problema da qualidade de suas programações e que trava uma das mais ardorosas batalhas da concorrência, saberá mostrar que, quando se trata de um interesse público relevante, o mercado abre espaço para a sociedade.”

“A rede da amizade”, copyright Folha de S. Paulo, 8/10/99

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