Sábado, 25 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

PRIMEIRAS EDIçõES > ALESSANDRO PORRO

Balada para um repórter

Por Ali Kamel em 30/12/2003 na edição 257

Alessandro Porro não era um santo. Não mesmo. Cometeu muitos pecados, alguns jornalísticos. De alguns, envergonhava-se; de outros, tinha orgulho. Foi um sujeito polêmico. Errou, às vezes por omissão, às vezes por excesso. Irritou muita gente, talvez mais do que a média dos jornalistas costuma irritar. Fez muitos amigos, mas também muitos inimigos. Todos, de alguma maneira, tinham razão, seja para a amizade, seja para a falta dela. Alessandro tinha consciência de tudo isso. Mas, numa terra em que o obituário do pior dos mortos omite sempre as críticas mais ácidas, ou as atenua, surpreendeu-me o tom de alguns artigos escritos sobre ele e, principalmente, na era da internet, os comentários que os leitores deixaram nos sites.

Não é uma crítica, seria até sinal de saúde jornalística se a verdade aparecesse inteira. Mas, do meu ponto de vista, creio que a coisa ficou desbalanceada. Por isso, farei aqui um obituário apenas com as coisas que o Alessandro gostaria de ver escritas sobre si mesmo. A começar por esta verdade: se você quer saber quem foi amigo dele e quem não foi, basta seguir esta regra: se o sujeito se referir a ele como Porro não foi amigo. Alessandro detestava ser Porro. Dito isto, vamos fazer um artigo azul, a cor preferida do Alessandro. Um artigo verdadeiro, mas com o pecado inverso dos cometidos nos que andei lendo: só com as coisas boas.

Alberto Dines, numa declaração sobre a morte de Alessandro Porro, veiculada pelo noticiário da TV Globo, disse que ele era um jornalista da geração romântica, desses que não existirão mais. É verdade. Ele era romântico em muitos sentidos: com as mulheres, com a vida, com a profissão. E, como sublinhou o Dines, era também um batalhador, daqueles que pegam no batente todos os dias, o que não é nenhuma contradição. Porque ele tinha a empolgação dos românticos, a energia dos românticos, a disposição dos românticos. Mas era um tipo especial. Gostava de trabalhar tanto quanto gostava de se divertir. O seu mérito é que ele se divertia trabalhando e trabalhava se divertindo. No meio do trabalho, pausa para uma piada, para contar uma boa história, para soltar uma gargalhada como só ele sabia. No meio de uma festa, a cabeça trabalhando a mil para anotar tudo mentalmente e poder chegar no dia seguinte com novas pautas na redação.

Eu o conheci em 1986, quando trabalhava na revista Afinal, já então vivendo seu período de crise financeira. Acho que eu estava sem ganhar salário havia uns três ou quatro meses, vivia do cartão de crédito, a dívida era altíssima. Alessandro me telefonou e marcou um almoço. Passei antes na Veja e fomos à Adega do Valentim, que ficava perto dos escritórios da Editora Abril no Rio. Alessandro tinha acabado de chegar de uma temporada de 12 anos no exterior, entre Paris, Tel Aviv, Londres, Buenos Aires e Roma. Ao me receber, foi direto ao ponto: “Belo (ele chamava a todos de “belo”e “bela”), cheguei ao Rio, depois de tanto tempo fora, sem conhecer mais ninguém. Milton Temer me indicou o seu nome. Claro, fiz uma pesquisa com todos que encontrei. Mas, belo, ninguém conhece você!” Eu, sempre muito tímido, já estava ficando arrasado com o meu anonimato, quando o próprio Alessandro me salvou: “Mas aí encontrei o Milton Coelho da Graça e ele também gosta muito do seu trabalho. Belo, com os dois melhores Miltons do Rio referendando o seu nome, eu não tenho como não convidá-lo. Aceita trabalhar comigo”?

Pronto para o safári

Numa primeira etapa, trabalhamos juntos por quase três anos, ele como chefe da sucursal de Veja no Rio, eu como editor-assistente. Em São Paulo, a nos chefiar, José Roberto Guzzo, Elio Gaspari e Dorrit Harazim. Para mim, evidentemente, foi um aprendizado intenso. De trabalho e de vida. Alessandro, judeu, e, eu, de origem muçulmana. Mas nunca (e nunca aqui não é um advérbio qualquer) falamos dessa curiosidade. Formávamos uma dupla no trabalho e não seria surpreendente que o aparente par de opostos (aos olhos de muitos) servisse para aquele tipo de piada introdutória quando se recebe alguém de fora. Mas nunca fizemos isso. Porque esse é o ponto: não há nada mais próximo a um muçulmano do que um judeu e vice-versa. Ele falava das tradições dele, eu das minhas, e nos sentíamos de uma mesma família. E éramos.

Alessandro gostava de cultivar uma imagem de bon vivant, e para quem não o conhecia, isso talvez significasse que ele trabalhasse pouco. Mas não houve um dia sequer em que ele deixasse de chegar à sucursal da Veja pontualmente às dez da manhã, na maioria das vezes antes de mim, mesmo tendo ficado numa festa até cinco da manhã. Ele gostava de festas. Mas tinha uma excelente capacidade de trabalho. E de contar histórias. Pena que não pôde publicar todas em livro, apesar do meu eterno estímulo para que ele o fizesse.

Vou contar aqui umas poucas histórias, as minhas preferidas. Em 1981, Sandro estava em Londres, tentando cumprir uma pauta de Veja. Daquelas praticamente impossíveis, mas que só quem tenta consegue: entrevistar um terrorista do IRA. Alessandro mandava telex regularmente explicando os passos de cada etapa da operação. E era sempre cobrado. Quem conhece a Veja sabe o que é insistência; quem conhece o Sandro sabe da habilidade que ele tinha de adiar o impossível, com boas justificativas. Um dia, Sandro saiu para apurar uma outra matéria, mas antes fez o que fazia todas as manhãs: deixou no telex um relato sobre as tentativas que fizera no dia anterior para chegar até o IRA. A sorte é que ele se demorou pouco na rua. Ao chegar, ele contava, Alessandro encontrou quase dois metros de telex no chão. E aquele barulho que lembrava uma sineta tomando conta de todo o ambiente, sem parar. Era a chefia em São Paulo, dizendo algo assim: “Que IRA que nada, Alessandro! Mataram o Sadat, voa para o Egito!” Ele voou.

Ao chegar ao aeroporto do Cairo, encontrou uma multidão de repórteres suarentos, todos vestidos como ele, com roupas mais quentes. Ele estava como um lorde inglês, mas entrou imediatamente num banheiro e saiu de lá vestido como se estivesse pronto para um safári. Com chapéu, bermuda e camisa cáqui e meias de cano longo brancas (eram as únicas que usava). “Belo, eu teria poucas chances de usar uma roupa como aquela”, ele me disse. A despeito da roupa, naquele número Veja saiu com uma cobertura esplendorosa sobre a morte de Sadat. O romantismo de Alessandro o levava a fazer dessas coisas: trabalhar sim, mas do jeito dele, divertindo-se quando possível.

Olho esquerdo

A morte de Indira Ghandi em 1984 foi um nova aventura, bem mais perigosa. Ele estava em Roma, era uma quarta-feira. Voou às pressas para Nova Delhi, com o país mergulhado num caos: havia distúrbios de rua em quase todas as cidades. Alessandro tinha muitas dificuldades, com sikhs e hindus se digladiando nas ruas.Estava num posto dos correios, passando sua matéria para Veja, quando entrou no telex uma ordem de São Paulo: “Vai para a cidade ?tal?, que lá os distúrbios estão tomando proporções inimagináveis”. Sandro olhou a cidade no mapa e viu que ela ficava a oitocentos quilômetros de onde estava. Mas nem discutiu, nem obviamente saiu do lugar. Interrompeu a transmissão, apurou com os colegas o que estava se passando na tal cidade, assistiu ao noticiário da TV local (CNN não existia), incluiu os detalhes no texto e em uma hora retomou a transmissão da matéria. Manhas de correspondente. E Veja teve mais uma bela reportagem de Sandro. Bons tempos aqueles em que os grandes eventos eram cobertos in loco por olhos tão abertos como os de um Alessandro.

Falar em olhos, no plural, no caso do Sandro, é força de expressão. Ele perdera uma vista, mas poucos notavam. Tinha acabado de chegar a Londres, vindo de quatro anos no Oriente Médio, onde cobriu a guerra civil libanesa. O massacre de Sabra e Shatila, em 1982, foi uma de suas coberturas mais memoráveis, um furo internacional dado apenas pelo instinto de repórter: Alessandro teve a idéia de contar quantos (poucos ) passos existiam entre o comando do exército israelense e os acampamentos palestinos, provando, assim tão simplesmente, que era impossível a desculpa de que o exército de Israel não tinha percebido o massacre. Escapou também da morte, em outra ocasião: aquele famoso hotel em Beirute, que veio abaixo devido a um carro bomba, matando dezenas de jornalistas, era onde ele estava hospedado (escapou por um triz, por ter se atrasado num evento fora). De volta a Londres, decidiu comemorar o fato de que sobrevivera ileso a quatro anos de coberturas na região mais conturbada do planeta: reuniu amigos num restaurante chinês. Estava alegre, em todos os sentidos da palavra. Alegre porque imaginava que teria tempos mais fáceis em Londres, alegre por estar entre amigos, alegre por ter bebido um pouco mais da conta. No fim da noite, indo ao banheiro, que ficava um andar abaixo, tropeçou, rolou as escadas e bateu com a fronte na quina do corrimão. O nervo ótico foi atingido e ele perdeu completamente a visão do olho direito. Disse-me que processou o dono do restaurante, mas perdeu a ação: a nota fiscal do restaurante, com um consumo alto de bebida alcoólica, provou que a culpa era ao menos de ambos, cliente e restaurante.

O olho não funcionava, mas ninguém notava. Eu notei pouco tempo depois de começar a trabalhar com ele. Alessandro adorava estar atualizado com todas as tecnologias, era vidrado em toda espécie de novidade (vibrou quando a sucursal recebeu o seu primeiro aparelho de fax). Jamais abriu mão de máquina de escrever eletrônica, que era o sonho de consumo da época. A máquina dele fazia sucesso, e ele gostava de exibi-la aos visitantes. Era compacta, mas com muitos recursos: ele datilografava um bom volume de texto e, só depois, a máquina começava a “bater”. Ele datilografava, velozmente, mas apenas com o dedo indicador da mão direita. Era engraçado, vê-lo escrever: botava a ponta da língua para fora, batia o texto, e parava, satisfeito, para ver a máquina funcionar.

Um dia, eu estava do lado direito dele havia alguns minutos. Ele me chamara à sala dele, mas estava tão entretido com a máquina que não me viu chegar. A certa altura, impaciente, ele gritou, me chamando: “Ali!”. Eu respondi: “Estou aqui do seu lado, Alessandro”. Foi então que o pescoço dele deu quase um giro completo para que o olho esquerdo pudesse me ver. E ele me disse, no estilo dele: “Belo, sou um pobre ceguinho”. E contou-me a história do restaurante chinês.

Último texto

Tinha muitas manias, muito estilo, mas era um repórter. Em 1988, de madrugada, durante as chuvas que arrasaram o Rio de Janeiro, estávamos só quatro pessoas na sucursal. Era uma sexta-feira, dia em que ficava apenas um plantonista até que os jornais do Rio saíssem às ruas. Mas a chuva forte, que começara às onze já inundando algumas ruas da cidade, prendeu na redação alguns de nós: eu, um repórter, um fotógrafo e Alessandro. A chuva foi apertando e se transformou numa tragédia quando a clínica Santa Genoveva desmoronou em Santa Teresa.

Falava-se em centenas de mortos. Eram duas da manhã. As TVs não estavam transmitindo nada, só as rádios, mesmo assim pondo no ar, pelo telefone, relatos de ouvintes. Alessandro pegou o fotógrafo e decidiu rumar para Santa Teresa debaixo daquele temporal. Guzzo já tinha decidido mudar a capa da revista: seriam as chuvas no Rio. Mas, para produzi-la (sete páginas), apenas nós três e o fotógrafo. As dificuldades eram imensas: apurávamos tudo com os órgãos públicos pelo telefone, falávamos com moradores das áreas mais atingidas. Saturnino Braga, o prefeito, estava dormindo e dormindo ficou. Deixara ordens com os funcionários para não ser despertado (ou foi essa a versão que nos deram). De repente, Alessandro voltou da rua. Em certo trecho da estrada das Paineiras, árvores bloquearam o caminho. Para ultrapassar a barreira, só a pé. Alessandro, cego de um olho e com aquela corcunda que o caracterizava, não teria condições físicas. O fotógrafo, jovem, seguiu sozinho, o carro trouxe o Alessandro de volta e, depois voltou para buscar o repórter. Àquela altura, os textos principais estavam prontos: relatos de moradores, o drama dos bombeiros contados pelos próprios, a omissão da prefeitura.

Mas faltava a história da clínica Santa Genoveva. Nossa salvação seria o fotógrafo. Quando ele chegou, explodimos de alegria. Mas ele era gago, estava nervoso com todo o drama que viu e viveu, o que só fazia piorar a gagueira dele. Alessandro tomou a frente da coisa. Tentou acalmar o fotógrafo, mas nada.

O que se viu então foi, para mim, uma experiência inédita: Alessandro ia imaginando as cenas, datilografava-as em voz alta e aguardava a aprovação ou não do fotógrafo. Algo assim: “A estrada estava vazia, poucos carros, nenhum pedestre no caminho: só árvores caídas e destruição”. O fotógrafo ouvia e aprovava. E Alessandro começou a descrever o que teria sido a impressão do fotógrafo diante da clínica. Ele dizia: “E diante da clínica”. E esperava para que o fotógrafo tentasse dizer o que tinha presenciado. Mas o fotógrafo conseguia apenas fazer um gesto com as duas mãos em frente ao nariz, como se reclamasse de um mau cheiro. Alessandro dizia: “O cheiro da morte era forte”. E o fotógrafo, com cara feia, balançava a cabeça querendo dizer: “Não, não”. Alessandro insistia: “Era grande o cheiro dos cadáveres”. E o fotógrafo: “Não, não”. “Era enorme o cheiro de ar puro, de verde, de terra molhada, de vento frio, disso e daquilo”. Falou tantas possibilidades, que o fotógrafo acabou gritando: “De gás, de gás”. Pronto, o fotógrafo, a partir dali, ganhara fluência, e pôde relatar com menos dificuldades o que vivera: a tubulação de gás se rompera, o perigo de incêndio era grande, etc, etc. Às oito da manhã, mandamos o último texto, mas ficamos na sucursal até duas da tarde, esperando a liberação de São Paulo. Estávamos todos exaustos, mas Alessandro queria saber apenas onde estava rolando o melhor almoço da cidade: “Será que vai ter feijoada no Gato Pardo?”

“Não sabe que ele é meio maluco?”

Alessandro era assim, energético, em muitos sentidos, inclusive no campo amoroso. Ele me contava que no início da década de 60 veio ao Brasil para fazer uma matéria sobre o país, então na moda na Europa por causa do filme Orfeu. Apaixonou-se pelo país e por uma linda morena. Visitou Roberto Marinho, que indicou Ibrahim Sued como um dos melhores guias sobre os encantos do Rio. Em sua rápida estada na cidade, conheceu sua namorada e ficou literalmente doido por ela. Em São Paulo, entrevistou Victor Civita, que costumava comprar as matérias de Alessandro para publicar nas revistas da Abril. Civita teria dito a Alessandro: “Por que não escreve diretamente para mim, em vez de eu comprar os seus textos”? De olho no país, na morena e no emprego, Alessandro disse sim. Voltou para a Itália apenas para providenciar a mudança.

De volta ao Brasil, o namoro com a morena durou apenas três meses. Mas Alessandro ficou. A Abril foi a casa dele: em 30 anos, saiu nove meses para trabalhar na Bloch, mas foi com os Civita que ele fez sua carreira brasileira: diretor de sucursal, diretor da revista Realidade, correspondente no exterior. Em 1986, de volta ao Brasil depois de uma temporada de 12 anos como correspondente de Veja (e, seis meses, da Playboy), Sandro assumiu a sucursal da revista no Rio, convidado por Henrique Caban. Reencontrou, quase 30 anos depois a morena da década de 60 e retomaram o romance, tórrido como no início, e também rápido: não durou mais do que seis meses. Alessandro fazia sucesso com as mulheres. Teve seis. E quatro filhos. Em 1968, uma famosa atriz, famosa até hoje, apaixonou-se perdidamente por ele, que prometeu se casar. Quando a Abril o mandou para Paris, ela foi junto, mas ele desistiu do casamento e a atriz voltou de Paris, sozinha.

Alessandro gostava também de dizer que era um descobridor de talentos. E era. Ele dizia com orgulho que descobrira Milton Coelho da Graça, Henrique Caban e Milton Temer, um trinca da pesada. Todos já eram jornalistas, mas estreavam na grande imprensa pelas mãos do Alessandro. Contratou os três quando assumiu como uma de suas primeiras missões a sucursal da Abril no Rio, ainda em meados da década de 60. Num certo Natal, o pessoal se animou numa festa de fim de ano e tudo acabou quente demais, com todos pelados. Victor Civita tomou conhecimento do fato e mandou todo mundo embora, pondo o Alessandro no lugar. Primeiro veio o Milton Coelho, depois o Caban e, por último, Milton Temer. Anos depois, como já contei, graças aos dois Miltons, Alessandro me conheceu e me apresentou ao Caban, que voltara à Veja por um breve período como superintendente de produção (um ano e meio mais tarde, Caban voltou ao Globo, onde estava desde 70, depois de ter trabalhado muitos anos na Abril, tendo sido, inclusive, da equipe fundadora de Veja).

Alessandro era um boa praça. Arrancava o nosso couro, de tanto trabalhar, mas era capaz de uma generosidade ímpar: por duas vezes, por razões pessoais, me demiti de Veja, mas Alessandro sempre encarou a coisa como licença não remunerada, me aceitando de volta depois de 30, 40 dias. Na terceira vez, quando fui convidado pelo Tales Alvarenga para ser editor em São Paulo, eu me mostrei muito envaidecido com o convite, agradeci muito e me disse muito satisfeito. Tales me convidara pelo telefone, quando Alessandro estava fora, fazendo uma matéria. Quando Sandro voltou, eu contei a novidade e me demiti, em caráter irrevogável, alegando mais uma vez problemas pessoais. Sandro quis me dar mais uma licença, mas eu não aceitei. Ele ligou enfurecido para o Tales, coitado, e disse: “Como é que você faz um convite desses sem me consultar? Você não sabe que o Ali é meio maluco? Ele se demitiu!” Tales me ligou em seguida, convencido de que o Sandro fizera algo contra mim, mas eu o convenci de que não era isso, eu não poderia mesmo ir para São Paulo.

Foi assim que saí de Veja, disposto a abrir uma livraria, projeto que fracassou. Eu fiquei seis meses sem trabalhar, até que o dinheiro acabou e eu tive de escolher entre dois convites, um do Jornal do Brasil, outro do Globo, vindo do Caban. Era para ser chefe de reportagem dos Jornais de Bairros. Aceitei, e foi no Globo, com Evandro Carlos de Andrade, Caban e Merval Pereira que aprendi o principal do que sei e tive as mais importantes oportunidades.

Código genético

Conto tudo isso não para tirar casquinha da biografia do Alessandro, mas para mostrar o quanto ele foi generoso comigo, o quanto eu sou seu devedor. E, portanto, o quanto foi duro quando tive de demiti-lo do Globo. Ele conta o episódio no seu último livro ? Memórias do meu século. E conta tudo com grande precisão jornalística: é tudo verdade. Eu nunca li o livro. Não queria me magoar, não queria responder ao Alessandro. Graças a isso, mesmo depois do livro, mantivemo-nos amigos. Distantes, porque ele foi morar em São Paulo. Mas sempre que nos encontrávamos, era a festa de sempre. A primeira vez depois do livro, notei uma certa preocupação da parte dele, mas ele voltou ao normal, tão logo notou que meus sentimentos continuavam os mesmos. Boa providência não ter lido o livro antes. Talvez eu tivesse perdido, ainda mais, os últimos anos de convivência com o Sandro.

Li o livro agora, depois que ele morreu. Reconheço aqui e ali carinho por mim, mas também mágoa. Ele me transforma numa caixa de Pandora. Apareço para avisá-lo do fim da coluna “Swann”, cujo titular era ele, apenas nove meses depois de assumi-la, como substituição da coluna do Zózimo Barroso do Amaral. Foi uma das mais difíceis e ingratas tarefas que ele já enfrentou. E apareço novamente como aquele que o demitiu, seis meses depois disso, da função de correspondente do Globo em Roma, para onde ele foi mandado depois que “Swann” acabou. E, como disse, não me queixo, o relato é verdadeiro. Mas digo que ele me transforma numa caixa de Pandora, não por contar os dois episódios, mas porque ele não encontrou espaço para me mostrar dando também as boas notícias. Eu entendo.

Foi em 1995 que retomamos a parceria profissional. Ele tinha saído da Abril dois anos antes, depois de 30 anos de trabalho. E o Globo, onde eu era o editor-chefe, contratou-o com alegria, como repórter especial da sucursal de São Paulo. Foi um período muito produtivo e uma parceria boa para os dois lados: para ele e para o Globo. Ele não estava ali por seu meu amigo, mas por ser um ótimo repórter. No fim de 1997, aceitou o convite de Merval Pereira, então diretor de Redação do jornal, para ser o substituto de Zózimo, uma tarefa arriscada para qualquer um. Não deu certo. Alessandro tentou fazer uma coluna dele, mas o público queria uma coluna do Zózimo. Nove meses depois, Alessandro embarcaria como correspondente para Roma. Na Itália, Alessandro foi atingido pela desvalorização do real: em todos os jornais, cortes nas despesas em dólares, enxugamento de quadros.

Como ele conta em seu livro, eu telefonei para ele no dia 2 de fevereiro. Dei-lhe a notícia. Ele ouviu e, segundo conta, decidiu me pregar uma peça. Depois de dizer que entendia, que a vida continuava, ele me disse: “É, eu entendo a sua tristeza. Só uma coisa me deixa espantado: você tinha de me anunciar esta tragédia toda justo hoje, no dia do meu aniversário? Você, depois de tantos anos, não podia lembrar que hoje é 2 de fevereiro… Você sabe que eu curto o meu aniversário, me lembra o tempo em que eu vivia em Nápoles, com meus pais”.

Era mentira. Como confessara páginas antes, Alessandro detestava aniversários, não ligava para a data, preferia esquecer que estava ficando mais velho. De qualquer forma, aquela noite, já difícil por todas as outras decisões que eu tive de tomar, ficou ainda pior. Alguém me disse: “Não é fácil demitir um amigo”. Mas não era isso. Eu não tinha demitido o amigo, porque nossa amizade, eu tinha certeza, continuaria. Eu tinha demitido o profissional. O mesmo que eu contratara quatro anos antes. Alessandro voltou, e continuou fazendo, para outras publicações, o que sempre fez: escrever.

Na hora do almoço de domingo (12/10), quando Valéria Schilling, ex-mulher do Alessandro, ligou-me para avisar que ele tinha morrido, levei um susto. Ele nunca parou de fumar, de aproveitar a vida. Mas nós que o conhecêramos tínhamos a mania de achar que no Alessandro isso não era um problema. Ele se encarregava de espalhar que o código genético dele era poderoso. Não era.

Durante a semana, li o livro dele, li os obituários, os comentários de leitores, troquei e-mails com muitos amigos que conheceram o Alessandro, e decidi escrever esse artigo. Para homenageá-lo, sem dúvida. Mas também para imitá-lo, repetindo a frase com que ele encerra belamente o livro:

? Que Deus me perdoe, mas eu gosto de contar como foi.

Devia ser esse o lema de nossa profissão.

(*) Diretor-executivo da Central Globo de Jornalismo

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