Segunda-feira, 20 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

PRIMEIRAS EDIçõES > **

Banalização do mal, politização das tragédias

Por lgarcia em 01/01/2003 na edição 205

TIM LOPES (1951-2002)

Alberto Dines

Poucas horas antes de ser confirmada a informação de que o repórter da Rede Globo foi barbaramente torturado e mutilado, depois baleado e queimado pelo crime organizado do Rio, as legiões de leitores da Folha de S.Paulo encontraram na edição de domingo, 9/6, apenas uma referência ao desaparecimento do jornalista depois de uma semana inteira de absoluto silêncio.

O comentário não saiu nas páginas de opinião, na coluna do ombudsman ou nos comentários do crítico de TV. Saiu no caderno de televisão (TV Folha, pág. 3) com o seguinte título: "Caso Tim Lopes evidencia desproteção de repórteres".

Nenhum horror, nenhuma indignação, nenhum protesto. Apenas o jogo político e, sobretudo, o jogo pesado entre concorrentes-parceiros.

Para este Observador o caso Tim Lopes evidencia coisa mais grave, assustadora, bárbara: parte de nossa imprensa está emasculada, perdeu sua capacidade de resistir e reagir. Parte de nossos jornalistas estão partidarizados a tal ponto e desumanizados em tamanha proporção que perderam a capacidade de se emocionar com uma tragédia. Anestesiaram-se contra o sofrimento e a violência, esqueceram-se de se solidarizar não apenas com a vítima, sua família e seus amigos, mas, principalmente, com a imprensa enquanto ser vivo e atuante.

O problema da desproteção dos jornalistas não é menor ou secundário. É posterior. Ao secundarizar o horror e ao minimizar a indignação, ao se desmobilizar-se contra o crime e se motivar prioritariamente para as conseqüências do crime, alguns profissionais ? e não apenas os editores da Folha ? estiveram ao longo da semana sepultando Tim Lopes antes mesmo de confirmada sua morte. Abdicaram de se vingar contra os criminosos, preferiram a revanche sombria.

As entidades nacionais ou internacionais ligadas ao exercício do jornalismo reagiram na semana passada com dor, protestaram contra a calamidade da violência e a impunidade dos criminosos. Nenhuma delas, até o momento, alienou-se da condição humana. Reagiram com a alma porque o jornalismo, antes de tudo, é um estado de alma. Não é técnica, não é diploma. O resto ? contrato profissional ou cédula eleitoral ? vem depois. Depois do velório, do enterro e da missa de sétimo dia.

O primeiro dever do jornalista é o exercício do jornalismo. Este compreende: desprendimento, coragem, espírito missioneiro. Se no meio aparecem doses de narcisismo, ambição ou sensacionalismo, isso faz parte do sistema que há quase 200 anos faz da imprensa esta imprensa.

Este Observador, na dupla condição de responsável pelo Observatório da Imprensa televisivo e articulista de um jornal carioca, não ignorou que se nossa imprensa está disposta a jogar-se efetivamente no jornalismo investigativo ? de rua e de campo ? precisará oferecer uma rede de proteção aos seus profissionais. Estabelecer normas internas e procedimentos externos. Investir.

Por ora, imperioso entregar-se à dor. Assumir o luto:

** Os mortos pedem um minuto de silêncio.

** Os caídos pedem respeito.

** As tragédias pedem compostura.

[Texto concluído às 18h de 9/6]

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