Domingo, 19 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

PRIMEIRAS EDIçõES > SILVIO BERLUSCONI

Barão da mídia e a tentação autoritária

Por lgarcia em 18/12/2002 na edição 203

SILVIO BERLUSCONI

Leneide Duarte, de Paris

O primeiro-ministro da Itália Silvio Berlusconi não gosta da imprensa que contesta. O "cidadão Kane" italiano quer manter sob controle total a mídia em seu país e, para isso, vem atentando freqüentemente contra a liberdade de imprensa, com a ajuda de leis feitas sob medida.

Além de exercer seu poder nas três estações da RAI ? emissora de TV estatal cujo conselho de administração é nomeado por parlamentares da coaliz&atildeatilde;o que apóia Berlusconi ?, o primeiro-ministro tem também a TV privada em suas mãos. Com suas três redes de televisão ? ele é o principal acionista do Fininvest, que controla o grupo Mediaset ? o cavaliere é o principal concorrente da TV pública. Um caso escandaloso de controle da opinião, jamais visto num país democrático. Ao deixar o conselho de administração da RAI, em novembro, Luigi Zanda declarou que não tem provas para implicar ninguém diretamente, mas que o enfraquecimento da televisão estatal só pode favorecer a competição privada ? isto é, a Mediaset do primeiro-ministro.

Berlusconi é onipresente. Ele também dá as cartas na mídia impressa, por intermédio de sua empresa Mondadori Periodici, dona de alguns dos jornais mais lidos do país. A Mondadori Libri controla a edição de livros e outras empresas jornalísticas, como Il Foglio e Il Giornale, "pertencem" à sua mulher e ao seu irmão. Seu império midiático é de fazer inveja a Roberto Marinho e até mesmo ao verdadeiro "Citizen Kane". Como ele construiu uma das maiores fortunas do mundo começando como vendedor de aspiradores de pó é um dos mistérios da Itália, onde é acusado de lavar dinheiro da Máfia. Mas isto é uma outra história.

Conflito de interesses

O caso mais recente de perseguição a jornalistas foi a condenação, em novembro, do jornalista e senador Raffaele Jannuzzi a uma pena de prisão por "delitos de opinião". O senador já perdera sua imunidade parlamentar em maio de 2001. Sobre esse caso, o secretário-geral da organização não-governamental Repórteres Sem Fronteiras (RSF) Robert Menard, em correspondência dirigida ao ministro da Justiça Roberto Castelli, declarou que "condenar jornalistas a penas de prisão por delitos de opinião é contrário aos padrões das Nações Unidas e indigno de uma democracia". Em Paris até o dia 16 de dezembro para suas atividades parlamentares do Conselho da Europa, Jannuzzi reagiu dizendo que pretende voltar a seu país quando a Justiça italiana reconhecer seu direito à imunidade como membro da Assembléia Parlamentar do Conselho da Europa.

Por duas vezes Robert Menard pediu para ser recebido pelo primeiro-ministro Berlusconi a fim de discutir a situação da imprensa na Itália. Jamais Berlusconi lhe deu resposta. Além disso, RSF já fez sete intervenções por escrito junto às autoridades italianas (em 2001 e 2002) para denunciar atentados à liberdade de imprensa no país.

No relatório de 2002, Repórteres Sem Fronteiras lista dezenas de agressões a jornalistas por parte da polícia, demissões políticas na RAI e violações da liberdade de imprensa. O clima de medo de perseguições num mercado dominado pelo cavaliere leva a uma situação em que jornalistas italianos, mesmo trabalhando em Paris, só aceitam falar em off.

As histórias vividas pelos jornalistas italianos nos dois últimos anos não podem deixar de lembrar o Brasil da época da ditadura ? ou qualquer outro país em que o Estado de Direito e a liberdade de imprensa são um sonho. Na Itália berlusconiana, os homens do primeiro-ministro não se vexam em demonstrar que não gostaram do texto de uma agência de imprensa que relata, no último parágrafo de uma matéria, que Berlusconi foi vaiado por algumas pessoas ao visitar o local do terremoto que recentemente matou algumas crianças.

As intromissões não são o mais grave. Pior são as demissões e os processos políticos. Em abril deste ano, os jornalistas Michele Santoro e Enzo Biagi foram despedidos da RAI simplesmente porque são de esquerda, apesar de apresentarem os dois programas de maior audiência da rede. O argumento usado para explicar as demissões desses jornalistas, que tinham programas de alto nível, é que eles "faziam um uso criminoso da televisão pública". Antes, os dois já haviam sido criticados pelo chefe do governo. Repórteres Sem Fronteiras enviou, em maio, uma carta ao presidente Ciampi pedindo que ele interviesse na situação qualificada de "conflito de interesses", considerando que a liberdade de opinião está ameaçada na Itália.

Incentivo à informalidade

Luigi Zanda e Carmine Donzelli, que haviam assumido altas funções na RAI em fevereiro, designados pela oposição de esquerda, pediram demissão em novembro. Mais que num regime de censura, a RAI passou a funcionar num regime de autocensura rigoroso, como conta Luigi Zanda. Por exemplo: o diretor-geral da RAI suprimiu um programa satírico que zombava de Berlusconi.

E fazer humor com Berlusconi não é uma coisa difícil. Os jornalistas italianos são capazes de contar dezenas de histórias hilariantes do presidente do Conselho de Ministros, como ele é designado oficialmente na Itália. Além de ser um homem sem cultura, o ex-vendedor de aspiradores de pó é um colecionador de gafes. A mais famosa foi aquela que se seguiu ao 11 de setembro. Berlusconi disse que não se podia negar "a superioridade da civilização ocidental" . Logo depois, se deu ao trabalho de convocar os embaixadores dos países árabes para lhes explicar que era tudo uma "deformação" da imprensa. E fez mais. "Provou" que os jornalistas não passam de mentirosos ao colocar no ar uma versão da entrevista na qual não havia a tal frase. Claro, na versão que Berlusconi tinha preparado para os embaixadores árabes a frase desastrada tinha sido devidamente "limpada".

No dia 18 de outubro de 2001, depois de ver o estrago que sua frase causara, Berlusconi declarou aos jornalistas na abertura da conferência de cúpula européia em Gand, na Bélgica: "Não confio mais em vocês. Vocês não vão mais me pegar nos próximos quatro anos".

A última gafe do cavaliere ? seus porta-vozes garantem que ele estava apenas brincando ? foi na semana passada. Ele aconselhou os 5.600 operários desempregados da Fiat a, com um pouco de "sorte" e muita "boa vontade", encontrarem um segundo emprego "talvez não oficial". O primeiro-ministro incentivando a economia paralela, que emprega sem carteira, sem garantias trabalhistas e, obviamente, sem pagamento de previdência e impostos? O chefe do governo poderia ter ficado calado mais uma vez.

Caça às bruxas

A esquerda italiana não se cansa de denunciar Berlusconi por fabricar leis que preservam seus interesses de empresário e atentam contra a liberdade de opinião. Suas leis são comparadas às de Mussolini. É o caso da que permitiu, por delito de opinião, a prisão de 21 jovens do movimento antiglobalização, em 15 de novembro último. O ato de acusação e a ordem de prisão foram feitos pelo tribunal de Cosenza, na Calábria.

A guerra que o cavaliere dirige contra a imprensa já havia sido anunciada por seu atual ministro da Comunicação, Maurizio Gasparri. Em março de 2001, em plena campanha eleitoral, quando era apenas deputado, Gasparri citou, num programa de TV, o nome de três jornalistas e da redação da RAI como alvos prioritários de punições, em caso de vitória da coalizão que levou Berlusconi ao poder. Com a vitória, a caça às bruxas começou imediatamente. É isso o que mostra exaustivamente o relatório 2002 de Repórteres Sem Fronteiras, citando nominalmente casos de jornalistas presos ou espancados pela polícia durante a cobertura da reunião de cúpula do G-8, em Gênova, no ano passado.

Muitos repórteres e cinegrafistas cujos nomes são listados foram feridos quando a polícia invadiu alojamentos de jornalistas instalados em imóveis de propriedade da prefeitura da cidade. Devido à violência dos policiais, muitos desses feridos tiveram de ser levados para hospitais. Como não houve mortos entre os jornalistas, a imprensa do mundo inteiro centrou o foco na morte brutal e desnecessária do jovem militante antiglobalização Carlo Giuliani.

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