Sexta-feira, 26 de Abril de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1034
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Barulho da Folha incomoda leitores

Por lgarcia em 05/04/1998 na edição 42

 

Em seu número 41, de 20/3/1998, este OBSERVATÓRIO, feita a ressalva de que não pretende ser fiscal dos ouvidores da mídia, criticou uma absurda proposta de enquête lançada em 15/3 pela ombudsman da Folha de S. Paulo nos seguintes termos:

Até que ponto interessa ao (e)leitor a vida pessoal do candidato? O ocupante de um cargo público não está obrigado a dar satisfações de seus atos, ainda que privados? Os adversários da investigação sobre esse tipo de assunto argumentam que se trata de invasão de privacidade. (….) Os defensores consideram que o público tem o direito de saber para tomar suas próprias decisões sobre o que deve ou não ser levado em conta no momento de escolher seus representantes. E você, leitor, o que pensa? O que faria se editasse o jornal e tivesse nas mãos uma revelação de caráter pessoal sobre um candidato a presidente da República? E-mails para esta coluna.” (Ver abaixo remissão para o texto da Ombudsman.)

Dizia o texto assinado pelos Observadores:

Ao invés de observar comportamentos jornalísticos para corrigi-los, a coluna da Folha está pretendendo “pautar” a mídia, isto é, produzir factóides, comandar os assuntos que vão dominar o debate eleitoral. Para, em seguida, submetê-los ao apressado escrutínio da Datafolha e, no dia seguinte, à autolegitimação do Datadia. (Abaixo, remissão para “Ombudsman, Midiagate e o novo barulho da Folha”.)

 

Três leitores mandaram mensagens que desdobram o tema. A ombudsman da Folha, Renata Lo Prete, enviou mensagem de protesto contra a nota original do OBSERVATÓRIO. Eis os quatro textos.

 

 


Eduardo B. Cunha

 

Q

ue tipos de revelações de caráter pessoal? Tudo é muito subjetivo. Por exemplo. Se o sujeito passou por dificuldades financeiras ou econômicas que o levaram a descumprir acordos ou contratos, fica muito difícil avaliar até onde foi sua culpa e até que ponto isso pode comprometer sua atuação política. Se foi assunto familiar, aí a coisa tem que ser desconsiderada; afinal, ninguém viveu a experiência da pessoa para sair fazendo julgamentos de valor. Ou pior, pré-julgamentos.

Se foi de âmbito penal, de que nível? Aí tem que valer o que foi decidido pela Justiça. O que pondero ser mais importante saber é se o sujeito tem uma atuação empresarial e costuma violar as leis ou deixar de pagar os impostos devidos. Isso sim é que deveria ser mais divulgado, pois é um detalhe que pode sinalizar a atuação amoral, futura do cidadão. E por aí vai.

Portanto, a divulgação de fatos da vida pessoal tem que ser ponderada, mas, na maior parte das vezes, isso não pode ser mais importante que as propostas do cidadão, seu cabedal de idéias, suas intenções e disposição para trabalhar em prol do bem comum e de seus concidadãos.

De antemão, tem-se que ser contra esse tipo de divulgação, a não ser que ela enxovalhe moralmente o sujeito ou demonstre uma tendência que pode vir a comprometer a atuação política do cidadão.

 


José Alaércio Nano Damasco

 

A

propósito da manifestação da ombudsman em 15 de março, tive a oportunidade de enviar o seguinte texto:
Não bastasse a Globo nos enfiar goela abaixo falsos dilemas em “Você Decide” , a Folha, por meio de sua ombudsman, acredita poder fugir às suas responsabilidades, pedindo que seus leitores externem o que fariam se editassem um jornal e tivessem nas mãos uma revelação de caráter pessoal sobre um candidato a presidente. Mais ou menos como os estudantes secundaristas que pediam ao professor para deixar fazer greve no dia seguinte.

Ora, vamos deixar de lado a hipocrisia. Nas eleições de 1994, a Folha confessadamente omitiu (só divulgou semanas depois) notícias sobre acontecimentos que cercaram o processo eleitoral, mais importantes que derrapadas do cidadão-candidato em sua vida pessoal. Presentemente, não dá qualquer repercussão às gravíssimas denúncias feitas pelo repórter Cláudio Tognolli sobre o Poder Judiciário (entrevista a Meus Caros Amigos, ed. de março), ao mesmo tempo em que, volta e meia, torna a falar na casa atualmente ocupada pelo Lula (esse assunto é pessoal?). Antes disso, limitou a um cantinho de página (no Painel) a chamada “crise da sala do cafezinho” do Tribunal de Justiça, episódio em que, por inspiração do seu presidente, se tentou discutir o comportamento ético de ex-magistrados, enquanto abriu páginas e páginas para discussão sobre um livro de Caetano Veloso. A Folha deve, portanto, voltar a ser um jornal. Ou não? Vocês é que decidam.
Hoje, 22 de março, minha desconfiança foi confirmada: ela só enxerga aquilo que interessa, e quando interessa, ou não causa comprometimentos à Folha.

 


José Rosa Filho

 

M

uito oportuna a matéria sobre a nova Ombudsman da Folha. Também estranhei a alteração feita na coluna e me chocou a pesquisa proposta por ela – deu-me a impressão de insegurança logo de quem se espera firmeza nas posições sobre os critérios que devem orientar o comportamento ético do jornalista. Acho o assunto privacidade de homens públicos um dos mais sérios dessa época globalizante da notícia. O que é vida privada quando se trata de uma pessoa, caso de um presidente da República, cujos atos e atitudes vão influir decisivamente nos destinos de milhões de pessoas ?

Parabenizei a nova Ombudsman pela sua designação mas gostaria que ela nada perguntasse ao leitor e sim afirmasse as suas posições com segurança, em nome do que ainda resta de independência no meio jornalístico.

A propósito, vale ler o artigo de Jânio de Freitas “Arrocho de notícias”, na Folha de 20 de março. Acho que sonegar notícia com finalidades escusas não pode encontrar guarida em pessoas com um mínimo de responsabilidade e ética. E penso que o que se faz no quarto pode ser privado desde que não vá, mais cedo ou mais tarde, direta ou indiretamente, mudar para pior a vida de milhões de contribuintes.

 


Recebemos da ombudsman da Folha reparos quanto ao teor da nota em que se criticou sua proposta. Eis a mensagem:

Renata Lo Prete

 

A

propósito do artigo “Ombudsman, Midiagate e o novo barulho da Folha“, gostaria de fazer as seguintes observações:

Tudo o que desaprovem em meu trabalho deve ser creditado a mim, e não à direção da Folha.

Os senhores têm todo o direito de não gostar do que escrevo, mas confesso que me impressionou a rapidez com que chegaram a esse veredicto. Não deveria, no entanto, ter me surpreendido. No final de janeiro, logo após o anúncio de minha nomeação e mais de um mês antes que assumisse a função de ombudsman, os senhores já publicavam comentário grosseiro e gratuito a meu respeito, indicativo do tipo de “observação” que me seria dispensada dali em diante.

Peço apenas que, na próxima vez, dispensem a ironia. Não me agrada ser chamada de “competente” por quem pensa o contrário. Quanto a ser “reservada”, não reconheço nas pessoas que me atacaram autoridade para emitir juízo sobre características de minha personalidade, uma vez que elas não me conhecem, e nem eu a elas.

 

LEIA TAMBEM

Ombudsman, Midiagate e o novo barulho da Folha

Texto da Ombudsman da Folha

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