Domingo, 24 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

PRIMEIRAS EDIçõES > LER E OUVIR

Basta olhar à nossa volta

Por lgarcia em 05/06/2002 na edição 175

LER E OUVIR

Isabel Rebelo Roque (*)

Parabéns ao Deonísio da Silva pelo artigo, e à Cláudia Rodrigues também pelo artigo sobre o artigo [ver abaixo remissões para os dois textos]. Como diria uma avozinha conciliadora diante dos netos: "Você está certo e você também está certo". Mas as considerações do Deonísio sobre a autoria de frases "caetaneadas" como "é proibido proibir" e "navegar é preciso, viver não é preciso" me lembraram outro imbróglio autoral risível, se não fosse trágico, que testemunhei com estes olhos que a terra um dia há de comer, não sem antes terem sido bastante cinerados pela luz do monitor.

Já se vão anos e anos, Renato Russo ainda era vivo, e estava eu passeando pelo Shopping Center Norte, em São Paulo, às vésperas do Dia dos Namorados. Ao passar diante de uma loja de CDs vejo que suas vitrines estão "enfeitadas" com trechos românticos de letras de músicas, escritos em papel pardo. Sorrio diante da precariedade da decoração e me ponho a ler… Aí, topo com a "coisa":


"Amor é fogo que arde sem se ver

é ferida que dói e não se sente."

Renato Russo


E não se pode dizer que Renato Russo não tenha feito tudo direitinho. Está tudo lá, no encarte do disco dele: creditado a Camões o que é de Camões, à Bíblia o que é da Bíblia… Mas encartes têm letras demais, palavras demais, frases demais. Dá preguiça de ler…

Qual é a solução? Sinceramente não sei. Trabalho com material didático (livros) há mais de 15 anos e até hoje não encontrei quem tivesse a receita para resgatar a "relação bunda-cadeira-hora, professor ensinando" de que fala o Deonísio. Mas essa é uma outra história, a respeito da qual pretendo falar em outro texto ao OI, assim que conseguir desatar do tornozelo a corrente com uma bola de ferro contendo a inscrição "MEC" que venho arrastando.

No mais, cito quem, senão o bom e velho Caetano, cuja obra continuo desgraçadamente a admirar, apesar das poses absurdas que ele insiste em conceder à revista Caras, de óculos na ponta do nariz, livro na mão, estante de livros ao fundo, fazendo "cara de conteúdo": "Se você tem uma idéia incrível é melhor fazer uma canção. Está provado que só é possível filosofar em alemão."

Aliás, ouso dizer, talvez esteja aí a resposta à pergunta que deu início a tudo isso. Alguém já ouviu falar em algum filósofo brasileiro? (Bacharel em filosofia e filósofo de mesa de bar não valem no cômputo.) Onde/por que será que mano Caetano se desviou do caminho? Acho que é só olhar à nossa volta para entender pelo menos um pouco do que se passou.

(*) Editora de livros didáticos

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