Quarta-feira, 13 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

PRIMEIRAS EDIçõES > FUTEBOL & POESIA

Bate-bola com um craque

Por lgarcia em 19/08/2003 na edição 238

FUTEBOL & POESIA

A ginga e o jogo, de Armando Nogueira, 200 pp., Editora Objetiva, Rio de Janeiro, 2003; URL <www.objetiva.com.br>; preço R$ 28,90; título da redação do OI


[do release da editora]

Os 78 textos apresentados em A ginga e o jogo, de Armando Nogueira, transcendem o ofício do cronista esportivo. São pequenas confissões, comentários críticos, histórias curiosas e divertidas. É a verve do jornalista que se tornou uma referência neste universo de saques, dribles, toques e pênaltis. O fascínio de 14 Copas do Mundo, a raça do torcedor, a disputa dos clubes, a grandiosidade das Olimpíadas.

"O esporte é uma das mais ricas manifestações de vida que eu conheço. Contém todas as virtudes e todos os pecados da criatura humana, dos mais sublimes aos mais subalternos", afirma Armando. Craque das palavras ele sabe como ninguém unir técnica e poesia, informação e imaginação, seriedade e ironia para descrever a beleza e a emoção do esporte, seja uma partida de vôlei, tênis, basquete, e, claro, de futebol, sua maior paixão.

Da Copa do Mundo de 1950 ao último mundial em 2002, Armando testemunhou as grandes conquistas e decepções do futebol brasileiro. Como escreve o jornalista Sergio Augusto no prefácio do livro, "à exceção de Domingos da Guia, o Machado de Assis da grande área teve o privilégio de apreciar ao vivo e de perto os maiores craques do futebol das últimas seis décadas. De Heleno a Zizinho, de Ademir a Nilton Santos, de Puskas a Di Stéfano, de Garrincha a Pelé, de Gerson a Tostão, de Zico a Romário, de Cruyff a Beckenbauer, de Ronaldo a Robinho".

Alguns textos do livro apresentam um tom confessional onde o cronista revela seu prazer em voar de ultraleve, sua eterna admiração por Otto Lara Resende "com quem aprendi um pouco a arte cristã de conviver", o gosto pelos poetas e pelas palavras. Mas nada que se compare à paixão por um time de futebol. "Amar um clube é muito mais que amar uma mulher."

Assim começa o texto da crônica "O Botafogo e eu" em que Armando revela o amor pelo seu time de coração: "O Botafogo tem tudo a ver comigo: por fora, é claro-escuro, por dentro, é resplendor: o Botafogo é supersticioso, eu também sou". E conclui: "O Botafogo é bem mais que um clube ? é uma predestinação celestial".

Em A ginga e o jogo, o leitor vai se emocionar com os bastidores do esporte e seus ícones. Vai relembrar momentos cruciais de grandes atletas brasileiros ? como Paula, Guga, Rodrigo Pessoa ? e vai se divertir com os textos daquele que, ao lado de Mario Filho e Nelson Rodrigues, forma a santíssima trindade da crônica esportiva brasileira.

O jornalista Armando Nogueira é um dos cronistas esportivos mais influentes de sua geração. Passou pela redação de jornais, revistas e emissoras de televisão, imprimindo sempre um estilo único, romântico e poético. Nasceu em Xapuri, Acre, em 1927. Formou-se em direito no Rio de Janeiro e aos 23 anos de idade iniciou a carreira jornalística no Diário Carioca. Trabalhou nas revistas Manchete e O Cruzeiro, no Jornal do Brasil, na extinta TV Rio e na Rede Bandeirantes de televisão. Foi diretor do departamento de esportes da Rede Globo de televisão e, de 1966 a 1990, da Central Globo de Jornalismo.

Armando Nogueira é autor de nove livros, todos sobre esporte: Drama e glória dos bicampeões (em parceria com Araújo Neto), Na grande área, Bola na rede, O homem e a bola, Bola de cristal, O v&ocircocirc;o das gazelas, A copa que ninguém viu e a que não queremos lembrar (em parceria com Jô Soares e Roberto Muylaert), O canto dos meus amores e A chama que não se apaga.

Atualmente, o jornalista apresenta o Programa Armando Nogueira, no canal Sportv, e é cronista da Rádio Bandeirantes de São Paulo. Sua coluna "Na Grande Área" é reproduzida em 60 publicações diárias do país.

O opinionismo grassa nas editorias de esporte. A despeito disso ainda há poesia no esporte. Há poesia na crônica esportiva?

Armando Nogueira ? A pergunta talvez devesse ser: há poesia no esporte? Se há, alcançaria ela a crônica esportiva? Minha resposta é a seguinte: o esporte, na essência, é ludicidade; o que é lúdico é poético. A crônica esportiva procura exprimir, com palavras, a emoção que rola nos estádios, nos ginásios, nas pistas, nas piscinas.

Em que fontes você bebe e bebeu para chegar à qualidade dos textos que oferece aos leitores?

A.N. ? A minha fonte é todo o universo esportivo que gosto de ver com os olhos da contemplação. Procuro chegar ao gesto corporal, onde nasce a poesia do esporte: poesia em movimento. Gosto de interpretar o fato esportivo, dizendo: "Melhor que o jogo é a jogada; melhor que a jogada é o jogador; melhor que o jogador é o gesto".

Que critérios usou para selecionar as crônicas de A ginga e o jogo?

A.N. ? A seleção de crônicas do livro foi feita por dois jornalistas de minha estima pessoal: Theresa e Chico Walcacer. Aos dois confiei a tarefa, deixando a critério dos dois a liberdade de eleger o fio condutor.

Como avalia a cobertura dos Jogos Panamericanos? O número de medalhas de ouro conquistadas pelo Brasil corresponde a marcas melhores e mais competitivas?

A.N. ? No domingo (17/8), escrevo no Jornal do Brasil e no Estado de S.Paulo um nota destacada que responde perfeitamente a sua pergunta. Está lá a minha avaliação do Brasil no Pan [abaixo, a transcrição da nota].


O medalhaço do Pan

Copyright O Estado de S.Paulo e Jornal do Brasil, 17/8/03

O Brasil vai voltar de Santo Domingo coberto de medalhas. Na hora em que escrevo esta nota, o 3? lugar no ranking está brilhantemente assegurado. Ficam os brasileiros abaixo dos Estados Unidos e de Cuba, deixando no chinelo os canadenses e, principalmente, os argentinos. A velha diferença, todos sabem, é sempre com o vizinho. "Vecinos, pero, distantes…" Foi boa a performance brasileira? Sem dúvida. Houve conquistas razoáveis em algumas modalidades.

Uma coisa, porém, é bom ressaltar: como a vitória é sempre estimulante, o medalhaço do Pan vai dar frutos, sem sombra de dúvida. A garotada vai se motivar. Nesse ponto, a contribuição da tevê é valiosa. Passou duas semanas, mostrando atletas brasileiros no pódio, moços e moças a cantar, com fervor, o hino nacional.

O outro porém da jornada brasileira vai na direção da cautela. Convém não exagerar na avaliação das conquistas. Contar medalhas, relembrando Winnipeg, tudo bem. Temos mais é que celebrar. Mas, por favor, nada de fazer projeções ufanistas.

Atenas será outra história. A lição de Sydney não pode ser esquecida.

Chegamos lá, banhados no ouro solar de Winnipeg, e de lá saímos com cara de choro. O certo, agora, é dar ao triunfo de Santo Domingo um lugar modesto no coração e trabalhar, duro. Criar novos centros de excelência. Apurar, mais e mais, o talento, a capacidade e o entusiasmo dos heróis de hoje.

É assim que o Brasil, um dia, será, realmente, uma potência olímpica.


Pelo andar da carruagem, faremos uma Olimpíada melhor em Atenas do que em Sidney?

A.N. ? Creio que Atenas poderá ser um pouquinho melhor que Sidney. Mas só um pouquinho…

Como a imprensa pode contribuir para favorecer políticas públicas que promovam o esporte no país?

A.N. ? Fazendo o que tem feito: cobrar uma atuação mais efetiva do governo junto às entidades esportivas. Há uma caixa-preta no comando do esporte que precisa ser devassada pelo governo. A imprensa tem feito um bom trabalho de promotoria, denunciando a cartolagem desonesta.

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