Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

PRIMEIRAS EDIçõES > ROSINHA vs. ALDIR BLANC

Bate-pronto contra as críticas

Por lgarcia em 25/12/2002 na edição 204

ROSINHA vs. ALDIR BLANC

Aquiles Rique Reis (*)

Aldir Blanc faz falta em qualquer órgão da imprensa brasileira. O Dia não pensa assim. Pior para O Dia. Se fosse ruim apenas para o jornal carioca, tudo bem. Só que os diretores do Dia privaram seus leitores do texto esplêndido do poeta Aldir. Não bastasse isso, foram grosseiros ao negarem o direito do articulista saber que tinha sido demitido. Aldir enviou seu texto para o jornal, como fazia desde 1995, e só então foi informado que havia sido dispensado. Nenhuma comunicação, nenhum respeito ao profissional, nada!

Em sua coluna anterior à demissão, Aldir comentou sobre a triste e infeliz frase do ex-governador Anthony Garotinho que sugeria à sua mulher Rosinha, governadora eleita do Rio de Janeiro, que desinfetasse o Palácio Guanabara antes da sua posse em 1? de janeiro de 2003. Mesmo com o desmentido do ex-governador, ficou clara e mostrou-se gratuita a grosseria injustificável contra a governadora Benedita da Silva. A frase deixa transparecer, inclusive, uma indesejável e disfarçada manifestação de racismo. O episódio seria lamentável se não tivesse adquirido tons ainda mais fortes depois da demissão sumária de Aldir Blanc.

A governadora eleita está disparando processos contra jornalistas que lhe fizeram alguma crítica. Seria desejável que ela pedisse um democrático e sagrado direito de resposta. Assim, saberíamos o que pensa Rosinha Garotinho. Mas, não! Jornalistas terão que comparecer aos tribunais para prestarem declarações sobre suas opiniões e porque “ousam” expressá-las.

Nunca saberemos se a demissão do Aldir foi fruto de algum pedido do casal Garotinho em represália às críticas. Sabemos, sim, que os leitores do Dia perderam o direito de conhecer o que pensa o poeta de canções que marcam e fazem a música brasileira ser ainda mais rica e bela.

Solidariedade a comemorar

Como muitos, fiquei chocado com a violência da demissão imposta ao Aldir. Eu, que mal havia completado sete semanas como articulista da coluna “Visão da Cidade”, publicada às segundas-feiras no caderno Rio do Jornal do Brasil, encerrava meu artigo publicado em 16/12 com uma questão aos diretores do Dia. Dizia-lhes que a palavra estava com eles, e que somente eles poderiam responder o porquê da demissão de Aldir Blanc, sem a menor justificativa. Ou melhor, tentei dizer-lhes. Sem que eu tivesse sido comunicado, alguém houve por bem “zelar” pelo bom nome do jornal co-irmão de parcerias recentes e suprimiu todo o parágrafo. Se essa intromissão não é censura, então, é o quê?

Tomei conhecimento que o diretor de Redação Nilo Dante declarou não ter ordenado a retirada do parágrafo. De todo modo, a essa altura já não tem mais a menor importância saber qual editor do JB deu a tal ordem. O fato é que, mesmo sentindo muito abandonar meu sonho de escrever para um jornal de importância nacional, como é o caso do JB, mandei um e-mail para o sr. Dante [veja abaixo] declarando que em função da arbitrariedade cometida contra meu direito à livre expressão eles não mais contariam comigo no seu quadro de colaboradores.

Tenho recebido inúmeras manifestações de solidariedade, o que tem servido como incentivo para superar este momento de tristeza e desânimo. A todos os que me escrevem ou telefonam tenho repetido aquilo que um dia ouvi do meu saudoso e querido amigo Herbert de Souza, o Betinho:

Solidariedade, amigos, não se agradece, comemora-se.

Um brinde! Afinal, como disse o Aldir e nós cantamos, amigo é pra essas coisas.

(*) Músico, integrante do grupo MPB4

 

From: Aquiles Reis

To: Nilo Dante

Cc: João Pinheiro ; João Marcelo ; João Carlos Leal ; boechat

Sent: Monday, December 16, 2002 5:41 PM

Subject: Coluna censurada

Nilo Dante, Diretor de Redação do Jornal do Brasil,

Fiquei desagradavelmente surpreso ao constatar que todo o parágrafo onde eu comentava a demissão do Aldir Blanc, pel?O Dia, foi cortado sem a minha autorização ou conhecimento.

Estou chocado com a interferência arbitrária e com a censura ao texto que enviei para ser publicado na coluna “Visão da Cidade”, desta segunda-feira. Estas são características dos piores momentos da ditadura que infelicitou o nosso país e que eu julgava enterradas. Pelo visto, errei!

Apesar de conhecer o acordo operacional assinado pelo JB, O Dia e a revista Forbes, jamais passou pela minha cabeça que eu seria censurado ao abordar uma questão envolvendo um dos participantes do referido acordo. Escrevi e assinei um texto que expressa, exclusiva e tão-somente, a minha opinião. Não vejo como isto poderia atrapalhar ou incomodar os parceiros de acordo.

Estou certo de que a atitude tomada pelos editores do JB foi um desrespeito a mim, ao meu direito de expressão e, principalmente, aos leitores do Jornal do Brasil. Não será com atitudes como essa que o JB voltará a ser um jornal sempre a frente dos momentos históricos do Brasil.

Por tudo que relatei, devo informá-lo que não quero mais fazer parte do grupo de colaboradores do Jornal do Brasil. Não é sem tristeza que afirmo isto. Tomo a decisão decepcionado e humilhado pela forma como fui desrespeitado pelo jornal que o senhor edita.

Sem mais, despeço-me. Atenciosamente, Aquiles Rique Reis

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