Terça-feira, 16 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1008
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BBC responde na bucha

Por lgarcia em 29/07/2003 na edição 235

BBC SOB TIROTEIO

A crise entre BBC e Downing Street assumiu rumos ainda mais obscuros e espinhosos com a acusação do chairman da emissora Gavyn Davies a ministros do governo Tony Blair de tentarem destruir a independência da BBC para se vingar da recusa da corporação em retirar o que disse na polêmica reportagem sobre o dossiê de armas de destruição em massa ? o que gerou forte crise política e culminou na morte do cientista David Kelly.

Em artigo ao Telegraph, Davies afirmou, em 27/7, que as ameaças feitas à BBC são sérias e sinistras. "Mesmo em meio à tristeza que envolve a trágica morte de Kelly, algumas pessoas do governo ou a ele ligadas acharam uma brecha para atacar publicamente a BBC nos últimos dias", disse. "A independência incontestável da direção em face da pressão intensa quase deixou alguns políticos confusos, tal tem sido a determinação destes em influenciar decisões editoriais do mais confiável provedor de notícias e atualidades da Grã-Bretanha. Ameaças encobertas ou nem tanto de ?fontes do governo? para se vingar da BBC reduzindo sua receita, removendo seu diretor-geral e mudando seu alvará, foram muito noticiadas na mídia. Tudo isso demonstra por que a Grã-Bretanha ainda precisa do sistema de governo testado e adotado pela BBC para saber lidar com crises dessa natureza."

Colin Brown e Chris Hastings [The Telegraph, 27/7], contam que é fato inédito um diretor da BBC disparar palavras tão duras ao governo vigente. Davies e seus colegas se sentiram provocados pela afirmação do ex-ministro Peter Mandelson de que a BBC era culpada pela morte de Kelly. Também quiseram se defender de inferências de Tessa Jowell, secretária da Cultura, de que a diretoria da corporação não estava agindo de acordo com as obrigações de seu estatuto.

Davies explica que a diretoria da BBC é eleita pela Secretaria da Cultura, após indicação pública. Tessa Jowell indicou 10 dos 12 diretores, inclusive o presidente e o vice-presidente. "Estranhamente, alguns amigos o governo parecem ter perdido a confiança no julgamento e na honestidade com que se indicam cargos", afirmou Davies. "Nossa integridade está sob ataque e estamos sendo castigados por termos uma visão editorial diferente da do governo e seus simpatizantes. Porque tivemos a ousadia de fazer isso, parece conveniente que um sistema que protegeu a BBC por 80 anos seja varrido e substituído por um regulador externo que ?porá a BBC novamente aos trilhos?."

Davies acredita que líderes mais espertos do governo vão superar os outros. "Há apenas um motivo pelo qual a BBC tem podido construir a confiança de sua audiência por tantos anos: a corporação não é de forma alguma a voz do Estado. Todos os políticos dizem que não é esse seu desejo, mas às vezes suas atitudes nos fazem duvidar dessa convicção. Quando isso ocorre, a BBC precisa que sua equipe diretora se erga e fale conscientemente."

Davies comentou que durante a guerra no Iraque, a BBC News foi constantemente criticada por divulgar notícias que alguns políticos acreditavam ser de oposição à guerra apoiada pelo governo. "Mas o alvará da BBC", afirmou, "diz que BBC News deve o tempo todo refletir todas as opiniões significativas do Reino Unido. Assim como éramos responsáveis em dar voz aos favoráveis à guerra, os que a ela se opuseram também precisavam ser contemplados na emissora nacional… Muitos acharam isso desconfortável, mas as circunstâncias da guerra não são motivo para comprometer os valores jornalísticos da BBC."

"Durante e depois da guerra, os diretores chegaram à conclusão de que a BBC conseguiu manter a tradicional imparcialidade e a verdade sob pressões quase intoleráveis. Estou orgulhoso dos profissionais de mídia responsáveis por isso. É claro que houve alguns erros individuais no caminho, mas nossa audiência reconheceu que a confiança que sempre depositaram na BBC não fora traída", afirmou Davies.

Em seu artigo, Davies também dispara contra Alastair Campbell. Ele acusa o diretor de comunicação do premiê Tony Blair de usar a briga sobre a reportagem de Gilligan para fazer acusações mais amplas à BBC.

O recente ataque de Campbell à BBC, segundo Davies, "não foi especialmente sobre a reportagem de Andrew Gilligan no programa Today, mas um acúmulo de mágoas que resultaram em uma agressão frontal à motivação, capacidade e profissionalismo de toda a operação jornalística". "Vindo de onde veio, os diretores não poderiam simplesmente deixar o ataque passar impune. Nossa principal proposta no encontro especial de diretores em 6/7 foi repudiar a acusação central de Campbell de que toda a BBC estava em campanha contra ele, o governo e a guerra. Estou muito grato por Campbell ter, agora, retirado essas acusações mais amplas."

Davies disse que os diretores da BBC acharam digno de interesse público a divulgação da reportagem de Gilligan sobre o famigerado dossiê. "Rotulada como informação de primeira ordem de importância nacional, obtida de fonte confiável, teria sido totalmente errado se os jornalistas da BBC derrubassem a matéria. Os diretores acharam certo transmitir e tínhamos justificativas suficientes para chegar a essa conclusão. Logicamente, mais evidências podem emergir durante o inquérito de [Lorde] Hutton, e manteremos o assunto sob revisão."

Os diretores da corporação, segundo Davies, foram criticados por dar um veredicto antes do comitê de assuntos internacionais da Câmara dos Comuns, no dia seguinte. "Mas já suspeitávamos que o relatório seria inconclusivo, como de fato foi. Também fomos acusados de verdadeiros patetas de administração ao rejeitar as agressões de Alastair Campbell ao etos da BBC News. Mas a grande força do sistema de governo da BBC é que os 12 indivíduos da equipe diretora não são controlados por ninguém. Estão ali apenas porque acreditam na independência de uma ótima instituição. É por isso que resguardam essa independência de forma tão ciumenta, e sempre o farão."

Tessa rebateu os comentários de Davies dizendo que "não há dúvidas de que a independência da BBC está ameaçada". "Deixei isso claro muitas vezes."

Mais constrangedor ao governo é o fato de Davies ter sido filiado ao Partido Trabalhista até aceitar o posto da BBC, em 2001. Ele doou 10 mil libras ao partido nos últimos sete anos.

A BBC afirma que tem a fita, feita por Susan Watts, repórter Newsnight, de Kelly acusando o primeiro-ministro e Campbell de interferirem da compilação do dossiê.

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