Quinta-feira, 14 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

PRIMEIRAS EDIçõES > ROBERTO MARINHO (1904-2003)

Beau Geste

Por lgarcia em 19/08/2003 na edição 238

ROBERTO MARINHO (1904-2003)

Jorge Claudio Ribeiro (*)

Lembro vagamente de certa cena num filme sobre a legião estrangeira que cai como uma luva para entendermos a histeria laudatória em torno da morte de Roberto Marinho. O filme, um clássico, se chama Beau Geste ("Belo gesto") e é do tempo em que funcionava a mentira de que o colonialismo foi um empreendimento heróico e aventureiro, e não um crime ignóbil.

A cena, lá pelo final da fita, mostra uma fortaleza da França em pleno deserto, coalhada de legionários mortos e com apenas dois sobreviventes. Lá fora, hordas de tuaregues vestidos a caráter, montados em seus cavalos e camelos e prestes a desfechar o ataque final. Para camuflar sua inferioridade e adiar o inevitável, os dois legionários aboletaram os cadáveres nas ameias, com os fuzis atravessados debaixo dos corpos e corriam de um lado para o outro disparando.

Lembrei dessa cena quando, assistindo ao noticiário a propósito do "cidadão Kane" brasileiro, lombrigas jamesdeanianas (as rebeldes sem causa) e as nelsonrodrigueanas ("toda unanimidade é burra") agitaram minhas vísceras, sussurrando coisas muito intrigantes. A primeira foi a constatação de que o ilustre falecido era mesmo mortal, embora habitasse os vetustos muros da Academia Brasileira de Letras. (Aliás, você já leu algum livro dele? Eu confesso que não).

O ácido folclore das redações de jornal e TV inclusive atribuía a Roberto Marinho a autoria da seguinte frase, uma verdadeira pérola: "Se acaso algum dia eu vier a lhes faltar…" Ora, como ficou afinal provado, se nem ele escapou, o mesmo vale para todos nós, meros telespectadores, e não há hipótese de escaparmos do nosso destino comum. No entanto, a fortaleza-Globo resiste em dar o braço a torcer e tenta conferir uma sobrevida mítica a seu herói civilizador: sendo o existir-como-imagem a forma suprema de viver na modernidade, é claro que o "jornalista Marinho" continua vivinho da silva. E atirando, como em Beau Geste.

Descansar em paz

Uma lombriga filósofa me sussurra: "A Globo pode ser o doutor Roberto, mas ele não pode ser sua emissora". Faço uma careta. Ela explica: "Tolinho! É claro que o império recebeu a marca do imperador, a ferro e fogo, mas pessoalmente o soberano tem muito menos poder e influência do que a máquina que ele colocou em movimento". (Além de alimentar a bicha, ainda sou chamado de "tolinho"…).

Se é verdade que, como diz o metafísico, "uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa", então não foi Roberto Marinho quem unificou o país (aliás, que unificação esperta, hein?), não foi ele que levou informação e entretenimento a 98% dos lares brasileiros, não era ele quem controlava mais de 50% de toda a publicidade nacional e, sobretudo, não foi quem cavou uma dívida bilionária, impagável.

Ao apresentar a parte como se fosse o todo, o noticiário global e as cassandras públicas, que derramaram lágrimas no vídeo, operaram uma maliciosa metonímia conferindo ao falecido um poder que ele pessoalmente não tinha, não teria, nem terá nunca mais. A esse fenômeno eu denomino de "síndrome da perna-de-pau", doença de profissionais como muitos jornalistas, que acabam se apropriando pessoalmente de uma altura e de um poder que lhes foram emprestados pela mídia em que atuam, mas que eles não têm.

Das vísceras me vem outro frêmito: "Quem disse que o dono da Globo era mesmo jornalista?". Tecnicamente, claro, ele era. "Mas eticamente, ele foi?" Um ministro desta República achou que sim, e até atribuiu ao "doutor Roberto" um papel fundamental na construção da democracia brasileira. Uau! Será que sua excelência esqueceu que a televisão e o jornal globais eram a menina dos olhos da ditadura militar, o boneco civil sentado no colo dos generais através do qual estes "ventriloquavam" suas ordens do dia?

O ministro não sabe que os fardados remuneraram esse serviço fornecendo à emissora uma infra-estrutura técnica e pesado apoio publicitário, aliás mantido até hoje? Roberto Marinho teria agido como jornalista ao determinar que seu império brigasse com a notícia negando a existência da Campanha das Diretas, em janeiro de 1985, conspirando contra a vitória de Brizola no Rio e manipulando o noticiário sobre o debate entre Lula e Collor? Já imaginaram se suas maquinações tivessem dado certo? A sorte da nossa democracia, e do falecido, é que a História (nós) contrariou essas veleidades ? afinal, você votou para presidente, impichou o tresloucado carioca-alagoano e Lula acabou vestindo a faixa presidencial. "O povo não é bobo, fora Rede Globo" foi o refrão que decorou os muros de todo o país.

Não quero botar pimenta em funeral alheio (também não desejo isso para mim). "À nível de pessoa física", Roberto Marinho deve ter sido mesmo um sujeito legal, grande empresário, um pai para as artistas de sua emissora e amante de nossa Pátria e de nossas crianças. Sei que não é o momento de separar o joio do trigo e peço desculpa por ter-me apressado. Só que um veredicto sereno caberá ao tempo, senhor da razão, e não à televisão, fábrica de ilusões. Escute aqui, Rede Globo: faça um belo gesto e retire rapidinho nosso Cidadão Kane das suas ameias e deixe-o descansar em paz. É o que também desejo para ele.

Em tempo: Recomendo o documentário Muito além do Cidadão Kane. Você pode baixá-lo em http://www.midiaindependente.org/pt/blue/2003/08/260618.shtml

(*) Professor do Departamento de Teologia e do Curso de Jornalismo da PUC-SP

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