Terça-feira, 12 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº969

PRIMEIRAS EDIçõES > ***

Bernardo Ajzenberg

Por lgarcia em 19/08/2003 na edição 238

FOLHA DE S. PAULO

"Dúvidas no ar", copyright Folha de S. Paulo, 17/8/03

"Uma das diferenças entre jornalismo e literatura é que esta última pode se enriquecer com o uso de frases difusas, ambíguas, elementos imprecisos que a mente do leitor se encarrega de fruir a seu modo, pessoal e intransferível. Por isso, mais do que o autor, é o leitor quem ?faz? o livro de ficção.

O noticiário jornalístico requer o contrário: o detalhe delineado, exatidão, a reprodução a mais fiel possível dos acontecimentos. O máximo de informação concreta para um mínimo de afirmações generalizantes. Quando patina na incompletude, ele se empobrece, informa mal.

Dois assuntos, na semana, foram vítimas dessa abordagem que, ao dizer tanto, acaba não dizendo nada ? ou, pior, deixa no ar muitas interrogações.

Na edição de quarta-feira (13), uma ?Panorâmica? intitulada ?Alunos da USP apóiam greve dos professores? informava que a mobilização dos docentes daquela universidade obtivera o ?apoio formal dos alunos da graduação e da pós-graduação?.

Acrescentava o que cada um desses grupos pretendia fazer (discussão de seus próprios problemas, panfletagens, manifestações etc) e concluía afirmando que participariam de uma passeata na sexta-feira.

Aparentemente, nada demais. Pergunto, no entanto, como fiz em crítica interna: o que quer dizer ?apoio formal?? Houve alguma assembléia estudantil? Foi representativa? Quantos estudantes teriam participado dela? A votação teria sido unânime? De qual greve se está falando? Qual a reivindicação dos docentes? Quantos deles estão parados? O que dizem as entidades?

O texto não contemplava essas interrogações básicas.

Na sexta, nova reportagem sobre o assunto ? ?Professores da USP de Ribeirão Preto aderem à greve? ? afirmava que essa adesão fora definida em assembléia e que, em outra assembléia, os docentes da USP tinham decidido manter a greve iniciada na segunda. Tudo assim, sem detalhes. E acabava numa citação: ?Para o diretor da Adusp (associação dos docentes) Cesar Minto, o movimento cresceu?. Ponto.

Sob outra forma, o mesmo problema de fundo ? a fragilidade das afirmações tão contundentes quanto precárias por sua generalidade ? surgiu no texto ?Igrejas evangélicas auxiliam imigrantes ilegais?, reportagem acoplada a outra, na capa de Cotidiano de sexta, sobre a prisão de brasileiros que trabalhavam ilegalmente no Reino Unido.

Início do texto: ?As igrejas evangélicas brasileiras são o principal ponto de apoio para os brasileiros que moram no exterior. Desde que chegam aos Estados Unidos ou aos principais países da Europa ocidental, os brasileiros recebem todo tipo de apoio dessas igrejas, inclusive para alimentação e moradia?.

Mais adiante: ?O apoio dos evangélicos é dado apara qualquer pessoa, independentemente da religião. Com isso, muitos se convertem ao pentecostalismo ao enfrentarem as primeiras dificuldades no exterior?.

Na crítica interna, indaguei: há alguma estatística, alguma observação empírica consistente capaz de dar base a tão amplas e tão afirmativas generalizações? Pode até ser tudo verdade, mas o texto, pelo menos, não o demonstrava. Apenas dois exemplos concretos eram mencionados: Boston (EUA) e Zurique (Suíça).

Além da formulação genérica ou da informação precária, esse tipo de confecção de reportagens embute um risco maior: o de prestar-se -apesar da provável intenção em sentido contrário- como divulgador, tal qual um press release ?disfarçado?, de afirmações taxativas que interessam, sobretudo, a esse ou àquele grupo envolvido em dada questão ou certo acontecimento.

Nada mais distante de um jornalismo que se queira imparcial, preciso e informativo do que o papel de simples mensageiro."

***

"Imbróglio desportivo", copyright Folha de S. Paulo, 17/8/03

"Como era de esperar, a reportagem ?Santos usa jogador irregular e corre risco?, de quinta-feira, gerou grande alvoroço.

O texto, em resumo, afirmava que, nas seis partidas em que atuou pelo Santos entre 8 e 29 de julho, o jogador Jerri o fez de modo irregular, pois seu novo contrato com o clube, firmado no dia 8, só foi tornado público no boletim oficial da CBF no dia 29.

Pelas regras da confederação, um atleta só pode jogar 72 horas depois de ter sua documentação aprovada e publicada no Boletim Informativo Diário (BID).

Com isso, os adversários do Santos podem, num prazo definido, requisitar na Justiça os pontos perdidos ? o que, em tese, poderia levar o time da Vila Belmiro, segundo colocado, a cair quatro posições na tabela do campeonato Brasileiro.

A edição trazia, ainda, pequeno texto com a posição do Santos sobre o assunto.

No mesmo dia, rádios e sites atribuíram à CBF, ao Santos e a pelo menos um especialista a afirmação de que não havia irregularidade: o novo contrato era apenas reformulação (devido a aumento salarial) do anterior, continuando válida entre 8 a 29 de julho a primeira publicação sobre Jerri no BID (4 de abril).

O mesmo desmentido saiu em vários jornais da sexta, inclusive o ?Agora? -do Grupo Folha-, que, na véspera, reproduzira o material da Folha. O ?Agora? chegou a citar entre aspas um inequívoco desmentido do diretor de registros e transferências da CBF, Luiz Gustavo Vieira.

A Folha, porém, manteve sua postura e anunciou que a Ponte Preta recorrera à Justiça e que a CBF não se pronunciara sobre o assunto, optando por não fazê-lo até que o Superior Tribunal de Justiça Desportiva analise as queixas que receber (ontem, repetiu a dose, unindo à lista os recursos de Fluminense e Goiás e registrando pronunciamento do Santos no qual o clube, embora mantendo a mesma posição, fala em novo contrato, não mais apenas em ?aditivo? ao anterior, como no primeiro dia).

Na sexta, recebi mais de 30 mensagens de leitores -a maioria formada por santistas- inconformados, exigindo retratação. Na crítica interna, comentei a contradição entre a divulgação das versões da CBF (pró-Santos) na mídia e a afirmação de que a entidade não se manifestara.

Questionado, o editor de Esporte, Melchiades Filho, afirma que a convicção da Folha se baseou num julgamento dos repórteres e do editor, além de informações do departamento de registros da confederação.

Reiterou que, até a noite de sexta, não houvera pronunciamento oficial da CBF (presidência, secretaria-geral, diretoria técnica ou diretoria de registro), que o diretor Vieira negou à Folha ter dado as opiniões a ele atribuídas na mídia e que o assessor de imprensa da entidade, Rodrigo Paiva, confirmava não ter feito declarações.

O jornal apostou alto ao assumir de modo cabal, sem citar nenhum especialista ou nenhuma fonte -e ignorando o ?outro lado? do Santos-, a grave posição de que há irregularidade.

Se está certo ou errado no seu julgamento, só o STJD poderá confirmar. Jornalisticamente, porém, penso que o caso, de tão polêmico, merecia um tratamento menos impositivo.

O jornal faria melhor se divulgasse também diferentes posições de especialistas em direito desportivo, argumentos divergentes, regulamentos, dados a mais, enfim, para o leitor ? santista ou não ? formar opinião.

A Folha merece elogios por buscar, como neste caso, o exercício crítico do jornalismo. É algo de que não deve e não pode abrir mão. Ao dar tiros sentenciosos a partir de um lado da polêmica (registrando o ?outro lado? como se fosse só para constar), porém, coloca-se, ela própria, no lugar da Justiça -o que já não é sua função."

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