Quarta-feira, 13 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

PRIMEIRAS EDIçõES > ***

Bernardo Ajzenberg

Por lgarcia em 26/08/2003 na edição 239

FOLHA DE S.PAULO

“Relatos sem vida”, copyright Folha de S.Paulo, 24/8/03

"Cada meio de comunicação tem suas vantagens e seus limites específicos. Onde um ganha o outro perde -daí, inclusive, o seu alto grau de complementaridade.

Um dos trunfos do jornal impresso está na possibilidade de registrar detalhes que escapam a uma câmera ou a um microfone, depoimentos longos, o ?clima? preponderante em determinado evento público, seus bastidores.

Aliada aos inúmeros recursos gráficos de edição e impressão, essa possibilidade, quando bem aproveitada, confere vigor a uma reportagem, torna-a instigante, rica. Faz do jornal algo diferenciado, indispensável.

Recentemente, a Folha forneceu pelo menos três contra-exemplos disso, casos nos quais um tratamento burocrático e relatorial da notícia desidratou suas potencialidades e, em boa parte, redundou em omissão de informações.

No dia 13, um grupo de pessoas fez o primeiro ?flash mob? (manifestação organizada via internet) paulistano. A rigor, foi uma brincadeira -durante segundos, elas bateram no asfalto as solas de seus calçados-, mas que chamou a atenção de muita gente na avenida Paulista.

Apesar de ter dado foto na capa, a reportagem da Folha sobre o evento foi mínima e, pior, não trouxe nenhum depoimento dos participantes, suas motivações, que tipo de gente ali estava. O único elemento ?vivo? do texto foi a declaração de um fiscal de trânsito perplexo com o evento.

Essa falta de informação e de ?tempero? se repetiu na última terça, na reportagem sobre uma manifestação de milhares de camelôs na frente da Câmara Municipal paulistana contra a proibição de montar a chamada ?feirinha? na rua 25 de Março.

O ?Estado de S.Paulo?, por exemplo, registrou que a passeata ocorreu ao som do Hino Nacional, que em vários momentos a direção do movimento pedia ordem e calma; descreveu dizeres de faixas e informou que os camelôs não foram recebidos pelo presidente da Câmara.

O texto da Folha não tinha nada disso. Apenas dava conta de que houve o evento, o local, o motivo, e de que um pedido dos manifestantes foi protocolado.

O fato de o concorrente ter alçado o caso ao alto de uma página, diferentemente da Folha -que não o considerou relevante-, pode explicar parte dessa diferença, mas não a ausência de vida no relato publicado.

Semelhante falta de sensibilidade e de vigor editorial apareceu na forma como foi editada uma notícia, no mínimo, inusitada: a do lavrador de Montes Claros (MG) que, imaginando ser tratado de uma dor de ouvido, submeteu-se, sem saber, a uma vasectomia.

Apesar dos variados recursos de linguagem e de concepção gráfica (um quadro específico, uma ilustração, por exemplo) disponíveis para lidar com uma notícia tão particular, rara e de traços cômicos (provavelmente não para o protagonista, mas isso é uma outra questão), a publicação do curioso acontecimento (na quarta, 20) obedeceu às mesmas características das demais notícias na mesma página (?SP será a 1? a receber unidade móvel de UTI? ou ?Só escola com educação sexual terá camisinha?, por exemplo).

A perda em casos como esses nem sempre é visível ou imediata. Ao longo do tempo, porém, o burocratismo e o registro meramente relatorial -que evidenciam certo comodismo editorial e depõem contra a riqueza do jornalismo- acabam por esgarçar a relação entre leitor e jornal: afinal, para que recorrer ao veículo impresso se tudo já foi registrado no rádio, na TV e na internet no dia anterior?"

***

"Os ?mais iguais?", copyright Folha de S.Paulo, 24/8/03

"A Folha dedicou na quinta-feira amplo e nobre espaço (chamada na Primeira Página e a contracapa do caderno Dinheiro) à notícia da morte do empresário Caio de Alcantara Machado, pioneiro da organização de feiras de negócios no país, ocorrida no dia anterior.

Já o registro do velório e daquela que seria a cerimônia de cremação do corpo saiu, sexta, numa pequenina nota, ao pé da pág. B2 do mesmo caderno.

Essa equivocada desproporção não mereceria comentário nesta coluna não fosse o problema grave que a ela se vincula.

O fato é que, como haviam noticiado rádios e TVs na noite de quinta, e como destacaram vários jornais na sexta, a cremação do corpo do empresário foi suspensa, adiada, quando já estava em curso de execução, por 15 dias por decisão da Justiça.

Motivo: dois dos filhos fizeram à polícia a acusação de que a morte ocorrera por envenenamento, na casa da amante do empresário. A polícia abriu inquérito. O corpo ficará no Instituto Médico Legal para exames.

Você leu alguma dessas informações na Folha de sexta? Não, pois a nota em questão dava a entender que tudo (a cremação) transcorrera como o previsto: ?Após o velório, o corpo foi levado ao crematório do cemitério da Vila Alpina, onde aconteceu uma cerimônia em capela ecunêmica? -assim ela concluía.

Segundo a Secretaria de Redação, o jornal teve acesso à informação de que a cremação não aconteceria porque dois filhos do empresário suspeitavam de envenenamento, mas considerou que se tratava de assunto familiar, de suspeita ainda não confirmada por exames.

A prudência é louvável, mas não justifica, no mínimo, a omissão, para o leitor, de uma decisão pública da Justiça e de uma iniciativa da Polícia, sobre as quais não há dúvida.

A mesma cautela, aliás, não se viu na edição de quinta, quando o jornal publicou em alto de página foto e nome de um garçom suspeito -estamos, também, no terreno da suspeita- de atuar no assassinato do empresário José Nelson Schincariol, segunda-feira à noite, em Itu (SP).

Parece ter prevalecido, aqui, a idéia de que, se todos os cidadãos são iguais perante a lei, para o jornal alguns são ?mais iguais? do que os outros."

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"Comunicação enganosa", copyright Folha de S.Paulo, 24/8/03

"Um erro de montagem na Primeira Página da edição nacional de domingo (17) gerou reclamações ao ombudsman de mais de 30 leitores de cinco Estados.

Anunciou-se, ali, a existência de um caderno especial sobre ensino de línguas (?Idiomas?). Ocorre que o suplemento fora produzido e distribuído apenas para a Grande São Paulo, como informou na terça um ?Erramos? na edição nacional.

Uma leitora de Minas Gerais lembrou que um problema semelhante ocorreu há pouco mais de dois meses, no lançamento da Enciclopédia Folha (comentei-o aqui, em 15/6).

A Secretaria de Redação afirma que custos e interesses jornalísticos fazem com que o jornal limite alguns cadernos a certas regiões. ?Um exemplo de limitação por razão jornalística são os cadernos regionais?, afirma a SR. Já no caso do caderno ?Idiomas?, não houve circulação nacional devido aos custos.

A leitora de Minas, porém, tem a sua própria percepção
do fenômeno: ?Fica cada vez mais claro o quanto qualquer cidade fora do
Estado de SP tem pouca ou quase nenhuma importância para a direção
da Folha?."

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