Sábado, 23 de Novembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1064
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Bernardo Ajzenberg

Por lgarcia em 11/11/2003 na edição 250

FOLHA DE S. PAULO

"A vida como ela (não) é", copyright Folha de S. Paulo, 9/11/03

"A Folha costuma se sair bem nas reportagens relacionadas ao Poder -seja o Executivo, o Legislativo ou o Judiciário. Apesar de algumas oscilações, foi o que ocorreu, nessa semana, com a cobertura da ação da Polícia Federal e promotores (Operação Anaconda) e a dos atentados contra a Polícia Militar em SP.

Dois outros casos que eclodiram nos últimos dias revelaram, porém, falta de discernimento e insensibilidade do jornal quando o tema afeta, ainda que de modo indireto, a vida concreta, o bolso, o dia-a-dia do seu leitor.

Há meses, filas enormes de idosos se formam para pegar formulários e encaminhar pedidos de revisão de valores de pensões ou aposentadorias. O prazo para isso vence no próximo dia 20.

A Folha não tem dado atenção a essa ?mobilização?. Ela só surgiu (um pouco) em suas páginas a partir de uma outra questão envolvendo o INSS, na semana passada.

Com efeito, na quinta-feira, o jornal editou reportagem informando que o governo suspendera, desde segunda, o pagamento de benefícios para quem tem mais de 90 anos de idade ou 30 anos de aposentadoria, alegando necessidade de recadastramento devido a fraudes. Isso envolve 105 mil pessoas.

Dois pontos, aqui, a comentar.

A suspensão começou na segunda, e o jornal só a divulgou na quinta (o jornal ?O Dia?, do Rio, por exemplo, deu a notícia antes, na quarta-feira).

Além disso, o registro da Folha era apenas factual. A única ?fonte? citada foi oficial: a assessoria da Previdência. Nenhum depoimento de aposentado, nenhum relato de caso real.

Registre-se, entre parênteses, que apareceu, sim, um elemento ?acalorado? na reportagem. Foi ao pé do texto, sob a forma de um comentário crítico ao INSS, que ?deveria ter dado ampla publicidade ao fato e prazo maior para o recadastramento antes de suspender os pagamentos?.

Mesmo esse parágrafo opinativo, porém, constitui algo esdrúxulo, como registrei na crítica interna daquele dia: ?Sem entrar no seu mérito, ele (o comentário) me parece, em qualquer caso, estar num local inapropriado (…) O precedente, acredito, é perigoso em relação à separação que deve haver, na Folha, entre notícia e opinião?.

Idêntico tom frio e protocolar caracterizou a reportagem do dia seguinte (sexta), sobre o recuo do governo, que, ante a reação, suspendeu o bloqueio dos benefícios. Diferentemente do que fez, por exemplo, o ?Globo?, o jornal foi incapaz de oferecer ao leitor uma imagem, um depoimento expressivo, um serviço útil e esquematizado de orientação. Nada propiciou além da informação oficial.

Só ontem, depois que o ministro Ricardo Berzoini (Previdência) pediu desculpas aos nonagenários, o jornal dedicou a estes espaço mais generoso e conteúdo diferenciado.

A resistência da Folha a entrelaçar um problema amplo com situações particulares sintomáticas se evidenciou, também, no caso do casal de namorados Liana Friedenbach, 16, e Felipe Silva Caffé, 19, alunos de um dos colégios mais tradicionais da capital paulista, desaparecidos desde sábado entre Juquitiba e Embu-Guaçu, na Grande São Paulo, onde foram acampar.

O episódio saiu no ?Diário de S.Paulo? na quarta. Ao recuperá-lo, na quinta, a Folha produziu um texto robótico, descritivo, com fotos de arquivo do rosto da adolescente.

Nesse mesmo dia, o ?Estado de S.Paulo? trazia uma foto de um helicóptero no meio do mato, com policiais e o pai de Liana. O ?Diário de S.Paulo? produzia entrevistas e fotos (?quentes?, de reportagem) das duas famílias.

Na sexta, idem: no ?Estado?, declarações e foto do pai, imagem do quiosque sob o qual a barraca dos jovens teria sido armada, depoimentos de colegas sobre o casal (veja no quadro); na Folha, fotos de arquivo e um texto relatorial, sem nenhuma citação entre aspas.

Não é preciso longa experiência jornalística para saber que, mesmo derivando de uma dimensão pessoal, tais temas -aposentados e sumiço de jovens de classe média- tocam fundo no leitor e, nessa medida, ganham relevância noticiosa.Tanto quanto são relevantes, embora numa dimensão mais institucional, a Operação Anaconda e os atentados à PM.

A Folha, porém, pareceu colocar-se, aqui, um falso dilema.

Privilegia a interlocução com o Poder e seus assuntos, valorizando o leitor-cidadão, ao mesmo tempo em que se afasta desse mesmo leitor como indivíduo, com iras e dramas particulares.
Será impossível ao jornalismo unir as duas dimensões?"

***

"Choque de imagem", copyright Folha de S. Paulo, 9/11/03

"Chocante, revoltante, baixaria, agressão visual, mau gosto, apelação, sensacionalismo, imagem de um jornal de apelo mais popular, não do padrão da Folha…

Esses são os qualificativos usados por alguns leitores a propósito da publicação, no alto da Primeira Página de terça-feira (4), da foto de um monitor de computador manchado de sangue ao lado do boné de um policial morto em atentado a uma base da PM em São Paulo.

Fotos desse tipo sempre geram polêmica. A decisão sobre sua publicação é, necessariamente, subjetiva, assim como a recepção por parte do leitor.

Reproduzo, a seguir, a visão do editor de Fotografia, Eder Chiodetto, sobre esse caso:

?Imagens que, como essa, pela natureza dramática, composição crua e contundente, chocam o leitor são evitadas na Folha. Há formas mais sutis e não menos precisas de narrar em imagens a violência e as atrocidades. Há momentos, porém, em que, diante da barbárie, representada aqui pelos ataques de uma organização criminosa contra o Estado e contra a população, o jornal precisa elevar o tom da sua cobertura, como forma de alerta ao leitor. Essa imagem equivale a isso: um grito de alerta. Desagradável, triste, absurda e incômoda como o fato que ela relata.?

Paula Cesarino Costa, secretária de Redação do jornal, endossa essa posição:

?A imagem é jornalisticamente justificável. Ela, de alguma forma mostra que foram ataques e não confrontos. A ?agressividade? apontada pelos leitores é, de fato, a agressividade utilizada pelos ?bandidos?, e consideramos que deve ser mostrada, que é legítimo mostrá-la.?

Considero plausível o protesto dos leitores. Já critiquei em outras ocasiões, com base nos mesmos qualificativos, imagens editadas pela Folha.

Mas, nesse caso, tendo a concordar com a opção adotada pelo jornal. Apesar de ?forte? e incômoda, penso que aquela imagem -até por não exibir, por exemplo, um corpo atingido- está, ainda, dentro do limite daquilo que é publicável pela Folha numa situação tão grave como a relatada."

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