Sexta-feira, 17 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

PRIMEIRAS EDIçõES > ***

Bernardo Ajzenberg

Por "Ritmo de quelônio", copyright Folha de S.Paulo, 24/6/01 em 27/06/2001 na edição 127

FOLHA DE S. PAULO

"Com intervalo de apenas dez dias, duas edições da Folha neste mês saíram sem a seção ?Erramos?. A primeira foi no dia 11; a segunda, dia 19, terça-feira passada. É algo inusitado, e qualquer leitor poderia se perguntar: então não havia erros para preencher aquele espaço? Ledo engano.

A ausência da célebre rubrica, nessas edições, tem um caráter simbólico e é, ao mesmo tempo, um sintoma. O jornal, que proclama em alto e bom som a sua transparência, tem, na prática, maltratado esse expediente que lhe foi sempre tão caro, assim como aos seus leitores.

Das 58 sugestões de retificação de conteúdo contidas nas críticas diárias do ombudsman desde 12 de março, 30 (52%) foram publicadas; pelo menos 20 (34,5%) -simples, óbvias e claras- aguardam na fila, e o restante (13,8%), nem tão evidentes, permanece em zona de indefinição.

Exemplos de sugestões indiscutíveis: 1) a dívida externa argentina é de US$ 128 bilhões e não US$ 128 milhões (25/5); 2) diferentemente do que afirmou texto de 29/5, o Brasil tem 2.008 livrarias, conforme reportagem do próprio jornal de 1?/3, e não 800.

Além do ombudsman, aponta erros e sugere correções -principalmente de forma- o Programa de Qualidade (PQ).

Comunicado do dia 12 -do qual ?roubei?, diga-se, o título desta coluna-, de autoria de seu coordenador, Rogério Ortega, lança as seguintes perguntas: ?…quando o erro é incontestável, por que, muitas vezes, ele não é corrigido rapidamente? Por que certos ?Erramos? demoram meses para ser publicados? Por que se age de maneira tão frontalmente contrária ao que determina o manual??.

Segundo sua contabilidade, de 36 erros graves apontados em abril, 27 (75%) foram reconhecidos; em maio, dos 47 indicados, só 32 (68%) tiveram admissão pública.

Exemplos evidentes, não admitidos: ?O valor solicitado pela empresa Park Air Eletronics na licitação da Aeronáutica para reaparelhar o Cindacta-1 foi US$ 14,6 milhões, e não US$ 14,6, como publicado? (22/5); 2) ?A cantora Britney Spears, por ser norte-americana, não pode ser ?eleitora declarada? do premiê britânico Tony Blair, como afirmava texto publicado em 6/6?.

Gustavo Patú, secretário interino de Redação, afirma que a direção do jornal está ?insatisfeita com o ritmo lento de tramitação interna dos ?Erramos?, vai conversar com os editores e pressionar para que isso mude?. É o mínimo a fazer.

Ao criar o ?Erramos?, o jornal assumiu um compromisso com o leitor. Como se dissesse: sabemos ser impossível fazer todo dia um jornal sem erros, mas esteja certo, leitor, de que buscamos esse objetivo e de que, quando não o atingimos, você fica sabendo, com clareza, onde os erros estão.

Trata-se de uma questão de credibilidade, principal patrimônio de qualquer órgão de comunicação sério. E é ele que a Folha golpeia quando ?engaveta?, negligencia ou trata com morosidade os seus equívocos."

***

"Ao ler a Primeira Página de terça-feira (edição SP), fui tomado de um ligeiro mal-estar. Isso aconteceu, mais precisamente, ao prestar atenção na foto da parte inferior.
Nela (veja ao lado), um homem tenta se proteger do frio sob um relógio desses que marcam também a temperatura. Em minha crítica interna, escrevi o seguinte:

?Todo jornalista com alguns anos de experiência terá o direito de se perguntar se a foto (…) não é ou parece ser uma montagem -procedimento, creio, inadequado para o jornal. É altamente improvável que o fotógrafo tenha encontrado um personagem do jeito e no local em que este está. Como não tenho certeza, sugiro verificar?.

A secretaria de Redação ouviu o repórter-fotográfico, o editor de fotografia, investigou o caso e constatou, de fato, uma fraude.

?A foto não é espontânea?, diz Gustavo Patú, secretário interino de Redação. ?Não houve flagrante mas sim interferência, artificial, do fotógrafo. A Folha condena esse procedimento?.

Ou seja, em vez de registrar a imagem de um personagem autêntico achado na avenida daquele modo, guardando-se do frio justamente naquele local, o fotógrafo pegou um conhecido e o plantou ali, criou um ?fato?.

Pode ter a ver com artes plásticas, publicidade, com o que for, menos com jornalismo. E não importa se se tratava de assunto supostamente ?menor?, como a temperatura da cidade. É questão de princípio.

Mais uma vez, de modo até mais declarado do que no caso dos ?Erramos?, é a credibilidade do jornal que se abala.

Não por acaso, na Folha, adota-se o nome de ?repórter-fotográfico? para essa função. Pois se trata de fotojornalismo.

Por isso, cabe a pergunta: há diferença, de raiz, entre tal atitude e o rumoroso caso da norte-americana Janet Cooke, que em 81 ganhou um prêmio Pulitzer (depois retirado) com reportagem forjada no ?Washington Post? sobre uma criança viciada em heroína?

Não. Ambas iniciativas atentam contra o jornalismo. A diferença é apenas de grau."

    
                         
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