Quarta-feira, 18 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

PRIMEIRAS EDIçõES > ***

Bernardo Ajzenberg

Por lgarcia em 23/12/2003 na edição 256

FOLHA DE S. PAULO

"Obviedades", copyright Folha de S. Paulo, 21/12/03

"Reuni nas últimas semanas alguns curiosos exemplos de como, às vezes sem querer, o jornal acaba por subestimar a inteligência do leitor.

Na edição do último dia 4, logo após a prova da primeira fase da Fuvest, o suplemento Fovest, voltado para jovens vestibulandos, trazia, na capa, a seguinte afirmação:

?Quem teve rendimento abaixo do esperado na primeira fase do processo seletivo da Fuvest deve intensificar preparação para conseguir alcançar os demais candidatos?.

Numa página interna, o principal título asseverava: ?Momento é de avaliar desempenho e traçar estratégia?.

Na quinta-feira 11, a capa de Equilíbrio informava:

?Consumo desnecessário de suplementos vitamínicos é estimulado pela falsa idéia de que eles não fazem mal e podem substituir uma alimentação equilibrada?.

Capa de Turismo, na segunda 15: ?Qualidade de vida é a tônica dos hotéis voltados para o bem-estar?.

Desses exemplos, nenhum escapa daquela famosa brincadeira: ?só contaram pra você…?.

Mas também as legendas de fotografias costumam integrar a relação de obviedades encontradas no jornal.

Na última terça-feira, sob uma imagem em Mundo na qual o secretário de Estado dos EUA, Colin Powell, aparecia ao microfone com um braço erguido, o redator escreveu: ?O secretário Powell gesticula durante entrevista em Bruxelas?.

No mesmo dia, a explicação ?de chapéu? aparecia na legenda de uma foto, em Brasil, na qual o presidente Lula, inconfundível, aparecia… de chapéu.

Como naqueles programas de rádio em que ouvimos um repórter dizendo, cheio de barulhos em volta, que na avenida tal há um ?congestionamento por excesso de veículos? -a frase me foi lembrada por uma colega-, também aqui a falta de criatividade dos enunciados redunda até mesmo em alguma comicidade.

Pode não ser uma catástrofe, mas o leitor da Folha, certamente, merece mais do que isso."

***

"Vendendo o peixe", copyright Folha de S. Paulo, 21/12/03

"Uma útil e feliz edição do Informática, na quarta-feira, incita, porém, uma discussão para a Folha e para o jornalismo.

Sob o título ?Meu site predileto?, dezenas de personalidades (artistas, esportistas, economistas, escritores) davam dicas, no suplemento, de sites interessantes sobre assuntos relacionados a suas respectivas áreas.

Na rubrica ?Economia?, um dos consultados foi Luís Nassif, ali apresentado como ?colunista da Folha?.

Suas indicações, de quatro sites, não despertariam, necessariamente, atenção especial, salvo por um aspecto: o quarto site sugerido, chamado ?Projeto Brasil?, é uma iniciativa da Dinheiro Vivo Agência de Informações, empresa do próprio colunista.

Trata-se de um site voltado para acompanhamento e debate sobre políticas públicas e desenvolvimento nacional.

Na crítica interna, indaguei, por isso, se essa opção não refletia ?traços de autopromoção? por parte do jornalista.

Esse não é, de modo algum, um caso totalmente isolado.

De forma mais ou menos sistemática, com maior ou menor intensidade, colunistas usam o espaço fixo no jornal para promover iniciativas ou negócios pessoais -cujo mérito, deixe-se claro, não está em questão aqui.

Tempos atrás, comentei em crítica interna a inadequação de regularmente se adicionar ao chamado ?pé biográfico? o endereço eletrônico de algum site que não tem nada a ver com o tema do artigo nem com o jornal, mas que divulga algo de interesse pessoal do autor.

Isso ocorre, por exemplo, no caso do economista Luiz Carlos Mendonça de Barros, que divulga sob sua coluna, em ?Opinião econômica?, o endereço de uma revista de sua propriedade.

Outra modalidade é difundir, no texto, projetos ou trabalhos que o autor dirige ou de que faça parte, como já houve mais de uma vez no caso do colunista Gilberto Dimenstein -como Nassif, membro do Conselho Editorial da Folha- em relação a uma organização não-governamental.

O caso destacado em Informática adiciona uma particularidade: não há, ali, nenhum sinal de que o site sugerido pertence ao próprio indicante. À autopromoção, soma-se, assim, falta de transparência.

?Legítimo?

Questionado sobre isso, Nassif argumenta que o site foi lançado há tempos e ele em nenhum momento usou a coluna, em Dinheiro, para promovê-lo. ?Acho que seria legítimo, até, visto que é um site de discussão de políticas públicas, temas da minha coluna?, afirma o jornalista.

?No caso de Informática?, acrescenta, ?fui consultado, não como colunista da Folha, mas como usuário de internet. Como colunista, tenho o meu espaço e não o utilizei, embora pudesse. Como usuário da internet, recomendo, sim, uso regularmente e está sendo o melhor site colaborativo de trabalhos ligados a políticas públicas?.

Um dos mais prestigiados analistas econômicos do país, Nassif é também jornalista preocupado com assuntos da própria mídia.

Quando comentei a questão dos endereços eletrônicos de negócios pessoais (problema mencionado acima), entrou em contato comigo e afirmou que já havia mandado retirar o de sua agência mas que ele continuara alguns dias na coluna, em Dinheiro, à sua revelia.

Da mesma forma, semanas atrás (18/11), ante uma carta no Painel do Leitor que corretamente questionou a Folha sobre a existência de uma parceria entre o ?Projeto Brasil? e a Secretaria Especial do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, do governo federal -fato delicado para um jornal que se aferra ao princípio da independência-, Nassif expôs sua explicação (?o convênio visou exclusivamente disponibilizar os temas de discussão do CDES em uma área do site, ampliando o fórum de discussão?).

São duas coisas distintas, claro. Além disso, num caso -autopromoção- como no outro -convênio com o governo-, nem tudo é só branco ou preto; a discussão, ao contrário, se pertinente e necessária, é também bastante complexa.

Na minha opinião, a riqueza que os colunistas da Folha constituem para o debate público e pluralista de idéias, dentro do espaço jornalístico, não deveria deixar-se macular por tais procedimentos.

Independentemente das boas intenções, arrisca-se, com eles, a imagem do jornal, cujas páginas não formam um mercado onde cada um, além de expor idéias, aproveita para armar a barraca e, literalmente, vender seu peixe.

A própria Folha, cabe acrescentar, tem a responsabilidade de impedir que isso aconteça."

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