Quarta-feira, 12 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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Bernardo Ajzenberg

Por lgarcia em 31/10/2001 na edição 145

FOLHA DE S. PAULO

"Antes do ringue", copyright Folha de S. Paulo,
28/10/01

"Os lutadores não se trocaram. Nem sequer mediram o
peso. Experimentam luvas, conversam com auxiliares, buscam concentração,
estudam golpes, cada qual no seu vestiário.

Troca de olhares agressivos, já fizeram; e enviaram, por
terceiros, mensagens desafiadoras. Mas a hora do confronto aberto
ainda não chegou -e ninguém sabe ao certo, inclusive
entre os organizadores, se ele, de fato, vai acontecer.

Lá dentro, porém, no ginásio, um grupo de
pessoas já acende as luzes, limpa o chão do ringue
e suas cordas, aciona microfones e começa a chamar os atletas:

‘Vamos lá, pessoal. O povo tem pressa. Está tudo
pronto. Definam logo esse troço!’.
Assim pode ser retratada a atuação, por um lado, dos
pré-candidatos do PSDB à Presidência da República
e, por outro, da maior parte da imprensa.

Há visível ansiedade, nos jornais, em especial na
Folha, pela definição da candidatura palaciana. E
essa ansiedade produziu, nos últimos dias, ao menos três
problemas.

O ‘público’

Desde o último dia 16, não houve uma única
edição em que o assunto -Tasso Jereissati versus José
Serra, o ministro Paulo Renato correndo por fora, destrambelhado
pela greve nas universidades federais- não ocupasse no mínimo
uma ‘cabeça de página’ (o título principal).

Uma semana antes do evento promovido pela família Covas
em São Paulo, segunda-feira, para ‘lançar’ o governador
cearense, já os holofotes se concentravam nisso.

A própria Folha, em editorial do dia 19, não escondia
sua posição: ‘O público tem o direito de ter
acesso ao que os governistas têm a dizer sobre esse e outros
grandes temas que estarão em jogo no ano que vem’.

Mas quem é ‘o público’, aqui?

Até o momento, qualquer pesquisa não deixará
de mostrar que a população não está
ligada, ainda, na sucessão presidencial.

Na verdade, há uma necessidade dos ‘agentes econômicos
e políticos’, incluída a imprensa, de se situar o
quanto antes. Eis o ‘público’.

Isso justificaria o exagero com que o jornal abordou o embate em
gestação, ainda mais se considerando o fato de que
os pré-candidatos tucanos vêm tendo, até o momento,
péssimo desempenho nas pesquisas eleitorais?

Da perspectiva dos tais ‘agentes’, talvez sim. Há mesmo
pressa. Mas certamente não para a grande maioria dos leitores.

O segundo problema dessa excessiva dosagem de PSDB/Planalto está
em que ela, obrigatoriamente, fez o jornal subestimar assuntos relevantes.

A edição de quinta (25) foi exemplar. Nesse dia,
a Folha deixou de dar pelo menos três notícias de peso:
1) o bloqueio, pelo Tribunal de Contas da União, de bens
da empreiteira OAS no caso da construção do aeroporto
de Salvador (BA); 2) a autorização, pela Justiça,
da quebra do sigilo telefônico do lobista Alexandre Paes dos
Santos; e 3) a decisão de bloqueio da aposentadoria do juiz
aposentado Nicolau dos Santos Neto.

Realidade e ‘plantação’

O editor de Brasil, Fernando de Barros e Silva, avalia que, ‘de
todas as incógnitas do processo sucessório, a maior
neste momento é a definição do nome que será
apoiado pelo governo e o futuro da aliança que sustenta FHC’.

‘Esse imbróglio, que vinha sendo cozinhado em banho-maria,
esquentou a partir da movimentação de Tasso, que,
na prática, pôs sua candidatura nas ruas para testar
sua viabilidade’, explica. ‘O contra-ataque de Serra, candidato
não-declarado, foi imediato.’

O editor conclui: ‘Do desfecho dessa guerra velada dentro do governismo
depende o futuro da aliança e até mesmo o destino
das candidaturas Itamar e Ciro, já que a do PT parece consolidada.
É natural, portanto, que os esforços do jornal se
concentrem nessa disputa, procurando elucidar os lances e bastidores
de uma trama intrincada’.

Tem lógica e faz sentido. Mas justamente aí reside
o terceiro problema: o jornal não tem conseguido explicar
à altura, proporcionalmente ao espaço que reserva
ao assunto, o que de fato se prepara nos vestiários.

Noticiam-se movimentações à exaustão,
diariamente, como se a Folha fosse um palanque à disposição
dos tucanos, mas quantos leitores já entendem qual o jogo
de FHC (o que é verdade e o que é mera ‘plantação’
de notícia por parte do Planalto quanto a suas preferências)?

Quantos leitores fazem idéia de quem realmente apóia
quem nesse embate?

Que projeto Tasso representa? E Serra? E Paulo Renato?

Que alianças partidárias, com esses nomes à
frente, seriam capazes de derrotar Lula ou, em hipótese mais
remota, Ciro Gomes ou Itamar Franco?

A coluna Mônica Bergamo informou segunda que uma pesquisa
que a mídia vinha divulgando com números favoráveis
a Serra em relação a Tasso sem lhe definir a origem
fora na realidade encomenda dos ‘serristas’. O jornal foi atrás?
Não.

Com páginas e páginas sobre o assunto, expondo sua
própria ansiedade, até o momento a Folha ficou na
superfície, apenas estimulando, lustrando o ringue, chamando
a que se o adentre.

Não explicou, até agora, o que se passa nos vestiários,
no aquecimento, na composição do sangue dos lutadores.
Isso sim, em última instância, teria sido capaz de
justificar tanto papel e, também, diferenciar o jornal de
seus concorrentes."

***

"A bactéria que não houve", copyright Folha
de S. Paulo
, 28/10/01

"Uma precipitação ou uma falha de comunicação
-ou as duas coisas juntas, não se sabe ainda ao certo- acabou
gerando, no início da semana, um caso jornalístico
memorável, proporcionado em especial pelo jornal ‘O Globo’
e pelo ‘The New York Times’.

No sábado (20), o jornal do Rio escancarou manchete de duas
linhas, com letras garrafais, na sua primeira página: ‘Sede
do NY Times no Rio recebe carta com bactéria’.

Referia-se a correspondência entregue à representação
do diário norte-americano supostamente com ‘esporos como
os do antraz’, segundo relato feito no dia anterior, na internet,
pelo próprio jornal de Nova York. Este, por sua vez, teria
se baseado em parecer da Fiocruz.

No domingo, o desmentido, também duas linhas na capa: ‘Carta
ao ‘New York Times’ não tem bactéria antraz’.

O ‘Jornal do Brasil’ também deu manchete (menor) ao assunto
no sábado e publicou no dia seguinte a negativa, com menos
destaque.

A Folha, em sua edição nacional do sábado,
foi mais discreta, mas trouxe título de conteúdo semelhante
ao do ‘Globo’: ‘NY Times’ no Rio de Janeiro recebe carta com bactéria’;
providencialmente, trocou o título, na edição
SP, para ‘Rio investiga carta com bactéria…’.
Tão discreto quanto a Folha, mas mais cauteloso, foi o ‘Estado
de S. Paulo’: ‘N.Y. Times’ relata envio de antraz a seu repórter
no Rio’.

Por trás dessa confusão esteve, ao que tudo indica,
um mal-entendido entre o escritório do ‘NYT’ e a Fiocruz,
que nega ter informado ao jornal que havia no envelope uma bactéria
semelhante ao antraz.

Além disso, é difícil supor que o ‘Globo’
tenha bancado tão vigorosa e arriscada manchete sem o respaldo
de alguma opinião oficial.

A atitude do jornal do Rio, de todo modo, ao publicar de imediato
a negativa com destaque proporcional à notícia não-confirmada
da edição anterior, merece registro positivo.

Contam-se nos dedos de uma mão os exemplos de retratação
tão imediata e clara por parte da imprensa.

O episódio deve servir de lição na cobertura
do bioterrorismo, que já vinha padecendo de boa dose de sensacionalismo
-ingrediente que só favorece quem quer criar o pânico.
Em casos como esse, nem mesmo eventuais palavras oficiais podem
ser definitivas. O melhor, mesmo, antes de publicar qualquer coisa,
é aguardar o martelo final dos cientistas."

    
                   
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