Segunda-feira, 25 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

PRIMEIRAS EDIçõES > ***

Bernardo Ajzenberg

Por lgarcia em 12/06/2002 na edição 176

FOLHA DE S.PAULO

"Olho fora do lance", copyright Folha de S.Paulo, 9/6/02

"De um leitor do bairro do Brás, em São Paulo:

?Não tenho aplicação em fundos, não tendo sido, portanto, prejudicado. Mas, como faço da leitura dos jornais um exercício diário, caso tivesse sido informado pela Folha, poderia ter alertado alguns amigos, um dos quais até me cobrou, desolado: ?Poxa, você poderia ter me avisado, afinal, você lê tanto?. Para que serve mesmo a leitura dos jornais??.

De um leitor residente em Wivenhoe, na Inglaterra:

?Será que em algum daqueles quadrinhos de ?onde aplicar seu dinheiro? algum suposto especialista que assessora a editoria do caderno alertou para as mudanças que o Banco Central havia anunciado em fevereiro??.

Os dois leitores se referem ao abalo provocado nos fundos de investimento na semana que passou a partir de uma mudança imposta na contabilização dos valores diários das cotas desses fundos em vigor desde a sexta-feira (31/5).

A decisão do Banco Central é de fevereiro. Sua data de aplicação sofreu alterações, por pressões de bancos, tendo sido fixada, por fim, para setembro, até que, na quarta (29), decidiu-se antecipá-la de vez.

Independentemente do que a medida possa significar daqui para a frente (seus defensores argumentam que ela torna a situação do investimento mais transparente, uniformizada e colada à realidade do mercado), houve perdas sensíveis, mudanças desse para aquele investimento e, acima de tudo, muitas dúvidas, pânico e temores entre os pequenos investidores.

Tudo isso num quadro de alta do dólar e do chamado risco-país, além das conflitantes análises e/ou especulações a respeito do que pesava mais para tal balbúrdia: a perspectiva de vitória da oposição (leia-se Lula), a incerteza geral sobre o futuro, a atual vulnerabilidade da economia brasileira, a ação faminta de grandes especuladores, uma alegada manobra política ou mera barbeiragem do Banco Central -ou simplesmente a soma de tudo isso.

O mercado financeiro sempre viveu de nervosismo especulativo, explorando todas as possibilidades, políticas e econômicas, ou refletindo tanto as angústias mais ou menos forjadas quanto as incertezas legítimas relativas ao futuro. Realidade que se exacerba em ano eleitoral.

O que cobram esses e outros leitores que contataram o ombudsman é o fato de que a Folha, além de não ter chamado a atenção para as possibilidades concretas de perdas com os fundos -fenômeno em pauta desde o início do ano-, tampouco se dedicou com o necessário vigor ao longo da semana a esclarecer e orientar os investidores/leitores que nela buscam apoio.

O nervosismo do mercado contaminou o jornal. Ao se dar conta da dimensão do problema, ele, em vez de serenamente voltar os olhos para seu público, entrou no movimento febril das especulações, reproduzindo em seus textos explicações díspares sobre a origem e o formato da crise, além de expor uma dificuldade evidente para demonstrar com exemplos reais o que acontecia no bolso do investidor e suas perspectivas.

Registre-se, a bem da verdade, que a Folha não esteve sozinha no redemoinho. Os chamados grandes jornais de informação geral mostraram-se unanimemente atordoados pela agitação (a diferença entre eles esteve no ritmo com que retomaram algum prumo).
Registre-se, também, que o jornal procurou, já nos primeiros dias, explicar o que são os fundos, como eles se formam e por que teriam perdido valor. Tal didatismo, porém, ficou na superfície, deixando de encampar as perguntas mais relevantes: como e o que fazer?

A ?trolha?

O caso é ainda mais sério, pensando na Folha, se se considera que o jornal, por meio de seu caderno (hoje uma seção) de dicas de investimentos, o FolhaInvest, sempre foi claro entusiasta de aplicações em fundos DI como âncora firme no mercado de investimentos.

A ausência de orientação concreta, agora, não pode ser explicada pelo desconhecimento.
No dia 7 de janeiro, por exemplo, o jornal trouxe uma reportagem intitulada ?Revise seu portfólio com mais frequência?. Ali se afirmava:

?Para vencer a instabilidade financeira que 2002 promete, o investidor terá de monitorar de perto seu dinheiro. Isso significa acompanhar os principais indicadores econômicos, questionar sempre o gerente do banco sobre quais são os melhores investimentos e saber avaliar muito bem o prazo e o objetivo da aplicação?.

Perfeito. Só que, até o final de maio, apesar de a decisão do BC ter sido de fevereiro e de muitos fundos já terem a partir de abril começado a aplicar a nova regra, o jornal manteve as mesmas dicas de antes, favoráveis aos fundos DI como a principal indicação, sem alerta específico.

Em que pese material sobre o assunto ter saído em jornais especializados (em 2 de maio, por exemplo, o ?Valor? trouxe reportagem sobre o tema com o título ?Fundo DI não é mais aquele?), a Folha parecia não se ter dado conta, ainda, do tamanho da ?trolha? que estava por vir.

Apenas em 26 de maio, numa reportagem ampla sobre o tema, anunciou-se o drama: ?Fundos DI deixam de ser ?porto seguro??. Ao pé do texto, uma dica:

?Quem tem dinheiro aplicado em um fundo que apresentou variação negativa ou perda de rentabilidade (…) não deve migrar temendo novas perdas. O risco de trocar de aplicação é sofrer novas perdas quando o gestor do novo fundo fizer o ajuste da cota, adotando a nova forma de contabilização dos ativos?.

Hiato

Apesar de ser um assunto complicado e sujeito a manipulações políticas (evidenciadas semana passada tanto do lado do governo como no da oposição), de um modo ou de outro estava claro, para os analistas e para o jornal, o que ocorria e o que poderia ocorrer. Sabia-se que as mudanças afetariam os investidores de qualquer maneira.

Se assim era, por que desde o primeiro momento não se poupou o leitor de tantas dúvidas sobre o destino de seu dinheiro?

Por que só na edição de quinta-feira (6), quando os leitores envolvidos já amargavam dias de estado de choque, a Folha deu orientações claras sobre o que fazer diante do rebuliço instalado desde uma semana antes e agravado dia a dia?

Não é a primeira vez que ocorre um hiato, numa espécie de omissão involuntária, entre o que o jornal conhece e o que ele, na prática e com a devida ênfase, passa a seus leitores.
Não se trata de má-fé, mas de uma questão de eixo editorial e prioridades: muitas vezes, mais do que escrever para quem compra o jornal, o jornalista parece escrever para si próprio, seus pares ou suas fontes -isso, quando não sabe simplesmente a quem, na verdade, está se dirigindo.

Ninguém tem dúvida de que o que aconteceu nesses últimos dias representou uma lição grave e dura para os aplicadores menores e mais conservadores: não existe investimento totalmente seguro.

Que os jornais -dos quais esses aplicadores/leitores sempre esperam muito e nos quais, às vezes teimosamente, depositam confiança- também tenham tirado disso tudo alguma lição.

***

A semana era para ser da Copa do Mundo, mas o tema foi atropelado pela cobertura da crise dos fundos de investimento e seus entornos.

O caderno da Folha sobre o torneio trouxe novidades gráficas e uma linguagem mais ?solta?, ?descontraída?.

É evidente o contraste visual entre ele e os cadernos publicados pelos outros jornais, de traços, digamos, mais tradicionais.

Alguns leitores se queixaram ao ombudsman quanto à legibilidade e à organização dos assuntos em suas páginas.

Em alguns casos estive de acordo e comentei-os em críticas internas. Em outros, não.
Voltaremos ao assunto."

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