Segunda-feira, 20 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

PRIMEIRAS EDIçõES > FOLHA DE S.PAULO

Bernardo Ajzenberg

Por lgarcia em 19/06/2002 na edição 177

FOLHA DE S.PAULO

"Primeiro tempo", copyright Folha de S.Paulo, 16/6/02

"No dia 26 de maio, o caderno Esporte publicou um texto chamado ?Saiba por que ler a Folha durante a Copa?. Resumia-se, ali, o que o leitor deveria esperar do jornal no Mundial 2002:

?…novo projeto gráfico, impactante, profundo, mas ao mesmo tempo claro, organizado, para que o leitor enfrente com prazer o emaranhado da competição?.

Mais adiante, outro compromisso: ?Como de hábito, o leitor não deve esperar sinal de adesismo à seleção brasileira. Não deve esperar críticas desmedidas ou infundadas. Deve esperar sim um jornalismo crítico, fundamentado e distante de interesses alheios a sua função, a de informar?.

À luz dessa ?carta de intenções?, cabe um balanço parcial, passado o ?primeiro tempo? do torneio.

O primeiro desafio foi o do fuso horário de 12 horas, que em nada facilita a vida dos jornais: seria ?fatal? embaralhar ontem com hoje, amanhã com anteontem. Manter o caderno atraente e útil nessas condições implicava, além de um time competente de colunistas, recursos diferenciados, ainda mais diante da concorrência da TV, rádio e internet.

O resultado tem sido bom para a Folha, e o pequeno número de reclamações de leitores reflete esse quadro de aceitação.

Nem tudo deu certo, porém, e vale a pena pensar em alguns desses aspectos -sem deixar de considerar, também, que, como é natural em coberturas prolongadas, acertos se fazem (e foram feitos) ao longo dos dias.

Notícia

Há que se registrar a ausência, até aqui, de furos significativos em todos os jornais. Se um merece algum destaque, foi do Jornal da Tarde, que adiantou em 29 de maio que Juninho seria titular na estréia do Brasil (dia 3).

A Folha também derrapou no tratamento dado às descrições de lances de jogo decisivos. Ao contar como foi o segundo gol de Coréia 2 x 0 Polônia, dia 5, por exemplo, assinalou-se apenas que ?Sang-chul Yoo chutou no canto esquerdo de Dudek?. Quem acompanha futebol quer mais: o chute foi de fora da área? Bola rasteira?

Na última quarta-feira, escreveu-se que o senegalês Fadiga cobrou um pênalti ?com perfeição? (o que quer dizer isso? Onde a bola entrou?). São detalhes que interessam ao leitor, o qual, devido aos horários, vê, se muito, apenas os jogos mais empolgantes.

Mencionei também em crítica interna casos em que a apresentação de jogos trazia estatísticas e dados históricos sobre as equipes, mas quase nada sobre o futebol propriamente dito (táticas, opções de jogada, deficiências).

Ainda no quesito notícia, o jornal perdeu a oportunidade de se diferenciar e efetivamente informar mais, ao aderir de modo unilateral ao ?festejo? da imprensa quanto ao erro do juiz que marcou o pênalti para o Brasil no primeiro jogo.

Mais jornalístico, ali, teria sido mostrar de imediato também o outro lado, quer dizer, argumentações que sustentassem, ao menos em tese, a decisão do árbitro. Eu mesmo escutei algumas delas, por parte de comentaristas, numa estação de rádio, no mesmo dia do jogo. O jornal deu a versão do árbitro, corretamente, mas isso só ocorreu na edição do dia 5.

Nesse mesmo sentido, achei inadequado, para a Folha, tendo em conta o objetivo de ?informar?, a comemoração explícita, típica de torcedor apaixonado, das desclassificações da Argentina e da França. Uma coisa é registrar a folia vingativa de torcedores, outra é o jornal incorporar o ufanismo camuflado, mesmo que seja sob a forma de pequenas brincadeiras inocentes. A página D2 do caderno foi o espaço privilegiado para essa espécie de ?editorialização?.

O jornal levantou na terça (11) e depois abandonou um caso curioso: o incidente entre um fotógrafo e atletas brasileiros numa boate em Seogwipo (Coréia do Sul), irritados com o fato de o jornalista ter feito imagens de sua ?privacidade?. Ronaldo chegou a lhe tomar a máquina fotográfica.

Falou-se na suposta existência de um ?trato? entre CBF e imprensa para poupar os atletas de flagrantes, registrou-se em nota dia 12 o sumiço do jornalista e ficou-se por aí, com uma reticência sobrando, inclusive sobre uma eventual participação da Folha no esquisito suposto ?trato?.

Projeto gráfico

Melhores são a inquietação e a ousadia (com os seus riscos inerentes) do que o marasmo e a letargia. Ponto pacífico.

Como já havia acontecido na Copa de 98 na França, o caderno ?Copa 2002? tem um visual específico, leve, inovadoramente agressivo. Os títulos buscam descontração, humor. As fotos ocupam espaço generoso.

Uma marca do caderno são os traços vermelhos ?à mão? (como o que é usado, em azul, no quadro desta coluna). Como todo bom recurso iconográfico, porém, seu uso requer cautela e parcimônia, seja para não se banalizar, seja para não prejudicar, eventualmente, o essencial (a informação) em nome da ?estética?.

Um leitor se queixou, por exemplo, na edição do dia 4, que os dizeres em vermelho ?Valeu Kim!? (referente ao juiz que apitou a estréia brasileira) encobriam nomes de times e horários de jogos de uma tabela. Falhas desse tipo, deve-se deixar claro, desapareceram nas edições dos dias seguintes.

Mas o projeto gráfico encontrou um outro obstáculo, mais resistente, ao menos nesse ?primeiro tempo? do torneio: a carência de cores nas páginas do jornal.

Como mostra a tabela no quadro à esquerda, do total de páginas publicadas sobre a Copa entre os dias 3 e 14 de junho, apenas 62% foram coloridas, enquanto o Estado de S.Paulo, por exemplo, atingiu 98%.

A média da Folha, semelhante à da Copa de 98 (63%), parece expressar uma limitação estrutural. De acordo com a Secretaria de Redação, ?o parque industrial da Folha, segundo a diretoria industrial, tem uma capacidade de impressão em cores que varia de acordo com o tamanho total do jornal. Para comparar a quantidade de cores dos dois jornais (Folha e Estado, no caso), é preciso analisar não apenas um caderno, mas todo o jornal?.

É lamentável que uma solução para isso não tenha sido encontrada até agora numa cobertura que ocorre a cada quatro e previsíveis anos e cujo planejamento começou a ser feito desde o ano passado. Ainda há tempo?

Não deixa de ser irônico que esta coluna, tratando hoje do assunto, inclusive no quadro acima, esteja também afetada pela precariedade das cores.

Estatística e humor

Com o suporte do Datafolha, o jornal continua campeão em estatísticas, elemento objetivo para a apreciação de jogadores e times, característico da Folha.

Pecou em alguns casos, porém, pela falta de clareza quanto ao que os números significavam -falha essa também depois corrigida pela editoria.

Quanto às pitadas de humor -inerentes ao projeto do ?Copa 2002?-, elas, infelizmente, não se limitaram ao caderno.

A página de editoriais deu sua contribuição (involuntária) no dia 4, com o professoral texto ?Dois lances?, sobre a performance brasileira na estréia.

Embora discorde da idéia de que o jornal como instituição se deixe travestir de comentarista de jogos de futebol (pela inevitável carga de subjetividade que essa interpretação implica), reconheço que não é atribuição do ombudsman discutir o mérito dos editoriais da Folha.

Mas este foi excepcional, e a citação de um pequeno trecho explicita o que quero destacar:

?O zagueiro Lúcio, após interceptar cruzamento do adversário, fez passe arriscado para Juninho, cercado por marcadores turcos. O meio-campista perdeu a bola, que foi em seguida lançada no costado da zaga verde-amarela, propiciando ao atacante turco um arremate livre de marcação…?.

Nos anos 40 ou 50, o trecho talvez passasse batido. Em pleno século 21, porém, é antológico.

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