Sábado, 16 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

PRIMEIRAS EDIçõES > FOLHA DE S.PAULO

Bernardo Ajzenberg

Por lgarcia em 10/07/2002 na edição 180

FOLHA DE S.PAULO

"Onde (não) canta o sabiá" copyright Folha de S. Paulo, 7/7/02

"Não deu nem tempo de festejar a boa performance da Folha na cobertura da Copa do Mundo, já comentada parcialmente aqui e em críticas internas. Uma sequência de erros tão graves quanto evitáveis expôs o jornal, semana passada, a um vexame.
Foi na reportagem publicada domingo sobre o projeto urbanístico que, entre outras coisas, está lotando de palmeiras o canteiro central da célebre avenida Faria Lima, em região nobre de São Paulo.

Título do texto principal, na capa do caderno Cotidiano: ?Marta compra planta até 5 vezes mais cara?.

Revelação central: pesquisa feita pelo jornal mostrava que a Emurb, autarquia responsável pelo projeto, adquirira plantas por valores bem acima do mercado. Acusação pesada.
Na quinta-feira, a retratação, em reportagem na página 4 do mesmo caderno: ?Marta não pagou mais por palmeiras?.

Explicação em dois tempos:

1) Em vez de pesquisar os preços com base no tamanho do tronco das árvores, como estava no edital de licitação, o jornal o fez a partir do tamanho total das plantas, incluindo tronco, palmito e copa;

2) De modo equivocado, os cálculos realizados pela reportagem consideraram os valores constantes no edital como se eles tivessem sido os efetivamente pagos pela mercadoria, quando eles, na verdade, servem de referência para que as empresas interessadas façam suas propostas.

No texto de retificação, o jornal admitia, então, que em certo caso a administração municipal ?conseguiu comprar palmeiras imperiais por um preço 41,5% inferior ao estabelecido no edital?.

Raiz

Feita a correção, registrado o vexame, cabe a pergunta óbvia: onde reside a raiz dos erros cometidos?

Questionado pelo ombudsman sobre isso, o editor de Cotidiano, Nilson de Oliveira, respondeu: ?Confiança extrema nas fontes, análise superficial da documentação e tratamento burocrático do ?outro lado?.

Perfeito -com a ressalva de que parece incabível que tais equívocos possam ser cometidos por um jornal que se vangloria de estar na vanguarda, justamente, do cumprimento desses quesitos, em especial do respeito ao chamado ?outro lado?.

Quanto às fontes, é princípio básico do jornalismo que toda informação exige que diversas delas sejam ouvidas -se possível com tendências ou visões contraditórias-, para evitar que o veículo seja manipulado por interesses deste ou daquele lado, como claramente ocorreu aqui.

Sobre os aspectos técnicos, nada como um pouco de humildade (o que significa consultar o maior número possível de especialistas e expor-lhes todos os detalhes) para poupar o jornalista de cometer um erro crasso ou escrever bobagem.

Checar e rechecar dados é o mínimo. E esse ônus cabe ao jornalista, não à fonte.
Por fim, a questão do ?outro lado?, sem dúvida a mais complexa e relevante neste caso.

Espaço azul

Muita gente elogia a Folha por ser o único jornal a prever já no seu projeto gráfico um espaço obrigatório e diferenciado para registrar a versão de pessoas ou instituições postas na berlinda.

Ocorre que esse recurso, quando aplicado sem seriedade ou esquematicamente, serve apenas para ?lavar as mãos? e, em última instância, trair a verdadeira investigação jornalística. Constitui-se num auto-engano.

Não basta ouvir ou procurar ouvir o ?outro lado? e registrar burocraticamente a sua posição ou a tentativa de obtê-la.

Não basta a um repórter sentir-se satisfeito e aliviado por poder preencher de qualquer forma aquele espaço azulzinho previsto pelo projeto gráfico. Não é para isso que ele foi concebido.

Menos válido ainda é o expediente, nada incomum, de ocultar da fonte acusada as idéias centrais da reportagem, destacar-lhe apenas o acessório, dar voltas, de modo a não lhe permitir, objetivamente, uma defesa real, não superficial ou ?burocrática?. Aqui, o feitiço pode se virar contra o feiticeiro.

Ouvir o ?outro lado? é parte da apuração. É instrumento de reforço da matéria a ser produzida. Interessa ao repórter, não para atender simplesmente a uma determinação formal, mas para conferir suporte ao seu trabalho.

Mais do que isso, como afirma o ?Manual? da Folha:

?O outro lado também pode levar o jornalista a refazer sua apuração, ou mesmo abandonar a notícia, se trouxer uma informação procedente que desminta a perspectiva inicial da reportagem?. Como ser mais claro?

O caso das palmeiras é uma evidência de que a Folha maltratou esse princípio. Tivesse ele sido aplicado com clareza e com a devida profundidade, é óbvio que a investigação tomaria outro caminho.

O que seria melhor para o jornal: abortar uma linha de acusação atraente mas pouco sólida ou obrigar-se a uma retratação desmoralizante?

O excesso de cartas de autoridades ou instituições envolvidas em reportagens no Painel do Leitor (roubando espaço deste último), aliás, como destaquei aqui na coluna de 10 de março passado, é outro sintoma de como tem sido recorrente a incompreensão quanto ao lugar do ?outro lado? na confecção de uma reportagem.

De que adianta ter um belo manual de jornalismo se ele fica escondido no chip de um computador ou a mofar na estante?

Quem paga o pato, no fundo, é o próprio jornal (em última instância, claro, o leitor).

*

É certo que a maioria dos veículos de comunicação nem sequer reconhecem, muito menos divulgam, os erros que cometem. A transparência é, a cada oportunidade, um parto difícil. Esse mérito a Folha teve.

Mesmo assim, alguns leitores se queixaram, no caso das palmeiras, de que não coube à correção o mesmo espaço dado à reportagem original e de que esta saiu num domingo (edição de maior divulgação) enquanto àquela se reservou uma dia de semana.
Faz sentido, mas deve-se ponderar, também, que muitas vezes é melhor e mais transparente publicar o erro o quanto antes, mesmo que o espaço seja menor ou diferente -desde que para ele se chame devidamente a atenção.

E aqui cabe um reparo ao comportamento assumido pelo jornal.

O ?Erramos? publicado quinta-feira, na página A3, o qual remete para a reportagem da correção, chega a ser patético, ao dizer: ?A reportagem… continha alguns erros…?.
Alguns erros?

Ora, a reportagem errou ?apenas? no mais importante. Não foram ?alguns erros?, mas sim erros cruciais. Se não tivessem sido cometidos, cairia a tese central do texto.
Além disso, a chamada da capa da Folha nesse dia (?Prefeitura de SP não pagou mais por palmeiras usadas em paisagismo?), sem texto a ela acoplado, limitada a esse título, solto na página, não faz nenhuma retificação explícita.

Basta lembrar, em contraposição, o que fez o ?Agora?, que reproduzira a mesma reportagem no domingo. Na quinta, com um texto, um título e ainda um ?chapéu? que dizia ?Levantamento errado?, esse jornal deixou claro, na capa, a falha vendida aos leitores.
A própria Folha já foi mais transparente na exposição de erros. Em 6 de fevereiro de 1998, para dar apenas um exemplo, o título de uma chamada, na capa, dizia sem rodeios: ?Folha erra no quadro de faltas no Congresso?.

Esse espírito de absoluta exposição, além da aplicação das técnicas essenciais de apuração jornalística, só isso pode compor um antídoto capaz de reerguer a credibilidade do jornal quando ela sofre abalos como o provocado pelo caso das palmeiras."

Todos os comentários

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem