Quarta-feira, 13 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

PRIMEIRAS EDIçõES > FOLHA DE S.PAULO

Bernardo Ajzenberg

Por lgarcia em 24/07/2002 na edição 182

FOLHA DE S.PAULO

"Estatísticas", copyright Folha de S.Paulo, 21/7/02

"O uso de estatísticas para avaliar um jogo de futebol, como costuma fazer a Folha, sofre muita contestação.

Mas a verdade é que os números se baseiam em fatos (dribles, chutes a gol, escanteios etc.) e expressam claramente o desempenho técnico dessa ou daquela equipe, independentemente dos gols marcados.

O mesmo não vale, porém, para avaliar o comportamento dos jornais numa campanha eleitoral. Por isso, deve ser relativizado o levantamento feito pelo Iuperj (Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro), apresentado em reportagem da Folha domingo passado sob o título ?Instituto mapeia cobertura dos jornais?.

Como explica o texto, o mapeamento divide as reportagens em ?positivas?, ?negativas? e ?neutras?. Além disso, contabiliza o espaço dedicado aos candidatos em cada publicação.

De 20 de fevereiro a 28 de junho, a Folha, segundo o instituto, foi, dentre os três jornais de ?maior penetração? do país, o que apresentou percentual mais elevado de reportagens ?neutras? sobre a sucessão presidencial. Ao mesmo tempo, foi o que deu maior espaço relativo à candidatura José Serra (PSDB).

Um estudo como esse, se feito com cautela e precisão, só pode ajudar na avaliação do desempenho da imprensa. Por seu histórico, o Iuperj tem toda a condição de torná-lo útil e necessário, como um contrapeso objetivo às avaliações subjetivas referentes à imprensa.

Mas seus dados não devem ofuscar a existência de elementos inerentes ao jornalismo: a possibilidade de interpretação dúbia, as duplas leituras, o momento político e/ou econômico em que determinada notícia surge, as ambiguidades, a sutileza e a subliminaridade, a força subterrânea das imagens.

Como afirma o próprio diretor de Redação da Folha, Otavio Frias Filho, na reportagem, ?jornalismo não é estatística?.

Pergunta, também ali, Rodolfo Fernandes, diretor de Redação do ?Globo?: ?Serra dar nota 7,5 para o governo Fernando Henrique é ?positivo? ou ?negativo’? E Ciro dizer que vai alongar o perfil da dívida interna? E Lula afirmar que o PT mudou??.

Ibope

Na quarta-feira passada, por exemplo, os principais jornais do país publicaram em suas capas, com títulos destacados e em espaços expressivos, a pesquisa de intenção de votos do Ibope que colocou Ciro Gomes (PPS) isolado no segundo lugar, nitidamente à frente de Serra.

Foi o primeiro levantamento nacional realizado após a série impactante de entrevistas com os candidatos no ?Jornal Nacional? e o primeiro, também, em que o candidato da Frente Trabalhista abria tamanha distância sobre o tucano.

A Folha, porém, não deu na capa sequer um título para a informação, limitando-se a registrar seus principais dados ao pé de uma chamada que versava sobre outra questão da campanha eleitoral. Internamente, a reportagem não foi nem mesmo manchete de página.

Questionada a esse respeito pelo ombudsman, a Secretaria de Redação afirma que ?o jornal trata das outras pesquisas eleitorais, que não as do Datafolha, conforme exercem efeito e impacto sobre o cenário político-eleitoral?.

E acrescenta:

?Continuamos a dar primazia editorial às pesquisas Datafolha, não apenas por serem de instituto vinculado ao jornal, mas por serem consideradas as mais confiáveis do país, confiabilidade reforçada, é bom sublinhar, pela circunstância de que o Datafolha não faz pesquisa para partidos nem para políticos.?

Impacto

Não estão em dúvida a credibilidade do Datafolha nem o fato de que o jornal lhe dê primazia.

Isso posto, pergunto: quais foram o efeito e o impacto dessa pesquisa do Ibope?

Basta ver a agitação ocorrida no núcleo central da campanha de Serra para verificar que foram enormes antes mesmo da sua divulgação nos jornais.

Isso, sem considerar a redução da taxa básica de juros, pelo Banco Central, que não poucos analistas atribuem a uma tentativa, adotada na própria quarta, dia seguinte à divulgação da pesquisa na TV, de dar oxigênio ao candidato do Planalto.

Como seria computada estatisticamente tal postura da Folha à luz dos parâmetros de um estudo como esse do Iuperj?

Em texto no ?Observatório da Imprensa?, site de análise da mídia, o jornalista Alberto Dines, entre outras ponderações, destaca também a importância dos colunistas e chargistas como elementos que influem no comportamento de um jornal.

Mais uma vez, não se trata de desmerecer estatísticas, mas de alertar para o fato de que muitas vezes seus resultados, vistos abstrata e isoladamente, podem esconder problemas sérios e graves de performance editorial.

Elas são bem-vindas, como um elemento a ser considerado com seriedade, mas não substituem -nem seus autores pretendem fazê-lo, deixe-se claro- as observações e o acompanhamento diário que os leitores fazem e os próprios jornalistas têm a obrigação de realizar.

Por mais que se esforce na busca pela objetividade, o jornalismo é, sim, um universo no qual a subjetividade dita (muitas) regras -e aí reside, a bem da verdade, a sua graça.

Tropeços na passarela

Em meio a uma campanha eleitoral tensa e brutal, a um nervosismo trepidante do mercado financeiro internacional, a São Paulo Fashion Week, iniciada segunda e encerrada ontem, forneceu, nas páginas dos jornais, um descanso para os olhos.

A Folha deu bastante espaço para os desfiles, inclusive na sua capa, diariamente. Isso não a impediu, porém, de cometer alguns deslizes. E vale a pena mencioná-los.

Em que pese sua beleza, e com todo o respeito profissional, penso que jornalisticamente a imagem de Gisele Bündchen já virou carne de vaca. Intrigou-me, por isso, que a Folha, presa a uma unanimidade incômoda, a tivesse projetado, mais uma vez, na capa de terça-feira.

Tal sensação até se teria atenuado caso a foto refletisse a novidade registrada pela reportagem: ao contrário do que aconteceu em 2001, a top fez muita pose de costas e expôs os contornos do seu bumbum ao soltar a sainha que usava por cima do biquíni. Mais: exibira, dentre outros, um inusitado biquíni com uma estampa de Che Guevara.

Mas a Folha, ao contrário do ?Globo? ou do ?Jornal da Tarde? (veja as figuras 2 e 3 no quadro ao lado), não deu foto da modelo de costas nem do biquíni do ?che?.

Na sexta-feira, o título da reportagem era ?Herchcovitch emociona a SP Fashion Week?. Segundo o texto, o desfile do estilista paulistano fora o ?momento fashion mais incrível? da semana. Ao contrário do que se podia esperar, porém, não havia no jornal nenhuma foto desse desfile.

O efeito negativo, nesses casos, poderia ter sido parcialmente reduzido se os leitores soubessem que a Folha Online vinha trazendo, desde o início, galerias com imagens de todos os desfiles.

Inexplicavelmente, nas páginas impressas não houve nenhuma remissão para a cobertura feita pelo site do jornal.

Uma observação, surgida em mensagem de um leitor: das moças publicadas na capa da Folha diariamente, só uma, a da sexta-feira, não teve seu nome registrado na legenda da foto.

?Sei lá?, disse o leitor. ?Por coincidência ou não, ela é negra. E deve ser negra brasileira.?

Mérito da Folha ter dado na capa uma modelo negra -algo, infelizmente, raro (figura 4 no quadro). Mas bem que o jornal poderia ter feito um serviço mais completo, sem precisar passar por essa."

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