Segunda-feira, 14 de Outubro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1058
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Bernardo Ajzenberg

Por lgarcia em 25/09/2002 na edição 191

FOLHA DE S.PAULO

"Heresia e fé", copyright Folha de S.Paulo, 22/9/02

"A três semanas do primeiro turno de uma eleição presidencial marcada pela imprevisibilidade, a Folha já adiantou as linhas gerais do balanço que faz da sua cobertura -pelo menos sobre o mais delicado aspecto que ela envolve: a isenção política do noticiário.

Esse é o significado principal do artigo ?Árvores abatidas?, do editor de Brasil, Fernando de Barros e Silva, publicado domingo passado como réplica às críticas de minha coluna do último dia 8.

Nela eu identificava que, durante toda a primeira semana de setembro, as edições do caderno Eleições constituíram um ?ciclo pró-Serra?, em detrimento especialmente das candidaturas de Lula e de Ciro Gomes.

Alertava, então, para o risco que esse desvio, caso não fosse interrompido, representava para a credibilidade do jornal.

Na visão de Barros, ao avaliar um número restrito de edições, sem fazer a crítica em perspectiva do conjunto da cobertura, o ombudsman omitia o principal. Via a árvore, mas não a floresta, usando tal ?conduta? para ?pôr a independência editorial da Folha em questão?, para ?sustentar uma tese que falseia o sentido geral da cobertura?.

Com três exemplos buscados no primeiro semestre, o editor procurava mostrar que o jornal publicara também material com conteúdo anti-Serra.

Abismo

Jornal é um organismo vivo. É produto do momento, não história ou profissão-de-fé. Seja para noticiar um simples fato, seja para coberturas prolongadas.

Em especial no caso dessas últimas -como é a campanha eleitoral-, a existência do ombudsman só faz sentido se ele, apoiado nos leitores e em seu próprio senso crítico, puder apontar anomalias a ?quente?, antes que estas se transformem em injustiças sem volta.

Barros sabe que a coluna analisava o jornal num momento preciso, sem ser uma ?tese?, uma apreciação global sobre a sua política de isenção.

Até porque não há como fazer seriamente o balanço do comportamento de um jornal nas eleições antes da edição do dia em que os eleitores vão às urnas.

Ainda mais numa corrida marcada por ondas e reviravoltas, parece presunçoso demais descartar que a reta final possa trazer novas surpresas e, por isso mesmo, novos desafios para o jornal.

Talvez o jornalista se tenha obrigado a puxar a discussão para o campo que ele chama de ?floresta? ao não achar no período por mim abordado exemplo de peso favorável à sua avaliação positiva pré-fabricada.

O que escrevi, além disso, nem de longe fechava a possibilidade de que o jornal viesse a cometer o mesmo deslize (parcialidade) em favor de outro candidato.

Seu próprio texto, aliás, cita coluna minha de 26 de maio com alerta semelhante, só que em relação ao PT (?na semana que passou, os marqueteiros do PT puderam respirar aliviados, ao menos quanto à Folha?).

Por que daquela vez não existiu réplica sobre árvores e florestas? Talvez porque tenha havido sensibilidade para ver que ali não estava ?tese? alguma, mas um ?retrato de momento? (expressão que o editor usa depreciativamente) quem sabe útil à reflexão.

Há um abismo entre a intenção de produzir um jornalismo crítico e o fato de efetivamente conseguir realizá-lo. Este requer um esforço árduo, minucioso, de conjunto. Para aplicar os seus princípios, a mesma vigilância tem de ser usada em toda parte, da legenda de uma foto à manchete da Primeira Página. Um simples título enviesado basta para se acender a luz amarela -quanto mais uma sequência de edições.

Por isso, posto que a isenção não resulta de revelação divina, questionar a independência da Folha em certo momento não é heresia. Ao contrário. Faz lembrar que ela tem de ser conquistada e posta à prova a cada dia.

Risco

Em seu texto, Barros insinua que o ombudsman criticou o jornal por ?serrismo? apesar de ter calculado o risco de que sua coluna poderia ser usada, como foi, pela campanha petista.

Ora, precisaria o editor ser lembrado de que Paulo Maluf também já usou críticas do ombudsman? De que usos semelhantes -mais ou menos oportunistas- sempre houve, desde que existe ombudsman na Folha? Aqui, ele só viu a árvore.

De novo sobre PT, meu colega afirma: ?Espera-se de um jornal como a Folha que deixe um pouco de lado a fantasia publicitária e lance alguma luz sobre as contradições e problemas do discurso e dos governos petistas?.

Ótimo. Ainda é tempo, porque, até agora, ela não foi capaz de produzir tal luz, senão em versões bastante pálidas.

Obsessão

Será que a autoconfiança da Folha teria atingido um ponto tal que, para ela, toda ponderação sobre parcialidade só poderia vir de ciristas obtusos ou petistas furibundos disfarçados de leitores? Isso é arrogância.

O jornal conhece o caminho que leva à credibilidade e o quanto é penoso percorrê-lo. Mas dá sinais de que não sabe como é fácil perdê-la.

Até hoje, ao longo dos anos, com mais acertos do que erros, a Folha soube se preservar dessa experiência. Mas isso só aconteceu por se ter valido, quase fanaticamente, de autocríticas imediatas e avaliações severas -justificando por muito tempo, inclusive, a fama criada entre os jornalistas de que trabalhar neste jornal implica ter a pele dura, bastante dura.

Nessa linha de saudável obsessão, não foi outro o sentido da criação da figura do ombudsman pelo jornal treze anos atrás.

Por sorte, com a de hoje, o leitor terá ainda catorze edições até o primeiro turno. Parece pouco, mas, felizmente, não é."

***

"Sem memória", copyright Folha de S.Paulo, 22/9/02

"Uma das queixas mais comuns dos leitores é de que os jornais, depois de enorme estardalhaço em cima de algum caso, simplesmente o abandonam, esquecem de dar sequência à cobertura e, por vezes, perdem até mesmo o fio que permitiria retomá-la.

O esquecimento fica mais grave quando há denúncias e reputações de pessoas postas em xeque no momento do escândalo.

Algo desse tipo apareceu na Folha de quinta-feira, num caso em que o jornal havia se destacado ao longo de 1999.

Em 21 de março daquele ano, o caderno de Esporte revelou a existência de um esquema de suborno que teria sido utilizado pela Lusa um ano antes, no Paulistão-98, para ?comprar? o goleiro da Portuguesa Santista, a fim de que este facilitasse no jogo entre as duas equipes (o qual acabou em 4 a 4).

O resultado assegurou ao time da capital uma vaga na segunda fase do campeonato.

Envolvendo a diretoria do clube e o empresário do jogador, o caso recebeu chamada de Primeira Página e absoluta primazia no caderno Esporte pelo menos durante dez dias, afora a repercussão em outros veículos.

Depois, manteve-se meses em destaque, até que em agosto a Justiça acolheu denúncia e abriu processo contra três diretores da Lusa e o empresário.

Essa série de reportagens chegou inclusive a ser indicada para o Prêmio Folha, naquele ano.

Passados quase três anos, no semestre passado saiu a decisão da Justiça, em primeira instância, e a Folha, como de resto a imprensa toda, nada publicou.

Até onde pude averiguar, a primeira notícia só saiu no diário ?Lance!?, no dia 20 de julho.

A Folha, que revelou o caso e fez dele um de seus principais investimentos em 99, só veio a registrar a decisão bem depois, quinta-feira passada, por meio de três notas no Painel FC.

Segundo o editor de Esporte, Melchiades Filho, a opção foi essa porque a fixação e o regime da pena do diretor de futebol condenado ainda não foram calculados pela Justiça (a sentença ainda não é definitiva).

Desde que sejam relevantes, o jornal publica decisões judiciais de primeira instância, ressalvando que cabem recursos.

Num caso como esse, que tanto espanto provocou à época, nada mais natural que o assunto ganhasse bem mais destaque no jornal -ainda mais que houve não só duas condenações mas também duas absolvições.

É certo que a decisão aconteceu meses atrás. Ainda assim, mais valia retomar a notícia, com a ênfase que ela merece, do que quase ?escondê-la? em três notinhas."

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