Quarta-feira, 21 de Fevereiro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº975

PRIMEIRAS EDIçõES > ***

Bernardo Ajzenberg

Por lgarcia em 02/10/2002 na edição 192

FOLHA DE S.PAULO

"Rápido no gatilho", copyright Folha de S.Paulo, 29/9/02

"Na quarta-feira, a Folha publicou a seguinte manchete na Primeira Página: ?Real fecha abaixo do peso argentino?.

A alta do dólar, no dia anterior, batera novo recorde, com a moeda americana valendo R$ 3,78. No mesmo dia, em Buenos Aires, cada dólar valia 3,70 pesos -daí a formulação do título.

Aparentemente, este apenas registrava o cruzamento de dois dados objetivos. Na página seguinte, porém, o editorial ?Turbulência? advertia:

?O fato de que ontem o valor do real, medido em dólares, se tornou inferior ao do peso argentino pode dar a falsa impressão de que a economia brasileira está mais debilitada que a argentina. Mas basta uma comparação para desfazer esse equívoco: em 2002 a alta do dólar sobre o real é de 63%; nesse mesmo período, a moeda americana… se valorizou 270% sobre a argentina?.

O enunciado da manchete também se fragilizava à luz de uma reportagem em Dinheiro, segundo a qual ?o que tem que ser considerado é o valor real da moeda. Ou seja, seu poder de compra?.

Ela terminava assim:

?Para afirmar que uma moeda vale menos que outra, os economistas comparam diversos produtos e taxas de câmbio de períodos mais longos?.

Em outras palavras, apesar de apenas constatar uma relação numérica abstrata, a manchete comparava coisas na realidade incomparáveis, como banana com maçã. E induzia o leitor a achar que a economia brasileira chegou a uma situação ainda pior do que a da Argentina.
Para complicar, o texto da chamada, sob a manchete, nada dizia a esse respeito, não se preocupava em relativizar a ?licença jornalística? do título.

Tudo isso seria menos grave, claro, se não se tratasse de uma manchete do jornal de maior circulação no país. No atual momento, delicado economicamente, à véspera de uma eleição presidencial -e com a ?fama? nada edificante da situação do país vizinho-, haja alarmismo.

Irritado com o jornal por causa disso, um leitor que é operador no mercado de capitais me disse ao telefone que, sendo ?tão elementar? o equívoco a que a manchete induz, ele não conseguia acreditar que ela fosse fruto de ?acidente ou barbeiragem?.

Para ele, com esse título ?terrorista? em relação à situação do Brasil, a Folha contribuía para fragilizar o governo (que seria o maior responsável pelo ?caos?) e, por tabela, favorecer a candidatura de Lula (PT) ao Planalto.

Quando ponderei que, dentro, editorial e reportagem de certo modo atenuavam o alarmismo, o leitor foi rápido no gatilho:

?E daí? É como você me acertar um tiro e depois pedir desculpas. Nem você deixou de me alvejar nem eu deixei de ficar ferido?."

***

"Voto no escuro", copyright Folha de S.Paulo, 29/9/02

"Pesquisa Datafolha do dia 20 divulgada sexta-feira mostra que 59% dos eleitores paulistas ainda não sabem em quem votar para deputado federal. Nada indica que a situação seja diferente nos demais Estados.

Trata-se de um percentual expressivo -e a imprensa tem grande parte da responsabilidade por isso.

Seja quem for o presidente eleito, a história brasileira revela que, sem apoio no Congresso, a implementação de seu programa (e, portanto, do programa em tese escolhido pela população) fica comprometida.

As disputas proporcionais, no entanto, têm sido tratadas com incrível desdém pela mídia. Raras reportagens enfocaram o assunto de modo a despertar nos leitores maior interesse.

O caderno ?Olho no Voto?, publicado pela Folha na sexta-feira, é um instrumento valioso para os (e)leitores, e ajuda a romper esse ?silêncio?. Mas, até mesmo por embutir dados de desempenho apenas dos políticos já eleitos, não resolve o problema.

Só em SP há 793 candidatos a deputado federal e 1.572 a estadual, segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE). No RJ, são 602 e 1.333, respectivamente. Em MG, 554 e 923. Isso para ficar nos maiores colégios eleitorais.

Nos principais jornais brasileiros, somente no dia 9 passado, com o ?Globo?, teve início a publicação de nomes e currículos de candidatos. O ?Estado de S.Paulo? veio atrás, dia 16.

O critério adotado por esses jornais para a escolha dos candidatos divulgados foi o de pedir a indicação dos partidos. Eles se limitam a seus Estados-sede.

Na Folha, a divulgação foi inaugurada somente na segunda (23) e também se limita a SP.
Diferentemente de seus concorrentes, porém, o jornal preferiu fugir do controle das cúpulas partidárias. Reproduz candidatos indicados por personalidades ou representantes de entidades.

Trata-se de um critério que tende a ser mais democrático e qualitativamente diversificado, mas que implica desafio maior, principalmente se a idéia for buscar equilíbrio político.

Nos primeiros dias, o jornal não foi feliz em relação a isso. Na estréia, nada menos do que sete (58%) dos doze indicados (entre estaduais e federais) eram do PT e quatro (33%) do PSDB.

Até ontem [28/9], a relação mudou, mas ainda não tão significativamente. O partido de Lula recebeu 14 (28,6%) das 49 indicações publicadas. O de Serra, 12 (24,5%). Bem atrás vem o PMDB, com 5 (10,2%).

A busca da imparcialidade, nesse caso, não reside em aplicar na definição do espaço para os candidatos proporcionais os percentuais de intenção de voto de cada candidato a presidente ou a governador, pois nada obriga o eleitor a votar em nomes de uma única legenda. Ela requer, portanto, divisão bem mais equânime entre os partidos.

A uma semana da votação, pode-se estimar que, mantido o ritmo atual, o jornal terá exibido perto de cem candidatos (apenas 4% do total de SP).

É muito pouco e não compensará o quase abandono a que se submeteu o assunto ao longo de toda a campanha.

Que ao menos haja equilíbrio e isenção política na divulgação."

***

"Dúvidas no ar", copyright Folha de S.Paulo, 29/9/02

"Quarta-feira o jornal publicou interessante reportagem sobre o lançamento de novas drogas para homens com problemas de ereção e mulheres com dificuldade para se excitar.
No meio, o texto afirmava que ?…o Viagra é vendido livremente nas farmácias…?.

Em carta no Painel do Leitor, dia seguinte, o governo desmentiu a informação, afirmando que a venda desse medicamento só pode ser feita com receita médica. Como não houve uma Nota da Redação após a carta nem um ?Erramos?, a dúvida ficou no ar: afinal, é livre ou não o comércio do Viagra?

Na mesma quarta, texto em Dinheiro informava que a dívida da Eletropaulo com Furnas é de US$ 60 milhões. Num passe de mágica, sem explicação, o valor passou, na edição de sexta, para R$ 60 milhões. Qual é o dado correto, dólares ou reais?

Pequena nota na Ilustrada, naquele dia, noticiava que o diretor-adjunto da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo, Roberto Minczuk, fora contratado como regente-associado da Filarmônica de Nova York. Ele terá de deixar o cargo na Osesp? Já se pensa num substituto?

Imprecisões ou incompletudes no jornalismo diário são inevitáveis e podem ser corrigidas no dia seguinte. Nem por isso deixam de exigir atenção, para que ao menos diminua a sua constância. Pois, como mostram os exemplos acima, elas são sempre frustrantes para o leitor."

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