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Sexta-feira, 17 de Agosto de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1000
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PRIMEIRAS EDIçõES > FOLHA DE S.PAULO

Bernardo Ajzenberg

Por lgarcia em 23/10/2002 na edição 195

FOLHA DE S.PAULO

"O trivial insosso", copyright Folha de S.Paulo, 20/10/02

"Há quem entre no jogo para ganhar; há quem entre apenas para não perder.

Assim ocorre também no jornalismo diário. E, aqui, a diferença entre essas duas posturas básicas é a de apresentar ao leitor um prato rico, diferenciado, ou repetir-lhe o consensual, o arroz-com-feijão.

Exemplo de um jornalismo que vai a campo só a fim de cumprir tabela aconteceu no noticiário da última quarta-feira sobre a posse do novo presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), em Brasília.

Ali estavam o presidente da República, 11 ministros, 500 empresários, além do deputado federal José Dirceu (PT) e do vice de Lula, José Alencar (PL).

A reportagem da Folha sobre o evento (?Pessimismo ?irrita?, diz presidente?) ocupou 84 linhas, cercando um boxe (texto menor) com 44 linhas. Desse total de 128 linhas, 121 eram dedicadas a palavras de Fernando Henrique Cardoso.

A fotografia a ilustrar a cerimônia -imagem previsível, protocolar- mostrava FHC cumprimentando o deputado Armando Monteiro (PMDB), novo comandante da CNI, e só.

Mesmo tendo o jornal enviado ao local do encontro quatro repórteres, além do fotógrafo, o leitor da Folha não ficou sabendo que Dirceu se sentou durante todo o evento na primeira fila ao lado do empresário Antonio Ermírio de Moraes (o maior apoiador assumido da candidatura de José Serra no meio industrial), o qual também discursou.

Que o ministro da Fazenda, Pedro Malan, cumprimentou o presidente do PT, mão estendida e sorriso no rosto, contra uma face carrancuda do outro lado.

Tampouco ficou sabendo o que diz e o que pensa o próprio presidente da CNI, estrela principal, em tese, do acontecimento.

Interrogações

Ora, alguém é capaz de imaginar que um encontro desse porte, com tal mistura de gente, a 12 dias do segundo turno, só propicie de interessante para conhecimento do leitor um discurso presidencial, por mais contundente que este possa ter sido? É subestimar demais a realidade.

Dirceu e Ermírio conversaram? Não se sabe. Quem mais discursou? Não se sabe.

Por que não havia ali ninguém da cúpula do PSDB ou da campanha de Serra, fora, obviamente, FHC? Ou havia? Não se sabe.

Malan disse algo a Dirceu ou a Alencar? Não se sabe.

Dirceu aplaudiu FHC e Ermírio? Não se sabe.

Dentre as centenas de empresários presentes, havia alguns com ?bottons? desse ou daquele candidato? Qual era o ?clima? entre eles? Não se sabe.

A Folha bateu o recorde de ocupação de espaço com FHC na reportagem sobre o evento, mas os outros jornais não fizeram muito diferente -à exceção do Globo, que mostrou imagens de Dirceu com Ermírio e com Malan, inclusive na sua capa.

Eis um jornalismo de agenda, cego ante o imprevisto, incapaz de captar humores, desprovido de observação viva, insensível diante do significado político e simbólico de movimentações inesperadas.

Será que os leitores não merecem mais do que esse insosso trivial variado, cuja ausência de inspiração nenhum Romanée-Conti seria capaz de compensar?

Para refletir

Deu no jornal francês Le Monde, dia 11:

Marjorie Scardino, a texana que comanda o grupo Pearson, responsável pela publicação do Financial Times, principal diário financeiro britânico, disse sem papas na língua:

?Acho que a imprensa econômica e financeira, inclusive o Financial Times, não foi dedicada o bastante para conseguir revelar? os escândalos contábeis da Enron, WorldCom e outros de empresas gigantes norte-americanas que se seguiram desde o final do ano passado.

Declarou ainda Scardino, segundo o Monde:

?Se os jornalistas fossem capazes de entender um balanço de empresa, aqueles desvios teriam sido descobertos mais rapidamente. Mas os encarregados de fazer a cobertura das empresas não conhecem bem a vida econômica. É uma vergonha?.

Na visão de Scardino, seu jornal, um dos mais influentes do mundo, se satisfez frequentemente com a publicação de análises e notícias, em vez de fazer jornalismo investigativo, segundo relata o diário francês.

Os 550 jornalistas do ?FT? ficaram furiosos com o comentário, a ponto de Scardino enviar-lhes, depois, um e-mail dizendo que eles são ?os melhores do mundo? e que, em sua crítica, ela se referia, na verdade, ao conjunto da comunidade financeira, não apenas à imprensa.

Como a maior parte dos veículos de comunicação, o ?FT? também passa por dificuldades econômicas profundas.

A ?bronca? da patroa, neste caso, é parte de uma tentativa de recuperação do prestigioso jornal, não apenas com medidas de ordem orçamentária e operacional, mas também referentes ao conteúdo de seu noticiário.

Pela exatidão

Na terça-feira, o governo do Iraque promoveu um plebiscito para referendar a permanência de Saddam Hussein no comando do país.

Na quarta-feira, ao publicar fotos da cédula usada na votação (veja ao lado), a Folha traduziu os seus dizeres.

Pela quantidade de palavras, porém, era claro, mesmo para quem não lê árabe, que o jornal selecionara uma parte do texto.

Ficava no ar uma dúvida sobre o restante. Poderia não ser nada demais. Mas, como saber?

Na crítica interna, comentei que a publicação da íntegra ?teria sido um dado ilustrativo e diferenciado para o leitor?.

Por curiosidade, fui atrás da tradução integral do texto. Com ajuda da embaixada iraquiana em Brasília e checagem, depois, da própria editoria de Mundo, ei-la:

?Em nome de Deus, o clemente, o misericordioso,

República do Iraque

Conselho Superior de Observação do Plebiscito Popular Geral para o Cargo de Presidente do Iraque

Província: (……….)

Número da área do plebiscito: A pergunta:

Você concorda com que Saddam Hussein fique no cargo de presidente da República do Iraque?

A resposta: coloque o sinal (v) no quadrado que escolher:

Não sim?

Claro que o essencial é a pergunta -e isso a Folha traduziu e publicou. Mas editar a íntegra da cédula é também possibilitar ao leitor o conhecimento de elementos simbólicos relevantes, o ?estilo? de um universo cultural pouco conhecido.

Tem um valor documental (afinal, haverá no mundo algum outro plebiscito com 100% de resultado positivo para o governante, conforme o anunciado oficialmente por Bagdá?), satisfaz uma curiosidade legítima e responde, também, a uma questão de exatidão."

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