Domingo, 18 de Fevereiro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº974

PRIMEIRAS EDIçõES > FOLHA DE S.PAULO

Bernardo Ajzenberg

Por lgarcia em 30/10/2002 na edição 196

FOLHA DE S.PAULO

"Suando na esteira", copyright Folha de S.Paulo, 27/10/02

"A disputa pelo Planalto começou a ocupar as páginas dos jornais há cerca de um ano.
De lá para cá, numa conjuntura econômica adversa, a Folha gastou toneladas de tinta e de papel; milhares de reais foram aplicados na logística de produção do noticiário. Jornalistas deram sangue, como se diz, cotidianamente.

Hoje, dia do segundo turno, acumuladas desde então mais de 300 edições, é hora de perguntar se o resultado esteve à altura de todo esse esforço.

Segundo pesquisa publicada na sexta-feira, a cobertura das eleições foi avaliada como ótima ou boa por 93% dos leitores -taxa que nenhuma publicação séria deixaria de festejar.

Não é da tradição da Folha, porém, acomodar-se diante de um retorno positivo como esse nem se pautar exclusivamente com base nele. Tampouco o leitor costuma restringir sua interlocução com o jornal a uma resposta de questionário. Cabe ir mais fundo.

O jornal inovou? Cresceu jornalisticamente? Quais foram seus grandes momentos?

Inflexões

Este foi um ano em que alguns veículos operaram inflexões significativas de comportamento.

A TV Globo, caso mais notório, abriu-se para entrevistas e debates, surpreendendo, às vezes, com o grau incisivo de questionamento aos candidatos -fórmula evitada no último debate, registre-se, favorecendo Lula, como para pagar a dívida de 1989.

Numa campanha em que, desde o início, prevaleceu, acima de idéias e históricos, a imagem dos adversários, o impacto dessa iniciativa, inédita, foi decisivo.

?O Globo?, principal concorrente da Folha em nível nacional, vem há alguns anos experimentando linha editorial mais independente, e aprofundou-se nessa direção, deixando visível, por outro lado, o interesse em não ?incomodar? ninguém.

Como com FHC, o ?Estado de S.Paulo? se posicionou, em junho, a favor de Serra. Seu noticiário, sobretudo nas semanas seguintes, contaminou-se pela opção, algo que depois refluiu.

Não quero, aqui, comparar a Folha com esses concorrentes. São muito diversas as ?personalidades?. Mas fica claro que, para se impor, para se diferenciar nesse quadro, o jornal precisava apresentar mais do que o básico. E aí começam os problemas.

Marketing

O marketing tomou conta da eleição. Blindou candidatos, lapidou discursos, moldou sua apresentação. Manteve sob controle a atuação do jornalismo.

Ao mesmo tempo, o processo envolveu vários níveis (deputados, senadores, governador, presidente), o que implicava altos desafios materiais e editoriais.

Encerravam-se oito anos de um governo com a base de apoio dividida, numa situação política na qual a disputa tendia a adquirir caráter plebiscitário estimulado pela crise econômica.

Entendo que a Folha não se preparou o suficiente para dar conta desse panorama complexo. Parece não ter diagnosticado com profundidade o que poderiam representar essas eleições; que o marketing político viera para ficar, não só como propaganda mas como uma forma de exercício do poder.

Enquanto alguns veículos avançaram, ela ficou onde já estava. Agitou-se, suou -mas como se fosse numa esteira rolante.

Lacunas

Em contraste com anos anteriores, só as biografias dos candidatos receberam caderno inédito, especial, para além do dia-a-dia do noticiário.

As sabatinas tiveram bom efeito de imagem, mas não romperam a impermeabilidade, o preparo retórico dos candidatos.

O balanço da ?era FHC? dispersou-se sob o título ?Agenda da transição? ao longo de vários dias, sem destaque e, pior, à véspera do segundo turno, quando pouco contava, após um ano de campanha. A Folha abdicou do papel de estimular polêmicas, fustigar o consenso -opção discutível ante a tática do candidato do governo, justamente de deixar de lado ?o passado?.

As eleições a governador ficaram em segundo plano, limitando-se a cobertura à agenda de candidatos, palavras, debates.

As legislativas foram ignoradas. Surgiram a dias do primeiro turno, com tratamento amador.

O Datafolha teve quantidade e abrangência de pesquisas reduzidas, perdendo a primazia. O jornal obrigou-se a publicar pesquisas de outros institutos, os quais aproveitaram para comer parte do bolo de prestígio do concorrente -apesar de desacertos expostos pelas urnas no caso de todos.

Houve sensibilidade para dar atenção à propaganda gratuita e aos marqueteiros. Eis um aspecto positivo da cobertura.

O mesmo não aconteceu, porém, com episódios curiosos, cuja relevância simbólica não se captou ?a quente?: o advento do ?Lulinha paz e amor?; a frase de Ciro Gomes sobre Patrícia Pillar ?dormir? com ele; o ?medo? de Regina Duarte.

O ?buraco negro? dos financiamentos das campanhas, burlas, compromissos que prenunciam -tudo isso foi apenas arranhado. Descobri-lo implicaria investigação de bastidor, nada que apareça ?de graça? na TV.

Nos últimos dias, quando até o mercado começava a digerir um governo Lula, a Folha mostrava uma hibridez improdutiva. Ora priorizava, ainda, as campanhas (com a ênfase na retórica e na agenda dos marqueteiros que marcou boa parte da cobertura), ora as articulações de governo.

Entrevistas

Essas lacunas ficam mais evidentes se confrontadas com as excelentes entrevistas publicadas pouco antes do primeiro turno, por exemplo, com os empresários Eugênio Staub e Antônio Ermírio de Moraes e o senador José Sarney.

Também com o material em parceria com o UOL sobre o site ?Controle Público? (dados de renda e patrimônio de políticos) e a ?radiografia? do novo Congresso (ainda que, neste caso, concorrentes tenham saído na frente em certos aspectos).

Ou, ainda, com as reportagens sobre concessões de TV no governo FHC, o elo entre o ex-coordenador da campanha de Ciro e a família de PC Farias, irregularidades em administrações do PT.

Imparcialidade

Essas reportagens remetem a um tema caro à Folha: a imparcialidade do seu jornalismo.

Ao longo da campanha -marcada pela imprevisibilidade, ondas e reviravoltas-, houve oportunidade para muitas oscilações.

Nas críticas internas e nesta coluna, registrei momentos em que o jornal pendeu gravemente para esta ou aquela candidatura, pondo em risco sua credibilidade, chegando a acolher um Direito de Resposta, inclusive, em sua capa.

Foi o caso da coluna de 8 de setembro, sobre uma série de edições com tratamento favorável a Serra num momento crucial, em que este começava a tirar Ciro do segundo lugar nas pesquisas.

Ou da de 26 de maio, que mostrava como o jornal subestimara notícias incômodas para o PT.

Isso sem falar no quase esquecimento a que foi relegada, num dos maiores equívocos da mídia, a candidatura Garotinho.

Talvez contrariando legítimas expectativas de leitores que me enviaram queixas, penso, no entanto, que não há como ?bater carimbo? sobre o desempenho da Folha nesse quesito.

Numa longa campanha como essa, o tema não se presta a afirmações generalizantes, avaliações levianas e apressadas.

Na sexta-feira, o jornal publicou levantamento do Datafolha que mostrava favorecimento a Lula no seu noticiário do segundo turno. Surpreendentemente, em choque com os dados, o título era ?Folha se manteve equidistante no 2? turno? -quase uma afronta à inteligência do leitor.

Meritório no esforço de construir uma referência objetiva, o monitoramento tem, no entanto, limitações, certa subjetividade e reflete inclinações que os acontecimentos impõem, obrigatoriamente, ao noticiário. Jornalismo não é sandália nem sapato. Mesmo assim, não se justificava essa espécie de manipulação, como se o jornal quisesse sempre, acima de tudo, afirmar sua isenção.

Uma das lições que essa cobertura oferece é que a busca do equilíbrio não está em dar uma no cravo e outra na ferradura, numa política de compensações. Ela tem de ser orgânica, presente em cada texto, em cada edição.

Mesmo que lhe seja custoso, é dever da Folha, seus jornalistas, sua direção, fazer um balanço profundo, para além das estatísticas e dos retornos dos leitores.

O marketing político, repito, já se instalou. Mais uma vez, prenuncia-se um abraço entre o Planalto e o Jardim Botânico.

Como a Folha, com sua influência, irá se aparelhar diante da nova situação? O mínimo que se espera é que não aborde o novo momento e suas amplas expectativas de modo a deixá-lo, no futuro, do mesmo jeito que nele irá entrar."

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