Domingo, 19 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

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Bernardo Ajzenberg

Por lgarcia em 18/12/2002 na edição 203

FOLHA DE S.PAULO

"O mercado" copyright Folha de S. Paulo, 15/12/02

"Até mesmo quem pula o noticiário econômico já se habituou com a grande quantidade de títulos e reportagens que têm como sujeito o ?mercado?.

Pois essa presença maciça voltou a se manifestar sexta-feira na repercussão do anúncio de Henrique Meirelles como futuro presidente do Banco Central.

No caso da Folha, destaquem-se três títulos: ?Para mercado, falta prática a escolhidos? (capa); ?Lula indica neotucano ao BC; mercado reage com cautela? (página A4); e ?Desconfiado, mercado espera por técnicos? (página A8).

Mas, afinal, quem é esse tal de mercado?

Em geral, três tipos de fontes costumam ser mais citadas nessas coberturas: 1) operadores de mesa; 2) analistas e economistas dos bancos e corretoras ou, ainda, consultores; e 3) executivos (diretores, presidentes) de instituições financeiras.

Os operadores (quase sempre anônimos) têm a ?mão na massa?: compram e vendem títulos ou dólares, investem, operacionalizam a especulação no dia-a-dia. Imediatistas pela natureza de sua função, vivem do humor dos últimos cinco minutos, adulam rumores, fazem alarde ante qualquer abalo, precisam, para ganhar dinheiro, que as coisas sejam ou pretas ou brancas, jamais cinzas. Nervos à flor da pele, testemunham apenas o curtíssimo prazo e falam conforme seus interesses momentâneos.

Os economistas e os consultores analisam, traçam cenários, tendências. Nem sempre refletem ou determinam a ação instantânea dos operadores, tampouco expõem, necessariamente, a opinião final dos bancos a que servem.

Os executivos (diretores ou presidentes), esses sim, transmitem, em tese, o pensamento oficial das instituições.

Inversão

Quando o assunto em pauta tem a dimensão de uma mudança da presidência do BC na montagem de um novo governo, parece evidente que a pergunta mais relevante a ser feita ao setor, política e economicamente, é qual foi, nele, o impacto oficial do novo nome. Significa ouvir, sobretudo, os executivos dos bancos.

Em seguida viriam as implicações para a vida econômica como um todo na sua visão -procurando-se, aí, os analistas.

Depois, a reação imediata, fugaz, no mercado e como o dólar, por exemplo, abriria no dia seguinte. Ou seja, os operadores.

Nos textos da Folha sobre a recepção ao nome de Meirelles, porém, há uma inversão de prioridades.

Das 19 fontes citadas, 13 (68%) são analistas ou consultores. Oficialmente, só dois bancos deram sua palavra formal -além da Febraban (Federação Brasileira dos Bancos).

Em contraponto, por exemplo, os diários econômicos ?Valor? e ?Gazeta Mercantil? registraram 44% (8 de 18) e 43% (10 de 23), respectivamente, de presença de executivos nas citações publicadas -sem falar no peso, neles também maior, de opiniões de setores industriais e comerciais.

Independentemente do resultado (mais ceticismo ou mais otimismo), este último tipo de repercussão -com ênfase nos executivos e maior abrangência de setores- tende a possuir mais consistência política e mais proximidade com a realidade econômica do que aquele apoiado principalmente em opiniões (válidas e necessárias, claro) de analistas ou operadores.

Parcialidade

No caso da Folha, acabou-se produzindo, também, algo que desorienta o leitor.

Uma reportagem publicada em Brasil dizia que ?o mercado recebeu com cautela a indicação? de Meirelles e relatava, para expressá-lo, que a cotação do dólar, após cair de manhã, fechara em alta (0,3%).

Já em Dinheiro, o jornal atribuía a uma outra causa a subida da moeda norte-americana, segundo operadores: uma saída de recursos de cerca de US$ 130 milhões feita pela Petrobras.

?A alta do dólar não pode ser interpretada como um desapontamento do mercado com o anúncio de Henrique Meirelles?, dizia esse segundo texto. ?Meirelles agrada aos investidores por ser associado à credibilidade?.

O mercado, se vê, não tem nada de monolítico, homogêneo. Nem é, a rigor, uma entidade. Como qualquer outro braço da economia, tem vozes diferenciadas, hierarquizadas e, na maioria, não-desinteressadas.

Além disso, dar-lhe tanto espaço em detrimento de outros setores e de analistas não atrelados a instituições bancárias na repercussão de um fato relevante de amplas consequências, muito além das financeiras -como a indicação do presidente do BC-, é sinal de parcialidade jornalística."

***

"Pequena onda" copyright Folha de S. Paulo, 15/12/02

"Parece estar em formação uma pequena onda de criação de ombudsmans em veículos de comunicação da América Latina.

Essa foi, entre outras, a impressão deixada pelo ?Seminário Internacional El Defensor del Lector (ombudsman)?, de que participei entre os dias 5 e 7 passados, em Guadalajara, México.

O evento foi organizado pela Fundación para un Nuevo Periodismo (FNPI). Nele estiveram 36 pessoas -sendo nove ombudsmans ou defensores (nome preferido pela maioria), estudiosos de comunicação, ex-ombudsmans, integrantes de organizações de ?vigilância? da mídia, diretores e donos de jornais.

No total, dez países: Argentina, Bolívia, Brasil, Colômbia, Equador, México, Nicarágua, Panamá, Peru e Venezuela.

A maioria dos ombudsmans, ali, tiveram seus cargos criados nos últimos três ou quatro anos.

É o caso do ?La Prensa?, do Panamá, do ?Milenio?, da Cidade do México, e do ?Publico?, de Guadalajara.

Jornais do Peru (?El Comercio?), Bolívia (?El Deber?) e Argentina (?Clarín?) enviaram representantes com a intenção de trocar experiências, para criar o cargo também.

No caso da Colômbia, a legislação que permitiu o surgimento de canais privados de TV inclui um dispositivo que os obriga a criar o cargo de Defensor do Telespectador. Do encontro participaram três defensoras (TV Caracol, RCN e Teleantioquia).

Como síntese do ?espírito? que marcou o seminário e que parece impulsionar essa pequena onda, cito trecho da exposição de Javier Darío Restrepo, 70, ex-ombudsman do diário ?El Tiempo? e atual do ?El Colombiano?:

?Fortaleceu-se nos últimos anos a consciência de que o receptor da informação é o elo mais frágil da cadeia informativa e de que isso não deve ser assim. Por isso, surgem em diferentes países projetos de lei para garantir o exercício do direito à informação.?

?Com ou sem essas leis, o Defensor garante esse direito, potencializa a voz do leitor que se sente burlado ou que denuncia, por outro lado, os abusos do direito (da mídia) de informar, quando este invade a intimidade ou fragiliza outros direitos?.

?Como acontece com a consciência, quase silenciosamente, o Defensor faz lembrar, nos meios de comunicação, que o direito (da mídia) de informar, tão evocado durante o século 20, é um direito incompleto e fonte de abusos se não for complementado e reforçado pelo direito (da sociedade) à informação?.

***

Na última coluna, do dia 1/12, cometi dois erros factuais.

Ao contrário do que afirmei no texto ?Estímulo ao preconceito?, sobre uma reportagem da Folhinha, o leitor cuja mensagem ali citava não é pai (?leitor-pai?, como escrevi). Ele também esclarece que é um jovem de 17 anos.

Meu erro foi transformar uma suposição em fato, sem a devida conferência.

Em ?Os nós da Varig?, citei coluna de Janio de Freitas afirmando que ela fora publicada na quarta-feira 27/11.

Como alertou o próprio jornalista em coluna posterior (dia 3/ 12) -na qual aborda meus comentários-, aquele seu texto saíra na quinta, 28/11."

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