Domingo, 21 de Julho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1046
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Bernardo Ajzenberg

Por lgarcia em 05/03/2003 na edição 214

FOLHA DE S.PAULO

"Grampo e privilégio", copyright Folha de S.Paulo, 2/3/03

"O modo como o caso das escutas telefônicas ilegais na Bahia tem sido tratado pela imprensa gera várias perguntas, e certamente terei de voltar a ele nas próximas semanas.

Nenhuma delas, porém, suscitou mais ?clamor?, até agora, do que esta: por que a advogada Adriana Barreto, uma das pessoas grampeadas, é tratada pela imprensa como ?ex-namorada? e não como ?ex-amante? do senador Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA), principal suspeito de arquitetar a espionagem irregular?

O item está longe de ser o mais relevante do caso, em termos políticos. Mas não é à toa que foi a seu respeito o maior número de mensagens ao ombudsman desde que o assunto apareceu.

Elas não se conformam com o que um leitor chamou de ?perceptível tratamento diferenciado? dado pela imprensa, Folha inclusive, a um dos ?donos do poder?.

Perguntei à Secretaria de Redação (SR) o motivo da opção. A explicação:

?A Folha evita informar sobre a vida íntima dos personagens que são objeto de noticiário. Admite exceções quando aspectos da intimidade da pessoa aparecem entrelaçados com fatos de interesse público, como é o caso da escuta telefônica do chamado caso Bahiagate?.

?Adotou, inicialmente, a qualificação de ex-amiga para designar a condição de Adriana Barreto em relação ao senador Antonio Carlos Magalhães. A partir do momento em que ela disse publicamente que mantivera relação amorosa com o senador e que este não a contestou, o jornal adotou a qualificação de ex-namorada.?

?Preferiu-se esse termo, em vez de ex-amante, porque prevaleceu o entendimento de que esta última expressão, com o passar do tempo, revestiu-se de conotação repreensiva, implicando um juízo de valor sobre a conduta em questão. A Folha considera que a vida íntima das pessoas só diz respeito a elas próprias.?

?Tais normas valem para a terminologia empregada no noticiário. Colunistas têm utilizado, a seu critério, qualificações diferentes.?

Registre-se, de passagem, que, nas duas últimas sextas-feiras, a colunista Barbara Gancia questionou a escolha com vigor, em textos curiosamente intitulados ?Amante mudou de nome?? e ?Amante mudou de nome – 2?.

Em crítica interna, no dia 21, manifestei minha concordância com ela.

Precisão

Há lógica e prudência, sem dúvida, no raciocínio da SR. Mas ele, creio, não dá conta de dois princípios jornalísticos básicos e caros à própria Folha: precisão e isonomia de tratamento.

Até o fechamento desta coluna, nenhuma reportagem havia registrado o fato de que ACM é um homem casado e de que, portanto, Adriana Barreto não foi exatamente uma namorada.

Faltou no mínimo, como se diz no jargão interno da Redação, ?contextualizar? a informação.

É certo que o termo amante soa negativo, pejorativo, moralista até. É certo que o ?Aurélio? inclui a palavra namorado como sinônimo possível de amante.

Mas também é certo que, até o momento, não se encontrou, em nossa língua, outra palavra para expressar com igual clareza, simplicidade e exatidão (base do texto jornalístico) o mesmo significado.

Isonomia

Além disso, a sensibilidade do jornal em relação ao delicado substantivo não se mostrou tão aguda em outros momentos recentes (veja o quadro acima). E não há dúvida de que aqui reside o motivo maior de irritação para vários leitores.

A palavra amante foi usada sem eufemismos, por exemplo, no noticiário sobre o assassinato da jornalista Sueli Jacinto, em dezembro, na Praia Grande (SP), do qual teria supostamente participado uma adolescente que seria justamente, de acordo com a reportagem, amante do marido da vítima.

Considerando o argumento da SR, o fato de aquele texto atribuir tal informação à polícia não justificava, por si só, o uso da palavra amante em vez de, por exemplo, namorada.

Uma carta publicada no Painel do Leitor, no dia 4 de janeiro, criticava essa postura do jornal -especialmente, deixe-se claro, por se tratar de uma adolescente.

Apesar disso, o mesmo voltou a ocorrer no final de janeiro, nas reportagens sobre o esquartejamento de uma mulher cometido pelo cirurgião plástico Farah Jorge Farah, em São Paulo.

Título da reportagem, de 28/1:

?Médico é acusado de esquartejar a amante?.

?Mais? e ?menos?

?Será que para políticos as denominações para casos extraconjugais recebem nomes diversos daqueles utilizados para os simples mortais??, indaga, em e-mail, um leitor.

Pois essa é a questão, que adquire, inclusive, forte teor simbólico.

Pode até parecer, mas não se trata de problema menor, detalhe linguístico ou picuinha semântica.

Ao omitir do público o fato de que ACM é casado, ao sacrificar a exatidão adotando ?namorada? em vez de ?amante? na cobertura do Bahiagate -em que, claramente, vida privada e vida pública (no caso, do senador baiano) estão imbricadas-, o noticiário da imprensa dá margem à interpretação de que, para ela, existem, sim, cidadãos ?mais? e cidadãos ?menos?.

Poucos deslizes são tão nocivos quanto este, a médio prazo, para a sua credibilidade.

A evolução do ?Erramos?

A tabela ao lado mostra a evolução do número absoluto de retificações publicadas anualmente no jornal desde 1998 e, também, por meio de um índice, da média por página editorial.

Ela se baseia em levantamento feito pelo Banco de Dados da Folha a partir da seção ?Erramos?, na pág. A3 (edição SP/DF), que começou a ser publicada em janeiro de 1991 como expressão do compromisso do jornal com a transparência.

Em 2002, 66% das 1.039 correções contabilizadas se referiam a erros de informação. Em segundo lugar, bem abaixo (10%), estão os referentes a programação (TV, cinema, espetáculos). O jornal não tem como norma retificar todos os eventuais erros gramaticais.

É difícil afirmar se todos os erros cometidos diariamente são de fato corrigidos (supõe-se que alguns, por vezes, nem cheguem ao conhecimento da Redação).

Mas a curva da média de correções por página editorial (que toma o ano de 1998 como base 100) mostra oscilações pequenas, expressando, em princípio, a disposição do jornal de aplicar determinação de seu ?Manual? segundo a qual ?a Folha retifica, sem eufemismos, os erros que comete?. Se às vezes demora para fazê-lo, é outra questão.

Por outro lado, ela pode expressar, também, em tese, que, apesar dos esforços em sentido contrário, continua-se a errar bastante, com regularidade.

No ano passado, a média diária de correções, segundo o levantamento, foi 2,85, ante 3,45 em 1998 (ano em que, é necessário precisar, o jornal teve 18% de páginas editoriais a mais)."

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