Sábado, 25 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

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Bernardo Ajzenberg

Por lgarcia em 07/05/2003 na edição 223

FOLHA DE S. PAULO

"Nossa pneumonia", copyright Folha de S. Paulo, 4/5/03

"No dia 16 de abril, a Folha publicou uma reportagem sob o título ??Não quero asiáticos na feira?, diz organizador?.

Ela destacava declaração do presidente da Agrishow, feira internacional de tecnologia agrícola encerrada ontem em Ribeirão Preto (SP), cuja íntegra é a seguinte:

?Nós não queremos que asiáticos venham para cá. Não quero asiáticos na feira. Não quero nem sul-africano na feira. É melhor que não venham até tudo isso passar?.

?Isso?, no caso, é a Síndrome Respiratória Aguda Grave (Sars, na sigla em inglês), o novo assunto da mídia internacional desde a queda de Bagdá (Iraque), no último dia 9.

As embaixadas da China e da África do Sul mostraram perplexidade, a organização do evento disse depois que haveria uma retratação -e a coisa, pelo menos na mídia, ficou por isso mesmo.

O problema que esse tipo de declaração implica, porém, continuou a proliferar nos meios de comunicação, cuja maioria no Brasil, inclusive a Folha, chama a Sars de ?pneumonia asiática?.

Em crítica interna da última segunda-feira, inspirado por um e-mail mandado no sábado por um leitor do Ceará, propus o abandono dessa denominação, sob o argumento de que ela sugere preconceito, induz à discriminação étnica.

Naquele e-mail, depois de recordar que nos seus tempos iniciais (década de 80) a Aids chegou a ser chamada de ?câncer gay? (lembro-me também de ?peste gay?), o leitor, que é médico pediatra, relatava a observação feita em seu consultório por um casal (profissionais de nível superior) de que seria ?improvável que a doença (a Sars) pudesse ocorrer em nosso Estado (CE) porque não há colônia oriental em Fortaleza e, apesar de destino turístico, não são os chineses os principais clientes de nossos aeroportos (sic)?.

O exemplo é cristalino, como o fornecido no caso do presidente da Agrishow.

Apesar de relacionada aos casos ocorridos na Ásia, em especial na China, onde se registrou até agora a maioria absoluta de suas vítimas, a Sars não é uma ?patologia continental?, como lembra a mensagem do leitor.

E ela acrescenta: ?Não há nenhuma possibilidade deste vírus se confinar a orientais -qualquer um, branco, negro, amarelo ou pardo, pode contaminar-se?.

Jornais de poucos países escrevem ?pneumonia asiática?. A maioria adota ?pneumonia atípica?, conforme a Organização Mundial da Saúde (OMS), ou simplesmente Sars. Por que o Brasil não faz o mesmo, a começar pela Folha?"

***

"Ética e polêmica", copyright Folha de S. Paulo, 4/5/03

"Uma rara coincidência fez surgirem em poucos dias no jornal três episódios relacionados a questões de ética jornalística sobre os quais vale a pena refletir.

Ao lado da reportagem sobre o concurso de Miss Brasil ocorrido sábado, a Folha publicou segunda-feira uma crônica da colunista Danuza Leão sobre o evento.

Em crítica interna, questionei o procedimento: ?Não encaro o assunto do ponto de vista pessoal, mas me parece inadequado que uma colunista que foi jurada do concurso (…) escreva no jornal a crônica sobre o mesmo evento?. Como atenuante, observava que, no texto, a autora informava, com transparência, ter feito parte do júri.

Consultada pelo ombudsman, Danuza esclarece que não foi remunerada para participar, que informou o leitor sobre sua presença no júri e que ?votar nas dez mais bonitas não me impediu de ver o que eu teria visto se estivesse na platéia ou pela televisão: que o universo das misses é um mundo à parte, que os conceitos de beleza -medidas etc.- são diferentes dos que a mídia nos impinge há anos (magreza, perna fina etc.), que os cabelos têm de ser iguais etc.?.

A Secretaria de Redação avalia que 1) não se tratava de um texto noticioso; 2) não estava em jogo uma questão pública relevante; 3) o fato de a autora ser jurada (o que foi exposto) e personalidade conhecida oferecia um ponto de vista interessante para o leitor; e 5) o jornal ofereceu informação adicional e agregou charme a uma cobertura apenas de entretenimento.

O assunto é controverso e complexo. De minha parte, penso que, independentemente das reais atenuantes, da boa-fé da colunista e das possíveis vantagens editoriais, tal combinação sempre pode levar o leitor a ficar com uma pulga atrás da orelha. E essa mera possibilidade de dúvida não é algo positivo, seja para o jornal seja para o jornalista.

Prefiro a rigidez objetiva do ?Manual da Redação?, cujo verbete ?Ética? (pág. 41) relaciona como ?um dos mais altos princípios éticos da profissão? o fato de ?não escrever sobre assuntos em que (o jornalista) tenha interesses pessoais diretos?.

Cabe registrar, por outro lado, que o tal concurso foi questionado quanto a sua lisura em reportagens de outros jornais ao longo da semana (o ?Diário de S.Paulo? chegou a publicar um dia antes dele anúncios classificados cifrados com o nome da vencedora, para poder depois demonstrar a suposta fraude), fato que a Folha preferiu ignorar. Mas isso já é outro assunto.

?Valor?

Na terça-feira, o jornal ?Valor Econômico? -diário especializado em economia dos grupos que publicam a Folha e ?O Globo?- noticiou a mudança de seu diretor-presidente.

O fato -que circulou em site especializado da internet no dia anterior- foi divulgado também pelo ?Estado de S.Paulo? e pela ?Gazeta Mercantil?.

A Folha e o ?Globo? nada publicaram -registrei o equívoco dessa omissão na crítica diária da própria terça-, acabando por fazê-lo apenas no dia seguinte (edição de quarta-feira).

?Num primeiro momento?, diz a Secretaria de Redação, ?o jornal avaliou como um assunto de menor importância para o conjunto dos leitores. Depois, consideramos que seria interessante fazer o registro no Painel S/A?.

Diariamente se publicam dezenas de informações em tese ?de menor importância para o conjunto dos leitores?, que é heterogêneo. Acho que, aqui, ao menos no primeiro momento, frustrou-se, na verdade, o princípio da transparência, ainda mais que o diretor demissionário -o executivo Flávio Pestana- faz parte do Conselho Editorial da Folha (dado ausente, aliás, da nota do Painel S/A).

Lula e Brizola

Uma ilustrativa reportagem publicada na quarta-feira mostrou que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, cuja proposta de reforma previdenciária prevê a cobrança de contribuição dos servidores inativos, endossou em 2001 um abaixo-assinado que condenava idêntica proposta, apresentada então pelo governo de Fernando Henrique Cardoso.

Ao fazer a mesma revelação, porém, o ?Globo? acrescentava que o abaixo-assinado tinha sido divulgado no dia anterior pelo presidente do PDT, Leonel Brizola, que faz campanha contra a aprovação do dispositivo.

Tal informação -relevante do ponto de vista da luta política dentro da base aliada do novo governo federal- não constava do texto da Folha.

Na quinta-feira, em análise sobre o caso, um editorial da Folha usou uma fórmula tradicionalmente adotada quando o jornal se refere a um furo dado por ele: ?Como revelou esta Folha, Lula assinou um manifesto…?. Sendo que, aqui, não era o caso.

Instada a comentar esses pontos, a Secretaria de Redação informa que a fonte do jornal não foi o líder do PDT e que ?não sabíamos que o Brizola passaria (o documento) para outros jornais no mesmo dia?.

Sobre o editorial, argumenta que ele ?diz que a Folha revelou, mas não que só a Folha revelou?.

Julgo importante observar, apenas, que já na terça à noite o ?Jornal Nacional? mostrou Brizola a exibir o tal abaixo-assinado. Não se justifica, portanto, o fato de a Folha não ter incluído nem mesmo esse elemento na reportagem de quarta.

À frente deve estar sempre a notícia. Paciência, no caso, se aquilo que horas antes se apresentava como um valioso furo deixava, então, de sê-lo."

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