Terça-feira, 22 de Maio de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº987
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Bernardo Kucinksi

Por lgarcia em 09/10/2002 na edição 193

ELEIÇÕES 2002

?Cartas Ácidas?, copyright Agência Carta Maior (www.agenciacartamaior.com.br), 30/09/02

“?Pela primeira vez na história do Brasil, uma pessoa oriunda das classes mais pobres pode se tornar Presidente da República. Se isso acontecer, terá sido não porque venceu uma doutrina ou uma proposta, mas porque terá sido derrotado um preconceito. Fátima Pacheco Jordão chama a atenção, no ?Estadão? deste domingo (29), para uma pesquisa Vox Populi que associou os candidatos a 14 atributos pessoais, entre os quais honestidade, preparo e capacidade para governar. Lula saiu-se melhor do que todos os outros candidatos, com 65% de aprovação, bem acima dos 49% de Serra, 45% de Ciro e 44% de Garotinho. Entre a primeira pesquisa desse tipo da Vox Populi, feita em julho, e a de agora, Lula ganhou em média 5 pontos. Sua campanha não se desenvolveu em torno do convencimento de que suas propostas são as melhores, mas de que um brasileiro como ele, sem diploma, estava sim preparado para governar.

O jornalismo e o preconceito

A tese de que Lula não estava preparado para governar foi disseminada pela mídia durante toda a campanha, ora ostensivamente, ora sub-repticiamente. Tornou-se a principal arma dos três maiores adversários de Lula: Serra, Ciro e Garotinho.

Os exemplos mais interessantes do preconceito na mídia são os sub-reptícios, porque agem subliminarmente. Ainda na edição deste domingo do ?Estadão?, há dois exemplos desse tipo: ao analisar propostas de candidatos para a cultura, o jornal critica lacunas em todos os programas, mas só quando se refere a Lula usa a expressão ?confusão?. ?Lula faz uma confusão entre o que seja uma política geral para o setor e o problema do financiamento.?

Só ignorantes fazem confusão. Na mesma página, analisando as propostas para ciência, de novo, sai da boca do físico da Unicamp Brito Cruz: ?E o Lula fez uma confusão, supondo que patente é atribuição das universidades?.

Intelectuais como fabricantes do preconceito

A mídia disseminou o discurso do preconceito, mas sua gênese se deu nas universidades e centros de produção intelectual. Brito Cruz, por exemplo, sentiu-se muito confortável em dizer que Lula fez confusão ao atribuir patentes exclusivamente à universidade, mas ele próprio não estudou com cuidado, como deveria, os programas de governo do PT. No programa econômico principal, a proposta de absorção e produção de nova tecnologias e estímulo à inovação é considerada crucial e está colocada claramente no capítulo de políticas industriais voltadas às empresas, e não às universidades. O mesmo se dá na proposta provisória específica para ciência e tecnologia, ainda não publicada, e que circula para consulta em alguns meios acadêmicos.

E como fabricantes da mentira

Outros exemplos são ainda mais chocantes porque se alimentaram da mentira factual: o jornalista e crítico da mídia Alberto Dines, a economista Eliana Cardoso e o sociólogo José de Sousa Martins acusaram Lula de defender a bomba atômica, sem se dar ao trabalho de verificar o que ele realmente disse aos militares. O sociólogo José de Souza Martins, em longo texto distribuído pela internet, diz: ?Lula aderiu também ao militarismo… e manifestou-se contrário ao Tratado de Não Proliferação Nuclear… preconiza que ao fim e ao cabo o Brasil não renuncie à possibilidade de produzir armas nucleares.?

Martins desenvolve a tese de que ao elogiar o crescimento econômico durante o regime militar, Lula justificou a repressão política. E comparou Lula, logo na abertura de seu artigo, a ?mulheres que eram presas políticas e foram toruradas no Dops ou no Doi-Codi e se apaixonaram por seus torturadores?. Vejam a coragem desse sociólogo que não se cansa de dizer que deve seu primeiro emprego a Fernando Henrique. Coincidentemente, Martins também nasceu em família muito pobre, como Lula.

Alberto Dines escreveu a mesma coisa, em linguagem ainda mais insultuosa, acusando Lula de trair seus princípios humanistas e se ajoelhar perante os militares, ao defender a bomba atômica, rejeitar o tratado de Não Proliferação Nuclear e a retomada do acordo nuclear com Alemanha e Irã.

Tudo mentira

Lula falou a duas audiências militares, na Escola Superior de Guerra e no Clube Militar, e em nenhuma delas defendeu nem de longe a bomba atômica. Ao contrário, criticou as potências nucleares por não cumprirem a sua promessa de se desamarrem, implícita do Tratado. Ao responder a uma pergunta de um militar contrário à assinatura do Tratado, Lula colocou-se no campo dos que aprovaram a adesão do Brasil como ?muitos outros congressistas?. Suas palavras foram deformadas primeiro pela mídia, depois por esses intelectuais. Dines, que deveria conhecer melhor como funciona a imprensa, alegou que leu aquilo nos jornais e que ?o PT não desmentiu?. Outra mentira, pois o desmentido formal foi publicado no dia seguinte.

Democracia e aristocracia

Eliana Cardoso também tentou provar ?cientificamente? que Lula não está preparado para governar. ?Falta-lhe instrução, falta credibilidade à sua recente reviravolta em assuntos financeiros e fiscais, falta-lhe experiência em questões internacionais?. Eliana misturou saber e democracia. Weber já havia advertido que ciência e democracia não se misturam. A ciência exige o que Weber chamou de uma aristocracia de espírito, um sistema em que as questões devem ser discutidas dentro de uma especialização rigorosa e, portanto, não extensiva a todos. A democracia exige um saber abrangente de tipo compartilhado. O saber científico procurar entender como a natureza funciona. O saber político é ético: procura saber como a sociedade deveria funcionar.

A vitória do orgulho

A vitória contra o preconceito não foi apenas de Lula, mas de grande parte do povo brasileiro. Esses milhões de eleitores, igualmente sem diploma e com pouca instrução, que antes não votavam em Lula porque ele era ?um trabalhador igual a você?, passaram a votar em Lula pelo mesmo motivo, porque era um trabalhador igual a eles, que lutou, perseverou e venceu. Deu-se a aceitação pelo eleitor de si mesmo como uma pessoa de valor, dona de auto-estima e portadora do direito de sonhar. O sonho de Lula virou o sonho de todos os brasileiros que nele votam.

A versão brasileira do american dream

O nosso jornalismo, incluindo a vertente alternativa, deixou escapar pelos dedos essa grande mudança de mentalidade – felizmente captada pelo repórter de campanha de Lula, Claudio Cerri. Uma rara exceção foi a reportagem da revista ?Época? intitulada ?Quem está com Lula na cabeça?, que descobriu que o mesmo Lula, antes visto com as lentes do preconceito e por isso rejeitado, agora emerge como símbolo da mobilidade social por ?superar barreiras com seu próprio talento?. Quem matou a charada, antes ainda de Claudio Cerri e de ?Época?, vejam só, foi a embaixadora americana no Brasil, quando disse logo ao chegar que Lula corporificava no Brasil o american dream, o direito que todo americano tem de sonhar, de ter um projeto de vida ambicioso, de querer ser alguém, seja qual for a sua origem, a sua etnia, o berço que o embalou.

Nos Estados Unidos da América do Norte, onde nasceu a democracia moderna, o direito de todo cidadão de sonhar tem o mesmo estatuto do direito de todo cidadão portar uma arma ou de dizer o que pensa. ?I have a dream? foi o refrão do famoso discurso de Luther King, ao final da marcha dos negros americanos pelos direitos civis. Esse refrão, de natureza espiritual, mais do que política ou econômica, foi o mais forte argumento dos negros pela igualdade de direitos.?

 

O professor-doutor que assina a diatribe, entre outros merecidos títulos, ostenta com toda a justiça o de observador da mídia. E, também, o de alto dirigente partidário. A combinação físico-jornalista-dirigente é esplêndida, a de fisico-jornalista-crítico, igualmente.

O que discrepa é juntar a crítica da mídia com a atuação política. A questão não é moral porque o signatário tem todos os atributos nesta matéria para saber separar uma coisa da outra. A questão é técnica: o olho do dirigente partidário é obrigatoriamente parcial enquanto que o olho do crítico da mídia – se politicamente engajado – estará subordinado à ótica decorrente deste engajamento.

O ataque que o responsável pelas ?Cartas Ácidas? desfechou contra este Observador é prova disto. Depois de uma troca de e-mails privados em que foram contestadas todas as reclamações (a propósito de um artigo opinativo no Jornal do Brasil), o signatário simplesmente ignora-os publica o ataque original sem dar-se ao trabalho de, ao menos, reproduzir os contra-argumentos e rebatê-los.

Mandou brasa: não com ácido, mas com bile.

Como estamos ainda em campanha eleitoral, não se entrará aqui na questão que gerou a pendência: as declarações de um candidato num fórum de militares. E numa destas declarações foi claro – era contra a assinatura do Brasil no Tratado de Não-Proliferação Nuclear. A afirmação publicada por todos os jornais levou um dos deputados do mesmo partido (com notórios compromissos em favor do pacifismo e do ambientalismo) a protestar. Embora o noticiário sobre as declarações do candidato tenha sido desmentido dias depois, o deputado não foi contestado. Com base nas declarações perante os militares e no tíbio (ou ambíguo) desmentido do partido, o opinionista expressou sua opinião.

A mídia não estava em questão, aquele não é um espaço dedicado à discussão sobre a mídia e este Observador-Articulista tem procurado ostensivamente não confundir as duas condições. Coisa que o responsável pela acidez daquelas ?Cartas? não procura imitar.

Devia. Também ele está desafiado a encontrar nos textos deste Observador publicados no Observatório da Imprensa qualquer viés ou jogada partidária. Com a mesma convicção é desafiado a provar que os seus textos naquelas epístolas estão isentos de qualquer comprometimento partidário. (A.D.)”

Leia também

 

“Institutos de pesquisa erram de novo”, copyright O Globo, 8/10/02

“No dia seguinte às eleições, alguns estados apresentaram mais um derrotado: os institutos de pesquisa. Em estados como São Paulo, Paraíba, Pará, Mato Grosso do Sul e Minas Gerais, a apuração mostrou erros das empresas.

Na eleição presidencial, Luiz Inácio Lula da Silva, do PT, tinha entre 48% e 49% dos votos válidos de acordo o Ibope e o Datafolha, mas ficou com 46,4%. José Serra, do PSDB, teve 23,2%, pouco mais do que os institutos apontavam às vésperas da eleição (20% no Ibope e 21% no Datafolha). O Vox Populi apontou o petista com 43% e Serra com 19% na pesquisa estimulada, não fornecendo a sondagem com os votos válidos.

O Ibope reconheceu ontem os erros em três estados: Paraíba, Pará e Mato Grosso do Sul, mas em outros seis estados alguns números causaram polêmica, em maior ou menor grau. O Datafolha, que fez pesquisas estaduais apenas nos três maiores colégios eleitorais do país na reta final da eleição, errou em São Paulo, Minas Gerais e subestimou a governadora Benedita da Silva no Rio. O Vox Populi afirmou sexta-feira que Paulo Maluf, do PPB, estava oito pontos à frente de José Genoino, do PT, e deveria disputar o segundo turno com o governo Geraldo Alckmin, do PSDB. Com as urnas abertas, o petista teve mais de 11 pontos de vantagem em relação a Maluf.

– Houve problemas na Paraíba, onde não apontamos a realização de um segundo turno, no Pará, em que a chegada de Maria do Carmo no segundo turno não foi mostrada pelos pesquisa, e no Mato Grosso do Sul, onde o segundo turno não foi indicado – afirmou Márcia Cavallari, diretora do Ibope.

De acordo com os institutos de pesquisa, o governador Zeca do PT deveria agora estar comemorando sua reeleição no Mato Grosso do Sul. Porém, apesar de o Ibope ter afirmado na sexta-feira que o petista estaria reeleito com 53% dos votos, o governador agora se prepara para um segundo turno contra Marisa Serrano, do PSDB.

Outra petista teve emoções diferentes. No Pará, de acordo com o Ibope, Maria do Carmo estaria seis pontos percentuais atrás de Ademir Andrade, do PSB. Porém, a petista chegou à segunda rodada de eleições quatro pontos à frente do adversário e está no segundo turno.

Na Paraíba, Cássio Cunha Lima, do PSDB, estaria eleito com a confortável margem de 57% das intenções de voto, segundo o Ibope. Porém, teve apenas 47,2% dos votos e terá que disputar o segundo turno com Roberto Paulino, do PMDB, que teve 40% dos votos do estado (o Ibope divulgado sexta-feira o colocava com 32% das intenções).

Onda Lula teria ajudado PT, afirma Ibope

Segundo Márcia, do Ibope, três fatores devem ser levados em consideração, e explicariam diferenças não tão grandes como em Pará e Paraíba.

– Apuramos intenções de voto. Não temos controle sobre o fato de o eleitor acertar ou não o número de seu candidato na urna eletrônica. Os militantes do PT também foram decisivos nos momentos finais da disputa em vários estados. Houve uma onda PT nos últimos dias – disse a diretora do Ibope.

De acordo com Márcia, o mesmo efeito não afetaria Lula:

– Um grande número de eleitores já tinham se decidido a votar para presidente, e deixaram para decidir os outros cargos em cima da hora. Lula puxou votos para os outros candidatos, mas seus votos já estavam certos.

Em Brasília, mais polêmica. Após errarem nos resultados da eleição de quatro anos atrás, os institutos novamente tiveram problemas. Joaquim Roriz, do PMDB, teria 50% dos votos segundo o Ibope e 46%, no Vox Populi. Teve apenas 43%.

Em São Paulo, os institutos não foram bem. O Datafolha não apenas colocou Maluf à frente de Genoino como também inverteu a tendência de queda do ex-governador em relação a pesquisas anteriores.”

 

“O mundo não se curva, entende”, copyright Folha de S. Paulo, 4/10/02

“Fora do Brasil, o presidente eleito do Brasil já se chama Luiz Inácio Lula da Silva.

É impressionante como a grande mídia européia e (um pouco menos) a norte-americana trabalham com a certeza de que o candidato do PT será eleito -e já no primeiro turno.

Até a revista britânica ?The Economist?, que costumava ser mais cautelosa, tasca uma foto de Lula na capa do número que começou a circular na noite de quinta-feira com o título ?O significado de Lula? (no geral, não é bom, acha a revista, como era previsível).

Também como se poderia prever, a mídia francesa foi aos comícios de Lula em cidades operárias (Guarulhos, Osasco) para resgatar um certo ar de romantismo na vitória do ?operário transformado em presidente? (pelo menos no jornalismo europeu).

Ao contrário de ?The Economist?, preocupada com o PT populista e gastador, os franceses vêem em Lula ?um esquerdista arrependido? (?Le Point?) ou alguém que se aproximou do ?social-liberalismo? de Tony Blair e de Lionel Jospin.

Fazia muitíssimos anos que não via tal movimentação da mídia internacional em relação ao Brasil. Creio que nem mesmo quando o real derreteu, no início de 1999, houve tanta exposição do país.

É claro que, em grande parte, a atração é pelo lado exótico: não é todo dia que um operário vira presidente da República (se é que vai virar) em qualquer lugar do mundo.

E, nos muitos anos recentes, também não é todo dia que a esquerda tem algo a festejar.

Inusitados à parte, é forçoso reconhecer que o Brasil tornou-se algo menos esotérico para o mundo desenvolvido depois de ter dominado a superinflação.

Um candidato com o perfil de Lula continuaria a ser uma atração, mas, agora, a agenda do país é menos incompreensível.”

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