Segunda-feira, 22 de Abril de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1033
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Bernardo Kucinski

Por lgarcia em 30/01/2002 na edição 157

CRÍTICA DIÁRIA

"Os domínios do crime organizado", copyright Agência Carta Maior (www.agenciacartamaior.com.br)

"DIA 24/01/02

Com os primeiros indícios de autoria do seqüestro de Celso Daniel, a polícia paulista parou de desviar a mídia para o desgaste do PT. Os dois novos atentados do final de semana, um matando o promotor Francisco José Lins do Rego -que investigava a máfia dos combustíveis fraudados em Belo Horizonte- e o outro contra uma equipe de policiais de Goiânia, reforçam a tese de que o crime organizado está tomando conta do país. As revistas semanais estão repletas de reportagens especiais, mostrando os domínios do crime organizado. O JB do domingo publica um mapa do crime organizado nas favelas cariocas, com o título: ?Tráfico adota estratégia empresarial?. Por não ter percebido a gravidade dessa nova situação, FHC sofreu forte cobrança nas entrelinhas dos jornais.

Uma nova Escola Base?

Houve um recuo na campanha difamatória dos jornais contra Sérgio Gomes e, por tabela, contra Celso Daniel e sua administração. Foi fundamental o depoimento de um especialista, no programa Cidade Alerta (da TV Record), mostrando que a Pajero podia mesmo ter parado porque a alavanca da reduzida fica muito perto da alavanca de câmbio e, no pânico de um assalto com tiroteio, basta um esbarrão para ela desligar o sistema. A falha portanto é no design do Pajero.

Toda a campanha de ?destruição do caráter? de Sérgio Gomes foi baseada na insinuação de que ele mentiu sobre a falha do câmbio. A partir disso criaram a figura do ?sombra?, do homem misterioso. Hoje, o JB admite que a falha podia ter acontecido exatamente como ele falou e que peritos da polícia já sabiam disso. No Estadão de domingo, um leitor confirma a hipótese. A Folha foi a primeira a abrir espaço para essa importante correção, ainda no sábado, com depoimento do mecânico Ângelo Coelho. Sua matéria é reproduzida no JB. Hoje, a mesma Folha dá uma página inteira à namorada de Daniel, Ivone de Santana, que acusa a polícia (e por tabela a mídia) de oportunismo e desvio de rota. É um mea culpa disfarçado do jornal.

Jogo pesado contra o PT

Mesmo jornalistas ilustres e que deveriam ser mais espertos, como Marcos de Sá Correa, se deixaram envolver por essa jogada da polícia de Alckmin. Em seu comentário do domingo no JB, ?Segurança à moda petista?, Marcos de Sá endossa afirmações falsas da polícia e de outros jornalistas que ele não se deu ao trabalho de conferir, entre elas, a de que Sérgio Gomes foi segurança de Lula. Todos esses jornalistas culpam o mesmo Gomes de ter virado um empresário bem sucedido. Não cobraram isso de nenhum outro seqüestrado, nem de Abílio Diniz, e nem de Washington Olivetto, do qual nada falam num estranho pacto do silêncio, e que pode até já estar morto.

Tiro do Ibope saiu pela culatra

A última pesquisa Ibope/Veja foi obviamente programada para impulsionar a candidatura Serra logo depois de seu lançamento. Deu Serra ainda atolado nos 7% e alta significativa de Garotinho. Os votos definidos chegam a 73% do total, contra 66% na pesquisa anterior. David Fleischer, na Gazeta Mercantil de hoje, prevê que Serra vai ficar ainda pior porque a pesquisa não pegou os efeitos do surto da dengue. O Estadão de hoje dá uma página a esse surto. E anuncia que também a febre amarela pode atacar nas cidades, trazida pelo mesmo mosquito. E o ministério da saúde de Serra gastou apenas um terço do que deveria ter gasto na prevenção da dengue.

Lula perdeu pouco com a subida de Garotinho, menos do que a margem de erro da pesquisa. E Roseana não perdeu nada. Até subiu um ponto. Assim fica cada vez mais apertado o espaço do governista Serra. A melhor interpretação dessa pesquisa é de Teodomiro Braga, no JB de hoje. Ele aponta que o mesmo fenômeno -o uso da TV- impulsionou Roseana e agora Garotinho. E que Garotinho foi muito eficaz ao discutir temas de grande interesse do cotidiano do eleitor, como custo de vida e juros do crediário. Lula está pagando o preço por ter que esperar para soltar o verbo até a prévia eleitoral com Suplicy e Edmilson Rodrigues, marcada para março.

Roseana e Serra são as alternativas do mesmo sistema

Os empresários ainda preferem a continuidade da atual aliança PSDB-PFL, como admite o peefelista Roberto Brandt, que diz no Estadão do domingo: ? A aliança construída por Fernando Henrique é uma riqueza do sistema político brasileiro, uma construção genial que deu equilíbrio ao Brasil. Isso não deve ser perdido?. Se não der para garantir a continuidade com Serra, apostarão em Roseana. O mesmo Estadão dá duas páginas a uma grande movimentação de empresários a favor de Roseana. Eles estão fascinados pela possibilidade de Roseana derrotar Lula no segundo turno. A pesquisa Ibope sugere que só ela tem esse potencial.

O fim do racionamento

O anúncio do fim do racionamento é medida claramente eleitoreira que pode custar muito caro ao país. José Goldemberg está advertindo mais uma vez contra os riscos dessa medida, na coluna de Sonia Racy, no Estadão do sábado. Também o novo presidente da Petrobrás, Francisco Gros, homem de confiança do governo, está na mesma edição do Estadão, pedindo melhores definições do modelo energético. E o JB deste domingo mostra em reportagem de página inteira (pág. 18) como amargou a conta dos consumidores domésticos. Segundo pesquisa do IBGE, em quatro anos, a conta de luz pulou de 1,65% do custo de vida das famílias, para 5,43%. Sem contar as sobre-taxas.

Campanhas contra as esquerdas

Cartas Ácidas inaugura com esta edição uma nova retranca, dedicada ao registro de matérias escritas não para informar e sim para desgastar o campo popular. Não todas, porque são muitas e na maioria está evidente o objetivo de manipular a informação. Selecionaremos algumas, de caráter emblemático, ou cujo objetivo difamatório passe desapercebido ao leitor. É o caso da manchete de página inteira do JB deste domingo: ?O partido dos profissionais da política?. A partir do título preconceituoso, a matéria de Cid Benjamim tenta desqualificar a democracia interna do PT sob o pretexto de que 74% dos delegados à convenção do partido são ?assalariados da política.? Ora, um terço desses ?assalariados? são deputados, vereadores, senadores, prefeitos e governadores eleitos pelo PT. Esse contingente pulou de 20% do total dos convencionais para 22%. E se esse número aumentou, o número de assessores e auxiliares de confiança também tinha de aumentar, de 25% do total para 30%. Antes fossem mais ainda. A narrativa tem o objetivo claro de danificar a imagem do PT.

Não deixe de ler:

Leia na página 23 da IstoÉ desta semana o relato da fotógrafa Branca Nitzsche que registrou em sua câmara o atentado a José Rainha no Pontal do Paranapanema e ouviu , nas quatro horas em que ficou nas mãos dos atiradores, o lamento por não terem liquidado Rainha. Por que os grandes jornais não deram destaque a esse testemunho? Toda a edição de IstoÉ desta semana está boa, em especial as reportagens sobre a epidemia anunciada da dengue e a incrível história do blecaute causado por um parafuso. Também o relato da assassinato de Celso Daniel está menos marcado pelo cretinismo e pela malícia do que os de outros veículos, que tentaram livrar a cara de Alckmin e FHC, criando um foco artificial de discussão em torno do amigo de Celso Daniel, que escapou do seqüestro."

DIA 25/01/02

A construção de José Serra Continua o enorme esforço dos barões da mídia para dar o máximo de visibilidade à candidatura Serra, operação obviamente programada pelo Palácio do Planalto. Na campanha presidencial de 1998 o caderno eleição da Folha tornou-se boletim eleitoral do comitê FHC. Desta vez, a Folha nem esperou o começo da campanha e vem gastando páginas e páginas de seu caderno principal na promoção de Serra. Ontem foram duas páginas, hoje são mais duas. O Estadão segue a mesma linha dedicando quase todo o seu caderno principal ao tucano, dia após dia.

Fofocas e intenções no lugar de fatos

Na falta de fatos, matérias de página inteira são montadas em cima de fofocas ou episódios menores como o de que Serra telefonou para Roseana, ou o de que Roseana telefonou para Serra, ou vai telefonar, ou deixou de telefonar. A torcida por Serra é tão descarada que a Folha já proclamou o fim da candidatura própria do PMDB e noticiou que Roseana propôs candidatura única a Serra: ?Roseana procurou Serra para discutir candidatura única?. No dia anterior, com base numa resposta vaga e não comprometida de Itamar Franco a uma pergunta de jornalistas, todos os jornais anunciaram que Itamar poderia apoiar Serra.

Mentiras, mentiras, mentiras

Nenhuma dessas noticias era verdadeira. O JB mais sensato, noticiou que Roseana quer um pacto de não agressão com Serra. E qualquer analista político com QI acima de 50 sabe que uma subida acelerada dos índices de Serra é o pré- requisito para a viabilidade da proposta de fim da candidatura própria do PMDB e que mesmo assim é alta probabilidade do PMDB rachar caso a cúpula insista em propor o fim da candidatura própria. Itamar teve que avisar os jornais que negará apoio ao Palácio.

Por tudo isso, o noticiário da Folha de hoje, é um desmentido do de ontem. O Estadão sempre um pouco menos insensato, coloca algumas coisas no devido lugar, mostrando que Roseana e Serra são duas faces de uma mesma opera&cccedil;ão, cujo objetivo estratégico é barrar Lula: ?Nosso adversário é Lula?, diz um subtítulo do relato do encontro de duas horas de Roseana com FHC no início da semana.

Exceto a realidade

Uma das conseqüências da mobilização dos jornais pelo Palácio na promoção forçada da candidatura Serra, foi o absurdo confinamento do noticiário sobre a crise nacional na segurança pública aos cadernos de ?cidades?, ou de ?quotidiano?.

Ironias da história

Para desgosto do governo, os fatos duros da realidade brasileira são todos adversos à candidatura Serra. A começar pela epidemia de dengue, que já atinge 70% dos municípios brasileiros e que depois do carnaval deve atingir em cheio a Grande São Paulo. Os efeitos da epidemia no imaginário popular são devastadores. Serra deveria responder pela negligência do governo. Mas só Datena, entre os âncoras de TV está cobrando o governo, e ninguém está cobrando, entre os colunistas de plantão. O último apagão é outro fato duro da realidade. Foi atribuído pelo governo a um ?parafuso frouxo.? Mas os especialistas foram dessa vez ouvidos pelos jornais e mostraram a relação direta entre o incidente e a vulnerabilidade do sistema elétrico. O governo espertamente joga de novo a carta de prometer acabar com racionamento e comisso reocupou o espaço mediático, deslocando o debate do apagão para segundo plano.

Bancos na mira do povo argentino

Manifestantes continuam a depredar bancos na Argentina. Uma agência do Banco Nación foi ocupado por depositantes que queriam de volta seu dinheiro. O jornal dos banqueiros Wall Street Journal, soltou um virulento editorial ontem chamando a Argentina de República de bananas, e ridicularizando o governo argentino por ?incentivar durante anos os argentinos a manterem depósitos em dólares, com a garantia da paridade um a um para depois congelar essas contas e desvalorizar o peso.? Todos os jornais deram, mas só o JB noticiou, também, ontem, que a polícia Argentina prendeu no Aeroporto de Ezeiza o banqueiro Carlos Rohm, do Banco General de Negócios, um dos acusados num esquema de lavagem de dinheiro.

Não deixe de ler

Bancos roubaram dinheiro dos argentinos, no sentido literal da palavra. Rolf Kuntz defende essa tese no seu artigo da página dois do Estadão de ontem: ?Aonde foram parar aqueles dólares?? . Na teoria, o sistema de Currency Board é inquebrável, porque essa é a sua finalidade, tanto assim que para cada peso em circulação ou depósito há um dólar de lastro em reserva. Tanto é rígido que a impossibilidade de exportar, devido à taxa rígida de câmbio, levava ao enxugamento de pesos ao desemprego e falta de liquidez. O que Rolf Kuntz mostra é que a partir de um certo momento, tudo não passava de uma grande mentira, os dólares de lastro já não existiam, haviam sido desviados para o exterior pelos próprios bancos."

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