Sábado, 20 de Julho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1046
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Bernardo Kucinski

Por lgarcia em 06/02/2002 na edição 158

CRÍTICA DIÁRIA

"Cartas Ácidas", copyright Agência Carta Maior (www.agenciacartamaior.com.br)

"DIA 4 – Cobertura cretina do II Fórum Social Mundial

A mídia nacional ignorou importantes debates de problemas brasileiros e mundiais que aconteceram no II Fórum Social Mundial de Porto Alegre. Estadão, Folha e Veja optaram por uma política editorial obscurantista de desqualificação dos debates. A mentalidade por trás dessa opção editorial é a mesma da guerra-fria: se dermos muito destaque ao Fórum, estaremos dando força às esquerdas. Não importa o mérito do debate em si. Por isso, quase todos os veículos subordinaram a cobertura do Fórum Social à do Fórum de Nova York, retratando o encontro norte-americano como algo sério e relevante e o de Porto Alegre como uma algaravia sem sentido.

A exceção e a regra

Houve exceções: O Globo publicou um caderno especial com a síntese de alguns debates importantes. Também a GloboNews fez uma cobertura um pouco mais informativa. Igor Fuser, na Época, mostrou como o Fórum Social Mundial de Porto Alegre já afeta as deliberações dos donos do mundo reunidos em Nova York, se firmando como expressão do descontentamento com os caminhos da globalização. Ficou claro em Porto Alegre que há uma nova geração de jovens descontentes no Ocidente, e que eles querem ser protagonistas ativos de sua história. A mídia brasileira não percebeu essa dimensão do Fórum e, com isso, deu mais um passo no seu processo de alienação e crise.

Oportunidades perdidas

Houve poucas entrevistas especiais com importantes pensadores que estiveram em Porto Alegre, entre os quais Boaventura de Sousa Santos, Immanuel Wallerstein, Baltazar Garzón, Rigoberta Manchu e Susan George. Deram destaque quase que só a Chomsky. Como Chomsky, também Wallerstein é o fundador de toda uma nova forma de pensar, um ?paradigma?, como se diz na sociologia da ciência. E seu paradigma diz respeito justamente à globalização. Quase tudo de importante que se estudou sobre o capitalismo global nos últimos 40 anos é inspirado na obra de Wallerstein. Ele formulou a idéia de que as desigualdades no capitalismo não são disfunções, e sim componentes de uma sistema global, definido ainda no período do capitalismo mercantil, e que funciona sistemicamente até hoje, atribuindo papéis específicos às suas diferentes regiões.Também as idéias de Baltazar Garzón são de grande atualidade, como as de Susan George e tantos outros. E todos esses pensadores poderiam ter sido entrevistados a custo quase zero, em Porto Alegre.

Os domínios globais do crime organizado

Um dos mais interessantes debates do II Fórum Social Mundial, neste fim de semana, foi sobre o tráfico de pessoas. É a terceira mais importante modalidade de crime organizado, pelo dinheiro que movimenta, perdendo apenas para os tráficos de drogas e de armas. Mas é a primeira em perversidade, porque a ?mercadoria? são pessoas, em especial mulheres e adolescentes. O Brasil é um dos grandes fornecedores dessa ?mercadoria?.

As muitas faces do crime organizado

Os jornais do domingo dedicam cadernos inteiros ao crime organizado no Brasil. A Folha descreve o poder da facções criminosas brasileiras e as fraquezas de nossos sistemas de repressão, inclusive a desinformação das polícias. O Globo faz um levantamento dos atentados contra Promotores Públicos, a partir do assassinato do promotor José Ferreira, que investigava o ?escândalo da mandioca?, ainda em 1982. Há dezenas de promotores hoje ameaçados de morte pelo crime organizado, em todos os Estados da Federação. Só no Rio, 11 promotores estão sob proteção policial.

Forças armadas e crime organizado

A Folha revela que há um fluxo de armas pesadas oriundas da aeronáutica argentina. Isso lembra a venda clandestina de armas por militares russos, quando a URSS colapsou. O Globo revela que ex-militares brasileiros dão cursos regulares de treinamento a quadrilhas do crime organizado no Rio. Há pelo menos 15 ex-militares dando esses cursos no Estado.

Crime organizado com fenômeno universal

Aos poucos vão se estabelecendo os nexos entre as várias modalidades de crime organizado e a crise geral do capitalismo, em especial suas manifestações nos países periféricos. O crime organizado vem crescendo desde a eclosão da crise da dívida externa em 1982, alimentando-se da miséria, do desemprego, da falta de políticas públicas para educação, moradia e lazer. O plantio da coca cresce com a crise da dívida. O uso do dinheiro do narcotráfico na luta política, inaugurado pela CIA na Nicarágua, foi adotado pelas FARCS. Os seqüestros políticos, inventados pelas FARCS, foram depois adotados pelo crime organizado no Brasil quando Collor congelou os depósitos em conta corrente. O assassinato de Celso Daniel e o seqüestro de Olivetto mostram que o método se universalizou como recurso de todos os tipos de alienados.

Não deixe de ler

A reportagem de Howard Kurz, do The Washington Post, reproduzida no Estadão de domingo (página B8), sobre a corrupção de jornalistas americanos pela Enron. A imprensa e a Enron: ?Ligações perigosas?. A reportagem explica o tratamento superficial e tardio dado escândalo pela mídia americana.

Dia 1o – ?O futuro do mundo em duas visões?

Essa foi a feliz chamada de O Globo de hoje para os dois grandes eventos sobre a globalização: o encontro dos que dominam esse processo e dele se beneficiam, ou seja, o grande capital, reunido em Nova York, e o Fórum Social Mundial, que agrupa em Porto Alegre entidades e ativistas do campo popular que rejeitam esse modo de globalização e protestam contra o agravamento da desigualdade mundial e a multiplicação das situações de violência.

O contraste entre os dois encontros começa pelos números. Em Nova York, reúnem-se algumas centenas de banqueiros e executivos de multinacionais. Em Porto Alegre, são quase 5 mil organizações e cerca de 60 mil participantes, dos quais 15 mil estão inscritos nos diversos eventos e oficinas. Só de jornalistas são 2800, dos quais a metade é estrangeira. O JB de hoje traz esses números impressionantes numa tabela à parte.

Os jornalistas importantes foram para Nova York

O nossos dois principais jornais mandaram para Nova York seus jornalistas ?sênior?: Rolf Kutz e Fernando Dantas, pelo Estadão, e Clovis Rossi, da Folha. Para Porto Alegre enviaram os bagrinhos. O Globo, em editorial, admite que ?os movimentos antiglobalização começam a influenciar o pensamento das elites econômicas mundiais?. O Estadão deu uma página para cada evento, como se tivessem o mesmo peso. O referencial dos jornais ainda é o que elites pensam, e apenas nessa medida se interessam pelo Fórum Social Mundial. Por isso a cobertura sobre os temas de Nova York nos jornais de hoje é substantiva, enquanto a cobertura do Fórum Social Mundial se limitou aos aspectos cênicos do encontro e ao episódico. No Estadão há algumas idéias, na medida em que foram reproduzidas as falas de Lula e de Chomsky. Mas as manchetes tentam transmitir o sentimento de desordem. ?Protestos marcam abertura do Fórum Social Mundial?.

E os pensadores importantes vieram a Porto Alegre

Quem foi para Nova York perdeu a viagem, porque os grandes pensadores do mundo atual estão hoje em Porto Alegre: Boaventura de Sousa Santos falou ontem à noite a uma platéia sobre os novos paradoxos da justiça, entre os quais a supressão dos próprios conflitos gerados pela globalização, como os conflitos trabalhistas que desaparecem junto com o desaparecimento do emprego formal. Também estão em Porto Alegre Noham Chomsky e Naomi Klein. Interessante também como matéria prima jornalística é o número imenso de projetos e propostas sendo encaminhadas por entidades independentes nos mais diversos campos de enfretamento com o grande capital. No primeiro Fórum Social Mundial, em 2001, tudo isso aparecia na forma de protestos. No segundo Fórum, aparecem mais como propostas de políticas públicas alternativas. Muitas deverão ser amadurecidas nas mais de 600 oficinas e seminários deste encontro de Porto Alegre, e depois apresentadas para governos e conferências, como no Encontro do Desenvolvimento Sustentado ( Rio + 10), de setembro, em Johannesburg.

Guerra e paz

Um outro contraste importante é entre os dois locais: o encontro de Nova York mostra-se cada vez mais vulnerável, transferido da isolada cidade suíça de Davos para uma Nova York ferida pelos atentados do 11 de setembro e, mesmo assim, sitiada por manifestantes antiglobalização. No pano do fundo do encontro do grande capital, a profunda recessão das economias capitalistas, em especial Japão e EUA, e o discurso belicoso do dia anterior de Bush. O de Porto Alegre, marcado pela idéia central da paz entre os povos, está cada vez mais forte e representativo.

O II Fórum Social Mundial está claramente respondendo a uma demanda há muito reprimida por justiça social e pela paz. Tem potencial para se transformar no curto prazo em uma frente orgânica de entidades populares contra o grande capital. Se vier a existir um uma quinta Internacional, ela terá nascido do Fórum Social Mundial de Porto Alegre. Nada disso foi percebido pelos nossos jornais e nossos jornalistas sênior. O próprio Chomsky, num de seus ensaios sobre os filtros que distorcem o noticiário da mídia norte-americana, diz que um deles é a origem elitista dos jornalistas. Vale em parte para nossos jornalistas também. Não porque nasceram em berço de ouro, mas porque é assim que gostariam de ter nascido. Por isso, perderam o bonde de Porto Alegre.

DIA 30 – Quando a mídia se torna cúmplice da polícia

A grande imprensa continua a disseminar mentiras sobre as investigações da morte de Celso Daniel. Até agora podemos computar pelo menos as seguintes mentiras importantes:

– Celso Daniel foi torturado. Manchete de jornais importantes, como de O Estado de S. Paulo. Mentira. O laudo pericial apontou execução cruel, mas não torturas.

– A Polícia Federal quebrou do sigilo bancário e telefônico de Celso Daniel e do empresário Sérgio Gomes. Manchetes nos jornais do dia 26, com detalhes do juiz que decretou a quebra de sigilo e tudo o mais. Mentira. Tudo desmentido pela mesma Polícia Federal dois dias depois.

– O irmão de Celso Daniel fez remessa ilegal de dólares para o exterior. Não fez. A remessa foi legal, consta da sua declaração de Imposto de Renda e já havia sido verificada pelo Polícia Federal em 2001.

– Celso Daniel não trajava, ao ser seqüestrado, a calça jeans com a qual foi encontrado morto. Trajava calça esporte bege. Notícia de destaque em todos os jornais dias seguidos. A Folha de hoje desmente e tenta atribuir o engano a ?amigos do político e seus partidários?. Dupla mentira. A menção à calça bege teria sido comprovada pela fita gravada no restaurante. Mas a fita é em branco e preto e não permite fazer a distinção.

– Sérgio Gomes foi indiciado em inquérito por negócios triangulares com a prefeitura de Santo André. Manchetes repetidas especialmente no Jornal da Tarde e no Estadão. Mentira. Não há inquérito. Há o que o Ministério Público chama de ?procedimento preparatório?, que pode resultar em inquérito se houver elementos para isso. Pelo jeito, até hoje não encontraram esses elementos. Portanto, ele não foi indiciado, muito menos processado, julgado ou condenado. Foi condenado pela imprensa, isso sim.

Cretinismo jornalístico…

Na melhor das hipóteses, temos jornalistas despreparados e que acreditam em tudo o que diz a polícia. Essa incapacidade de fazer ilações, relacionar informações, perceber inconsistências e tirar conclusões lógicas de suas assertivas denota o que chamamos de ?cretinismo jornalístico?. É como se os jornalistas fossem débeis mentais. Se uma autoridade lhes disse ontem que quebrou o sigilo bancário de Celso Daniel e outra autoridade disse hoje que isso não aconteceu, o jornalista deveria questionar o motivo de lhe terem dado uma informação errada. O povo é mais esperto. Pesquisa feita entre internautas pelo portal do Estadão, e publicada na edição do jornal do último domingo, mostra que 84% deles não confia na polícia.

Na pior das hipóteses, temos uma cumplicidade entre jornalistas e polícia, como já aconteceu no tempo da ditadura militar, quando os jornais noticiavam ?atropelamentos? de presos políticos. Mas provavelmente temos uma combinação dos dois mecanismos, o do cretinismo jornalístico e o da cumplicidade com a polícia. Ou seja, o cretinismo não é visto pelas chefias como uma deficiência, e sim como um atributo que facilita a politização do noticiário.

Pergunta sem respostas

Há uma pergunta mais grave que a mídia não responde: Frederico Vasconcelos informou na Folha do dia 25 de janeiro que ?(…) as relações suspeitas de personagens em torno do prefeito (Celso Daniel) podem dar aos tucanos, para uso posterior, munição inesperada pelos petistas… a Folha apurou que essa teia de ligações vinha sendo levantada há algum tempo, reservadamente, por membros da segurança pública no governo tucano…?

Agora, no desmentido sobre a remessa ilegal de dólares, o irmão de Celso Daniel revelou que já havia esclarecido essa remessa ?em depoimento à Polícia Federal em agosto de 2001?. Ora, que investigação reservada era essa que fuçava na vida de Celso Daniel e que envolveu tanto a polícia de Alckmin como a Polícia Federal? Por que estava em curso uma marcação em cima de Celso Daniel, seus amigos e familiares? E principalmente: o seqüestro de Celso Daniel, num momento em que estava na companhia de Sérgio Gomes – e não em outro momento qualquer – teria alguma coisa a ver com essa marcação?

Cid Benjamim rides again

O JB de hoje (30) deu manchete de primeira página a uma interessante reportagem de Cid Benjamim, em que ele historia as relações de Celso Daniel com Sérgio Gomes e as iniciativas da direção do PT e do próprio Celso para afastar Sérgio. Baseada em informações privilegiadas, por suas antigas relações com o PT, Benjamim é bem informativo. Mas também está sendo usado nesta campanha para transformar os réus em vitimas e, de quebra, lançar suspeição sobre o PT. A manchete, de primeira página, é : ?O sombra que se tornou chefe?. E o texto lança ainda mais suspeição sobre os amigos de Celso, a partir da mentira da troca da calça bege pela jeans, que, como sabemos hoje, não aconteceu. Benjamim deveria ser mais esperto.

Quem protege o leitor contras as mentiras da imprensa?

Ninguém, lamenta a juíza Denise Frossat em uma curta, mas impressionante carta, reproduzida na coluna de Dora Kramer no JB da terça-feira. Denise pergunta, indignada, quem está pagando para a TV promover candidaturas como a de Roseana e diz: ?Há esperanças para a democracia se a imprensa não sucumbir ao canto da sereia?. Na mesma terça-feira, a Rede Record abria todos os seus programas de grande audiência para a promoção de Garotinho. Parece que não há esperanças.

Retrato do Brasil

Estudo do Ipea, bem resumido no Estadão de hoje, revela que a pobreza atinge 51% das crianças brasileiras. Mas atinge mais as negras do que as brancas. Entres crianças brancas, há 38% de pobres, enquanto entre as negras há 65%. Essa desigualdade só faz aumentar, à medida que as crianças crescem e viram adultos. O Ipea diz que há 53 milhões de pobres (renda per capita abaixo de R$ 120) e 22 milhões de muito pobres, que passam fome."

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