Quarta-feira, 12 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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Bernardo Kucinski

Por lgarcia em 03/10/2001 na edição 141

CRÍTICA DIÁRIA

"CARTAS ÁCIDAS", copyright Agência Carta Maior (www.agenciacartamaior.com.br)

30/09/01

"Primeiros movimentos da corrida sucessória

Em lances cada vez mais rápidos, a partir de agora devem se mover as peças no xadrez da sucessão. No Rio Grande do Sul, os deputados ligados ao ex- governador Antonio Brito saíram do PMDB e foram para o PPS, cortando as chances de Pedro Simon ser o candidato do partido à presidência. Nas pesquisas, Roseana vai sendo trabalhada para ocupar uma vaga no segundo turno. Passam a ser eleitorais e não estritamente jornalísticos os critérios de divulgação das pesquisas de opinião. As pesquisas fazem parte da guerra eleitoral – e sua forma de divulgação também.

Quando o resultado da pesquisa incomoda

Lula ganhou mais alguns pontos na pesquisa CNT. Serra perdeu pontos. A maioria dos jornais, como se não gostasse dos resultados, evitou dar com destaque, muito menos na primeira página, as duas pesquisas que acabam de ser divulgadas, da CNT e da CNI. A Folha escamoteou através de um texto tortuoso em que nem mesmo os dados primários da pesquisa estão claros. Uma exceção à regra foi o JB, que deu chamada de primeira página e sentenciou ?Adversário de Lula indefinido?.

Procura-se o adversário de Lula

A manchete do JB reflete a certeza de que a primeira vaga no segundo turno é de Lula. É o que garantem todos os especialistas em marketing político, inclusive Ney Lima de Figueiredo, o estrategista eleitoral das elites dominantes, comentando ontem à noite na as pesquisas na CBN. Par Ney Lima de Figueiredo, só Lula é identificado pelo eleitorado como candidato de oposição. A memória política está funcionando e todos se lembram que Itamar, Ciro e principalmente Roseana pertenceram ao sistema político que elegeu FHC.

Furo de reportagem: mudança do modelo energético

A Gazeta Mercantil de hoje revela, na sua página A8, que o governo já está encomendando um novo modelo energético das empresas especializadas de consultoria. Reconhece o fracasso do modelo construído em cima das privatizações. Mas isso não significa que vai abandoná-las. Mesmo porque deve pedir o novo modelo às mesmas empresas que moldaram o que acaba de colapsar, e com base na mesma filosofia privatizante. Seria bom a mídia entrar na discussão com mais autonomia crítica, e as oposições entraram de sola.

A guerra vista pelo outro

No noticiário brasileiro da guerra predomina a visão do outro. Os melhores despachos do teatro de operações e do alto comando norte-americano na imprensa brasileira não são de correspondentes de guerra brasileiros, e sim traduções de jornalistas estrangeiros: da Dow Jones, na Gazeta Mercantil, e do Wall Street Journal, no Estadão. Hoje há um bom artigo do Sunday Times no Estadão. A Folha traduz artigo do El Pais que explica as implicações geopolíticas da operação contra o Taleban. Dos últimos despachos fica a percepção de uma operação militar delimitada, mas uma vasta operação política e de inteligência. Mas uma das armas da guerra é o segredo.Tudo o que a mídia está revelando é apenas uma parte diminuta de informação consentida. A parte que interessa aos norte-americanos divulgar.

Os efeitos do ataque no ambiente econômico

O economista Paulo Rabello de Castro fez um impressionante inventário dos efeitos macro-econômicos do ataque terrorista, destacado pelo DCI e a Gazeta Mercantil: a partir da estimativa de perda patrimonial de US$ 3 trilhões das empresas com ações em bolsa (10% do seu patrimônio), calcula que haverá redução de US$ 600 bilhões no consumo mundial até o final de 2002. O resultado é um encolhimento de 1 a 2 pontos percentuais nas taxas de crescimento.Como o PIB já estava encolhendo nos EUA, e a queda na propensão ao consumo já vinha desde bem antes do ataque, pode haver uma recessão profunda a curto prazo, com efeitos negativos importantes no Brasil. Marcílio Marques Moreira também acha, em entrevista ao JB de ontem, que os efeitos de curto prazo do ataque foram subestimados. A longo prazo, diz que foram superestimados.

A síndrome da depressão coletiva

Um dos efeitos mais macabros do ataque terrorista é agonia de passar semanas desenterrando cadáveres já putrefatos. Isso está empurrando os norte- americanos para uma síndrome de profunda depressão coletiva. Por causa disso, uma operação militar espetacular e imediata se torna necessário. Por causa disso, instalou-se a paranóia das prisões e o cerceamento da informação.

As entrelinhas

Destaque ampliado dos infográficos da Folha de ontem situa três bases militares dos EUA na Arábia Saudita e nada menos que 11 na península arábica como um todo (incluindo as dos ingleses). São bases montadas na guerra do Golfo, e que de lá nunca mais saíram. Esse vai ser o resultado da ofensiva contra o Taleban. Bases norte-americanas em toda a Ásia Central. O império americano, basicamente econômico e financeiro, começa a se territorializar.

Buraco negro

Fraquíssimas as reportagens sobre a reunião de emergência de FHC com seus ministros da área econômica. O DCI diz que deveria ter sido secreta. Outros jornais trouxeram poucas e fragmentadas informações. A Folha de hoje fala que já se discute no governo uma nova ida ao FMI, uma nova rodada de chapéu para pedir moeda forte. Teria sido essa a discussão da reunião? O Estadão, em matéria pequena e tardia, diz que o assunto principal foi a guerra.

Retrato do Brasil

Na última página do Estadão de ontem está a macabra contabilidade da violência no Brasil: sete mil assassinatos por ano no Rio de Janeiro e dez mil por ano na Grande São Paulo. São quase três WTC por ano. ?Abandonada, segurança vira crise nacional?, é a manchete da última página do Estadão.

Não deixe de ler

O pequeno e contundente artigo se Delfim Netto na Folha de hoje, criticando a política econômica do governo. Para gozar Armínio Fraga e suas reuniões do Copom, o título é ?Viés anti-crescimento?.

Lei também o importante e raro economista Theotonio dos Santos, na Gazeta Mercantil de hoje (página 2), analisando ?Os efeitos econômicos da tragédia americana?."

1/10/01

"As trapalhadas de FHC no setor elétrico

Está nos jornais de hoje: o consumidor vai ter de pagar uma conta que pode chegar a R$ 19 bilhões, pela energia elétrica que foi proibido de consumir. O Estadão de domingo cita a frase de Francisco Gros no ?IV Encontro da Associação Brasileira de Produtores Independentes de Energia?, em que ele tenta tirar a culpa do governo e jogá-la na burocracia do setor: ?A confusão é tão grande que parece que foi feita de propósito pelo pessoal do setor para garantir o próprio emprego por muitos anos?. O mesmo editorial revela que 4 das 15 termelétricas já estão prontas, mas não podem funcionar porque o governo ainda não definiu as regras de tarifagem. O JB de domingo revela que 9 distribuidoras pararam de pagar suas contas. Estão no vermelho. A Gazeta Mecantil de hoje revela o fracasso do leilão de lotes de linhas de transmissão.

A guerra como opção jornalística

A mídia optou pela guerra. ?Quando a guerra é justa?, proclama um dos títulos da Veja deste fim de semana. Mas que tipo de guerra? Em muitos países houve grandes manifestações contra a guerra e contra o terrorismo, inclusive no Brasil. Mas a mídia ignora o tema da paz e aposta decididamente na guerra. A Folha e as revistas semanais parecem se divertir com grandes mapas e infográficos de página dupla, descrevendo o ?teatro de operações? e as rotas de ataque, como se os militares explicassem antes onde e como vão atacar. Trata-se mais de exibicionismo jornalístico do que de um apoio editorial dos jornais à guerra, mas que acaba por ofuscar as notícias sobre os movimentos reais dos norte-americanos, em terra e na diplomacia.

Os americanos descobrem o ódio aos americanos

E perguntam perplexos: mas por que não gostam de nós? Nossa imprensa vai a reboque da nova e grande preocupação do povo americano, traduzindo enormes artigos da imprensa estrangeira. Veja dá sua capa a essa questão. Brian Appleyard, do Sunday Times, em enorme artigo reproduzido no Estadão do domingo, diz que os EUA cometeram erros, alguns muito graves, mas a razão principal do ódio que despertam é a inveja, o rancor do mal sucedido contra o bem sucedido.Veja segue a mesma linha e desqualifica as manifestações contra a guerra, na sua linguagem habitual insultuosa, dizendo que o ?o que se viu em muitos países foi a união velhaca de raposas de esquerda e de direita?. Mas não acredita na própria explicação, e reproduz uma pergunta da The Economist: ?Será que o ódio aos Estados Unidos penetrou mais fundo do que se imaginava até então??

Religião e Estado-nação

No Estadão de hoje, Lamin Sanneh, professor de história e religião da universidade de Yale, defende a tese de que o que mais açula os fundamentalistas é a ?falta de zelo religioso do Estado norte-americano?. E diz que os norte-americanos também não aceitam como legítimos os Estados-nações não seculares. Sua proposta, em síntese, é de que os dois lados têm agora que ceder.

O Islã como o ?outro?

Lamin diz que para o Islã religião não é uma questão de fé individual, e sim um imperativo público. Neste domingo, o Estadão deu uma página inteira ao francês Jacques Rollet, apresentado como um dos maiores especialistas em Islã, em que ele diz que o Islã já nasceu belicoso e radical, com um Maomé combatendo os ?infiéis?, em contraste com Cristo, pacífico. Antes dele, Paulo Johnson, nas amarelinhas de Veja, desenvolvia a mesma tese, dizendo que o Islã, ao contrário de outras religiões, nunca passou por reformas. Para os acadêmicos Ocidentais, o Islã sempre foi o ?outro?, um objeto exótico para o qual criaram todo um campo de estudos chamado ?orientalismo?. O Ocidente é a norma da civilização humana, o Oriente é a exceção.

Uma nova guerra fria

A novidade é que o ?outro? passa ser agora identificado com o mal, e não apenas com o exótico. Reconstitui-se o padrão ideológico da guerra-fria, no qual o Ocidente era o bem, o Oriente era o mal. Antes, o Oriente era o mal porque era comunista, agora o Oriente é o mal porque é islâmico.

Acertando o tom do discurso anti-islâmico

O discurso do terror como criação islâmica está pegando mesmo, depois de Bush e Berlusconi terem se desculpado por acidentes de fala logo superados por um processo ideológico mais sutil. Rapidamente, as falas francas, e por isso mesmo sinceras, vão sendo substituídas por uma fala mansa, legitimada pela autoridade do saber acadêmico, mas com o mesmo conteúdo. O francês Jacques Rollet deliberadamente passou por cima de detalhes importantes, como o de que, para os muçulmanos, infiéis são apenas os povos politeístas. Já para os católicos, todos os não católicos são pagãos, e como tal foram queimados nas fogueiras da inquisição. Napoleão Saboia, que o entrevistou em Paris, não estava preparado para contestar sua fala, e acabou endossando-a.

Saber científico e ideologia

Assim, um saber científico supostamente neutro e, portanto, absolutamente verdadeiro, torna-se uma ideologia. O racismo também produziu sua ideologia. A tese da necessidade da eugenia e da existência de raças superiores nasceu nas academias meio século antes de Hitler.

A volta do Macartismo?

Não por acaso, surgiu neste fim de semana a palavra ?macartismo?, para descrever a onda de prisões, nos Estados Unidos, de pessoas com aparência árabe. A Folha de hoje dedica meia página à reação das entidades de norte-americanas de defesa das liberdades civis. A Human Right Watch diz que os atentados terroristas estão sendo usados como pretexto para a perseguição de minorias religiosas. Sérgio Benevides, do JB, entrevistou Nadine Strosse, presidente da Associação Americana de Liberdades Civis, e só então ficamos sabendo com mais detalhes (na página 12 do JB do domingo) da onda de violações aos direitos civis nos Estados Unidos após os atentados, e dos pontos principais do novo pacote anti-terror apresentado pelo governo ao Congresso, que permite prisões por associação, deportações sem necessidade de justificativa e detenções por tempo interminado. Nadine está muito preocupada, mas é moderadamente otimista e acredita que parte desses pedidos será barrada no Congresso.

A guerra e o demônio autoritário

Um brasileiro de origem árabe está entre os presos, mas seu drama é ignorado pela imprensa e aparentemente também pelo consulado brasileiro em Miami. Pequenos relatos nos jornais dão conta de como pessoas com fisionomia árabe, ou tidas como tal, são insultadas e mesmo espancadas nos Estados Unidos. Todas as universidades tem de entregar ao FBI as listas de nomes de estudantes de origem árabe. A admirável democracia americana, um mosaico de etnias, é também a democracia da Ku Klux Kan, dos linchamentos de negros e do marcatismo. Clovis Rossi comenta um desses episódio na Folha de sábado: ?inúmeros árabes residentes nos Estados Unidos têm histórias parecidas para contar, o que parece provar que o problema é menos de preconceito racial, embora grave, e mais o fato de que emergências liberam o demônio autoritário que habita a alma de muitos, nas melhores democracias?.

As ligações perigosas

Todos os jornais deram a notícia, ainda no sábado: ?Máfia russa pode ajudar a vencer a guerra?. A informação veio do jornalista Thomas Friedman, do New York Times. Mas nem ele e nem os jornais brasileiros que reproduziram a matéria lembraram de contextualizar a notícia, a começar por historiar as relações antigas entre o governo americano e as máfias. Coube à GNT desengavetar um de seus famosos documentários, neste fim de semana, mostrando as relações da CIA com os traficantes de drogas no Afeganistão. São também da GNT os famosos documentários sobre as ligações da CIA com a máfia e com o cartel de Medelin.

Da invasão da Sicília ao acordo com o Taleban

O primeiro acordo do governo americano com a Máfia foi feito pela predecessora da CIA, a OSS, ainda em 1944. Em troca de informações e guias para ajudar na invasão aliada da Sicília, os americanos ?deportaram? Lucky Liciano para a Itália quando a guerra acabou. A associação CIA-Máfia continuou no pós-guerra, para barrar a ascensão ao poder do Partido Comunista italiano. Nos anos 70, a CIA associou-se aos traficantes de cocaína da Colômbia para financiar a guerra contra os sandinistas na Nicarágua. Noriega era o elo de ligação e foi sacrificado quando o jogo teve de ser invertido. No Afeganistão, o tráfico de droga foi usado para financiar a guerra contra os soviéticos. Assim como no ?triângulo da papoula, no Sudeste Asiático.

Não deixe de ler: a visão latino-americana da guerra

Dois grandes escritores latino-americanos comentam a reação dos EUA ao ataque terrorista do 11 de setembro. Mário Vargas Llosa, no Estadão do domingo, faz uma análise política da estratégia americana que se está desenhando e lamenta que o objetivo de derrubar ditaduras, a começar pela do Taleban, parece ter sido posto de lado. Carlos Fuentes, na Folha de sábado, diz que ?Os EUA alimentaram com leite, víboras que lhes respondem com veneno?. Lembra Castillo Armas, da Guatemala, e Pinochet, entre os ditadores criados pelos Estados Unidos. Ambos acreditam que o atentado vai levar a restrições importantes nas liberdades que caracterizam as democracias ocidentais.

Sofismas sobre o terror

Vargas Llosa critica o que chama de a ?exótica tese de que nem todas as formas de terror se equivalem?. E coloca no mesmo plano Fidel Castro, a FARC colombiana e Bin Laden. São todos terroristas. Mas se toda forma de terror é condenável, então porque o terror de Estado não é condenado? Vargas Llosa parece ter esquecido por um instante o profundo sentimento anti-militarista que permeia seus romances, talvez por influência do último deles, a ?Festa do bode?, que historia a queda do ditador Trujillo, na Repúbica Dominicana, tramada com apoio americano. Mas esse caso foi a exceção a regra, como lembra Carlos Fuentes, de instalar ditadores com o auxílio americano.

Retrato do Brasil

Na página C1 do Estadão do domingo está a reportagem sobre a alta nos preços de barracos em favelas. A favela deixa de ser uma forma marginal de moradia e se torna rapidamente a forma preponderante de moradia entre pobres e trabalhadores."

    
    
                     
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