Segunda-feira, 20 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

PRIMEIRAS EDIçõES > 19/6/02

Bernardo Kucinski

Por lgarcia em 26/06/2002 na edição 178

CRÍTICA DIÁRIA

"Cartas Ácidas", copyright Agência Carta Maior (www.agenciacartamaior.com.br)

"20/6/02

A bomba de Santo André

Houve denúncia formal do Ministério Público, com base em depoimento também formal, do irmão de Celso Daniel. Esses são os fatos duros e graves. Não houve denúncia contra Gilberto Carvalho ou Zé Dirceu, ou Marta Suplicy, mas o depoimento faz graves acusações aos três e ao partido em geral, fato também grave. No noticiário e no que foi publicado dos depoimentos não há provas documentais das acusações.

Os fatos exigem uma resposta política dura e imediata do PT. Mas ela só terá força se for acompanhada por ações importantes na Justiça contra os procedimentos do Ministério Público, que parece ter oferecido denúncia e divulgado à imprensa sem ouvir as partes e sem provas concretas.

Não por coincidência, a mesma técnica foi usada anteontem no Rio, numa tentativa de desmoralizar Benedita da Silva no caso do presídio Bangu 1. E também em Brasília, no caso da Asefe, e em Ribeirão Preto, e no caso das ervilhas, do qual nada mais se fala.

Perguntas que a imprensa não fez

Todo o relato jornalístico de Folha, Estado e JT é baseado unicamente no depoimento do irmão do prefeito, dado no dia 24 de maio, uma sexta-feira. No site do Estadão, consta a íntegra desse depoimento e de nenhum outro. É ele, João Francisco Daniel, que fala o que outros teriam falado tanto a ele como a terceiros. Algumas coisas ele disse ter ouvido diretamente. A maioria, foi na base do ouvir dizer: ouviu de um que ouviu de outro.

Os jornalistas publicaram as denúncias com coisa provada, sem checar com esses terceiros ou com os acusados, mesmo porque só os foram procurar na noite da publicação da matéria, e a maioria deles nem sequer conhecia os termos da acusação. Mariz de Oliveira, advogado do principal acusado, Sérgio Gomes, demonstrou estranheza à Folha ao dizer que ?os jornais terem sido informados da acusação antes mesmo dos próprios acusados.?

Os jornalistas sequer se deram ao trabalho de perguntar quem são os outros três denunciados pelo Ministério Publico. E por que um dos principais acusados, Gilberto Carvalho, não foi incluído na denúncia? Que Zé Dirceu, também acusado, não tivesse sido incluído entende-se – para não permitir que o caso vá a foro especial. Mas não procuram saber se o Ministério Público fez outras investigações ou se tomou outros depoimentos, além do irmão de Celso Daniel. As reportagens falam que a denúncia tem 13 páginas, o que sugere que houve outras diligências e depoimentos. Também foi curto, de apenas 14 dias úteis, o intervalo entre o depoimento de João Francisco e o dia da denúncia à Justiça.

O caso vinha sendo construído, ao que parece, desde antes da morte de Celso Daniel, e o depoimento de seu irmão foi só o ponto final de um inquérito que permanece precário do ponto de vista das provas. A operação ?sigilosa? vinha de longe e impressiona o fato de contar com ?oito procuradores?, uma força tarefa que só perde para a operação que fotografou o dinheiro no cofre de Roseana.

Os perigos do denuncismo

Cartas Ácidas vêm vaticinando há tempos que o jornalismo denuncista iria se voltar com toda a força contra o PT. Foi um erro o PT não ter combatido ostensivamente essa prática, quando ela começou a ser usada na luta entre as frações do bloco de poder, a partir do primeiro conflito Jader Barbalho-ACM.

O que caracteriza esse tipo de jornalismo é a inversão do procedimento jornalístico. O que deveria ser a pauta de uma matéria ainda a ser feita, vira a própria matéria, com ou sem confirmação .

A acusação é publicada como coisa provada, sem a preocupação de verificar se é verdade ou não, sem que sejam exploradas as contradições da própria acusação. No máximo, alguns dos acusados são ouvidos pró-forma, na base, ?o que diz o outro lado?. Isso também não resolve se um lado diz uma coisa e o outro diz outra. Por isso existe a Justiça, com seus procedimentos e etapas, coletas de provas, contraditórios, julgamentos e direitos de revisão do próprio julgamento.

Culpados até que se prove o contrário

Nesse jornalismo, é decretada a morte do Direito Constitucional de presunção de inocência até prova em contrário. A presunção é de culpa até prova em contrário. Essa cultura denuncista já domina o pensamento das pessoas, como revela esta declaração publicada nesta quinta-feira (20) no Estadão, de Odilon Aires, do PMDB do Distrito Federal e relator da CPI que apura as denúncias de corrupção na Asefe, envolvendo o ex-governador Cristovam Buarque: ?Ainda é muito cedo para inocentar o ex-governado petista?. Ele deveria ter dito o contrário, frente à falta de provas até agora: ?Ainda é muito cedo para culpar o ex-governador petista? .

Quando a mídia se torna cúmplice da polícia

Desde o início do seqüestro de Celso Daniel, a imprensa vem atuando como braço auxiliar o governo Alckmin e de sua polícia, e nunca questionou o comportamento estranho da própria polícia, mesmo sabendo que é alto o grau de promiscuidade entre ela e crime organizado. Vamos rememorar o que já publicamos sobre essa cumplicidade, em 30 de janeiro deste ano. Até aquela data, a grande imprensa disseminou muitas mentiras sobre as investigações da morte de Celso Daniel, entre as quais:

– Celso Daniel foi torturado. Manchete de jornais importantes, como o Estadão. Mentira. O laudo pericial apontou execução cruel, mas não torturas.

– A Polícia Federal quebrou os sigilos bancário e telefônico de Celso Daniel e do empresário Sérgio Gomes. Manchetes nos jornais do dia 26, com detalhes do juiz que decretou a quebra de sigilo e tudo mais. Mentira. Tudo desmentido pela mesma Polícia Federal, dois dias depois.

– O irmão de Celso Daniel, o mesmo que agora faz as acusações, fez remessa ilegal de dólares para o exterior. Não fez. A remessa foi legal, consta da sua declaração de Imposto de Renda e já havia sido verificada pelo Polícia Federal em 2001.

– Celso Daniel não trajava, ao ser seqüestrado, a calça jeans com a qual foi encontrado morto. Trajava calça esporte bege. Notícia de destaque em todos os jornais por dias seguidos. A Folha desta quinta desmente e tenta atribuir o engano a ?amigos do político e seus partidários?. Dupla mentira. A menção à calça bege teria sido comprovada pela fita gravada no restaurante Rubayat. Mas a fita é em branco e preto e não permite fazer a distinção.

– Sérgio Gomes foi indiciado em inquérito por negócios triangulares com a prefeitura de Santo André. Manchetes repetidas especialmente no Jornal da Tarde e Estadão. Mentira. Não havia inquérito. Havia o que o Ministério Público chamou de ? procedimento preparatório?, que poderia resultar em inquérito se houvesse elementos para isso.

– Um funcionário do Rubayat foi preso. O dono do restaurante diz que nenhum dos seus mais de 400 empregados foi preso.

Mais perguntas sem respostas

Há uma pergunta mais grave que a mídia não responde: Frederico Vasconcelos informou na Folha do dia 25 de janeiro que ?(…) as relações suspeitas de personagens em torno do prefeito (Celso Daniel) podem dar aos tucanos, para uso posterior, munição inesperada pelos petistas… a Folha apurou que essa teia de ligações vinha sendo levantada há algum tempo, reservadamente, por membros da segurança pública no governo tucano…?

E no desmentido sobre a remessa ilegal de dólares, o irmão de Celso Daniel revelou que já havia esclarecido essa remessa ?em depoimento à Polícia Federal em agosto de 2001?. Ora, que investigação reservada era essa, que fuçava na vida de Celso Daniel e que envolveu tanto a polícia de Alckmin como a Polícia Federal? Por que estava em curso uma marcação em cima de Celso Daniel, seus amigos e familiares? E, principalmente: o seqüestro de Celso Daniel, num momento em que estava na companhia de Sérgio Gomes – e não em outro momento qualquer – teria alguma coisa a ver com essa marcação?

Investigação tomou rumo errado

Nem mesmo o estranho balanço burocrático da polícia sobre seu trabalho foi questionado pela imprensa. Em um mês e um dia, foram tomados 97 depoimentos e feitos 7 retratos falados. A maioria dos depoimentos foi de familiares e amigos de Celso Daniel. A polícia aproveitou o crime para desencadear uma devassa na vida de Celso Daniel. Ouviram Ronan Pinto, sócio de Sérgio Gomes, chamado como ?testemunha?. Testemunha de que, se ele não testemunhou nada? Foi essa a pergunta feita na ocasião por Maria Lídia, da CBN, começando tardiamente a desconfiar que alguma coisa está errada no comportamento da polícia.

Outras perguntas sem resposta

– Como se explica a morte na prisão, no dia 10 de abril, enquanto falava com sua advogada, de um dos seqüestradores de Celso Daniel, Dionísio de Aquino Severo? Seria queima de arquivo, operada com a total cumplicidade das autoridades carcerárias?

– Como se explica que outro seqüestrador de Celso Daniel, Ivan Rodrigues da Silva, chamado de Monstro, tenha sido solto pela Polícia de Maringá (PR). Só porque pagou uma propina de R$ 50 mil aos policiais de Maringá, como informou mais tarde a polícia?

– Celso Daniel foi mesmo pego ?por caso?, como dizem os seqüestradores? Ou eles foram meros executores de um plano longamente arquitetado, do qual fazia parte a preparação prévia dos dossiês, revelada por Celso Frederico, da Folha? E do qual participou também a Polícia Federal, como mencionou na época o próprio irmão de Celso Daniel, que hoje faz as denúncias?

19/6/02

Começou a conspiração contra a democracia?

É o que parece. Seu porta-voz é Malan e o seu objetivo é não permitir nenhuma mudança nas regras do jogo, seja quem for o futuro presidente. Os sinais da conspiração emergem aos poucos nas entrelinhas do noticiário e no estilo guerra-fria das matérias. Mas é no silêncio da mídia sobre a própria conspiração que está o sinal maior. E o maior perigo.

A visita de Otto Reich ao Brasil

Vejam a discreta reportagem de hoje no pé da página A5 do Estadão, sobre a visita ao Brasil de Otto Reich, subsecretário de Estado dos EUA para a América Latina. É essencialmente falsa. O correspondente em Washington não percebeu a objetivo deliberado dos seus entrevistados, de minimizar a importância da visita do subsecretário de Estado norte-americano para a América Latina, e camuflar mesmo seus objetivos. ?Secretário dos EUA fará visita de desagravo do Brasil?. A reportagem quer nos convencer de que se trata de visita de cortesia, porque Otto Reich teria se esquecido de mencionar o Brasil em seu discurso de posse como subsecretário para a América Latina. Vejam que conversa fiada.

O assessor do subsecretário, entrevistado por Paulo Sotero, ainda diz candidamente que ?o objetivo não é examinar o panorama eleitoral brasileiro?. Mentira. Esse é o único objetivo. Avaliar o panorama eleitoral e como estão as pressões contra a candidatura Lula. Otto Reich foi um dos organizadores dos ?Contra?, que infernizaram a Nicarágua. É um cubano com nacionalidade americana. Sobre seu passado, diz de modo obscuro a pasmacenta reportagem do Estadão: ?Seus críticos democratas o vêem como um homem guiado por sua conhecida militância contra o regime de Fidel Castro.?

As pressões aumentam perigosamente

Outro sinal de que podemos estar caminhando num estado de pré-conspiração é o silêncio dos jornais sobre clima de pânico entre grandes empresários e executivos de bancos e empresas estrangeiras, frente à hipótese de uma vitória de Lula. Um dado concreto é o adiamento das decisões de investimento para depois das eleições. O clima é de intolerância em relação a Lula. De inconformismo com a hipótese de sua vitória.

É esse o caldo de cultura dos discursos de Malan, que está se tornando o porta-voz da conspiração antidemocrática. O clima que explica a inusitada cobrança de Pedro Malan na terça-feira (18), que apenas o JB teve a sensibilidade de dar na primeira página, com o título: ?Malan dita o que o futuro presidente deve fazer?. A idéia que corre entre os plutocratas é essa: impedir a vitória de Lula e, se isso não for possível, determinar o que ele pode e o que ele não pode fazer. ?Exige-se hoje do Brasil a geração de um superávit primário de 3,5% a 3,7% do PIB… espero ver um compromisso firme dos candidatos…?, disse Malan. Exige-se quem, cara pálida? A plutocracia exige. O departamento de Estado exige. Otto Reich exige. É isso o que ele vem fazer no Brasil: conferir e estimular a resistência da plutocracia. Além de Malan, mais um superburocrata do governo, Amaury Bier, uniu-se ao coro que exige de Lula compromissos prévios sobre o seu governo, inclusive o de não mexer na atual política econômica.

E os insultos da mídia

Outro sintoma preocupante do clima de intolerância é a proliferação de injúrias a Lula na mídia nacional. Nunca se viu um assalto a sua imagem com essa virulência. ?Lula não foi porque tinha que posar a J. R Duran?. É a título debochado de Estadão desta quarta-feira (19), sobre o não comparecimento de Lula a um debate em Brasília. No Estadão, um leitor elogia o artigo de Carlos Alberto Montaner do domingo (17), que chamava Lula virtualmente de verme: ?(…) não existe o revolucionário bom, da mesma forma como não há espécie benigna de caruncho.? No O Globo do sábado passado (15), o professor Rubens Alves, da Unicamp, foi acusado por Olavo Carvalho de ?emporcalhar? sua cátedra, por ter comparado a origem humilde de Lula à de Lincoln, ?já que Lula só consegue pronunciar com língua presa uns discursos miseráveis…?.Olavo de Carvalho ainda acusa Lula de ?indolência intelectual? e ?ambição avassaladora de subir na vida?.

Não é mera coincidência a convergência de tantos anticastristas e ideólogos da guerra fria nessa campanha de destruição da imagem de Lula. É esse o time comandado por Otto Reich no passado recente.

E outros sinais do rolo compressor

A pressão é tão grande que até Serra está tendo que jurar obediência ao FMI e já garantiu, num atestado de subserviência antecipada, que manterá Armínio Fraga. Foi um gesto grave, porque o candidato amputou uma de suas mãos, perdendo a liberdade de escolha dos auxiliares, antes mesmo de saber as condições em que seria eleito.

Outros sinais de pressão são os primeiros artigos da mídia americana sobre o tamanho do comprometimento dos bancos americanos no Brasil e o risco de contágio da Argentina. A Reuters faz um balanço da deterioração dos títulos da América Latina, reproduzida na página B2 da Folha. A Gazeta Mercantil informa nesta quarta, na primeira página, que na reunião de ontem o FMI observou que ?o contágio da crise da Argentina existe?. Tanto assim que sentiram mais urgência em ajudar o Uruguai e talvez até a própria Argentina.

A preocupação principal dos americanos é em preservar os interesses de seus bancos e empresas. Isso está claro na matéria ?Exposição dos EUA é de US$ 27 bilhões?, publicada na página B2 da Gazeta Mercantil desta quarta, em que a Bloomberg discute abertamente se Lula vai ou não honrar a dívida, e diz que ?Na pior das hipóteses, não há nada que o grandes bancos possam fazer?.

Primeiras ameaças concretas

Alguma coisa podem fazer sim, conforme outra matéria importante desta quarta, publicada no Wall Street Journal e reproduzida na página B12 do Estadão?Estados Unidos enfrentam dilema de apoiar ou não ajuda do FMI ao Brasil?. A matéria parte do pressuposto de que os US$ 10 bilhões liberados dia 18 apenas adiaram o problema do Brasil. Mais dólares serão necessários. E propõe a chantagem financeira: ?Uma possibilidade seria os EUA e o FMI liberarem dinheiro suficiente apenas para o Brasil se manter em pé até que as eleições passem e um novo governo adote – ou abandone as ortodoxias da atual equipe econômica?.

Saiu a nova tabela do campeonato do juro real

Não deu outra: o Brasil continua vice-campeão mundial dos juros altos e a mídia continua a sonegar essa informação. Só Sonia Racy, numa notinha discreta, lá pelo meio de sua coluna desta quarta, veicula o relatório que acaba de sair do forno, da Globalinvest, mostrando que o juro real de 9,9% ao ano, nos últimos 12 meses – um ligeiro aumento em relação aos 12 meses terminados em abril -, mantém o Brasil no topo do triste campeonato dos juros altos, só perdendo para a Polônia, que fechou os doze meses terminados em maio com juro real de 15% ao ano. Diz o relatório da Globalinvest: ?Para se ter uma idéia da dimensão dos nossos juros reais, a taxa brasileira de 9,9% ao ano é quase três vezes superior à taxa média praticada pelos 23 países emergentes analisados, que foi de 3,5% ao ano.

Não deixe de ler

?Estados Unidos enfrentam dilema de apoiar ou não ajuda do FMI ao Brasil?, na página B12 do Estadão desta quarta-feira. ?Exposição dos EUA é de US$ 27 bi?, na página B2 da Gazeta Mercantil, também nesta quarta."

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