Sábado, 16 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

PRIMEIRAS EDIçõES > 1/6/02

Bernardo Kucinski

Por lgarcia em 10/07/2002 na edição 180

CRÍTICA DIÁRIA

"Cartas Ácida", copyright Agência Carta Maior (www.agenciacartamaior.com.br)

"8/7/02

O Lula que a Folha de S. Paulo inventou

Virou dirigente sindical para esquecer a morte da mulher. Não comandou as greves do ABC, mesmo porque elas nem existiram, e ainda apoiou a luta armada. Não gosta de ler, só lê o prefácio dos livros. Mesmo assim, vai ser presidente porque FHC disse que isso ia acontecer. Esse é o resumo da biografia de Lula que a Folha teve a audácia de publicar este domingo. Deveria ser chamada de ?suposta? biografia de Lula.

Expurgando as greves da história

A Folha conseguiu a façanha de explicar as origens de Lula sem falar das grandes greves de 1978, 1979 e 1980, que derrubaram a ditadura militar e projetaram Lula mundialmente. A palavra ?greve? só aparece três páginas depois da narrativa principal, diluída num pequeno texto-legenda de um quadro cronológico sobre a campanha da anistia. E tudo com a data errada de 1979. A campanha pela anistia começou em 1975 com Terezinha Zerbini e já em 1978 foi fundado o Comitê Brasileiro pela Anistia (CBA).

A primeira greve do ABC estourou na Saab Scania, em 12 de maio de 1978. Alguns dias depois, a greve estourou na Ford e, em seguida, em 90 outras indústrias do ABC. Dois meses depois, meio milhão de trabalhadores em cerca de 400 indústrias do Estado de São Paulo haviam entrado em greve. Era o começo do fim da ditadura militar. Nada se explica, na história recente do Brasil, sem essas fulminantes greves do ABC e a ?República de São Bernardo?.

A ?República de São Bernardo? também não existiu

Nem mesmo na legenda da foto em que Lula fala aos grevistas no Estádio de Vila Euclides existe a palavra ?greve?. É como se fosse uma assembléia qualquer. ?Lula discursa para os metalúrgicos de Vila Euclides?, diz a legenda. Uma fraude jornalística parecida com a cometida pela Rede Globo quando explicou as imagens das Diretas Já em São Paulo como se fosse a festa de aniversário da cidade.

Ignorância funcional

Na biografia de Lula publicada pela Folha, Plínio Fraga pula ostensivamente o período das greves. De 1975, ele vai direto para 1981. Com isso, fica ininteligível o motivo da demissão de Lula da Villares, tampouco a prisão do mesmo e a cassação do presidenciável do posto de líder sindical. Na biografia da Folha, a ditadura caiu sozinha, de madura, e Lula se tornou importante porque era um líder sindical que gostava de assembléias e um dia teve a brilhante idéia de fundar um partido.

Maquiando a imagem de Lula…

Será que foi por esquecimento que o jornalista pulou as greves do ABC? Ou foi de propósito? Ou será que a exclusão do operário chegou a tal ponto na cultura yuppie que ficou decidido suprimir o movimento operário da história do capitalismo? Ou será que ele quis ser original e pensou numa biografia que tratasse de aspectos inusitados e não do que já era sabido por todos?

Não é nada disso. A narrativa pula as greves como parte de um padrão que negligencia deliberadamente a formação política de Lula e sua noção de luta, de enfrentamento e de intransigência na defesa dos interesses dos trabalhadores em greve. A tese do jornalista está no olho da matéria e, para sustentá-la, ele vai suprimindo ou inventando fatos ao longo de toda a narrativa. É a tese de que ?Lula se formou politicamente na cultura sindical da assembléias?, e não na luta e no enfrentamento.

E falseando a história

É louvável a idéia da Folha de montar um caderno com as biografias dos candidatos. É importante mostrar aos jovens uma parte de nossa história que nem está nos livros porque é muito recente e nem na memória deles, por não ser tão recente assim. Mas por isso mesmo é muito ruim falsear a história. Plínio Fraga gasta um quarto do texto, em um enorme ?nariz de cera?, como se diz em jargão jornalístico, falando não de Lula e sim de como um dia FHC prognosticou que Lula seria presidente. Como se FHC explicasse a existência de Lula. O contrário é mais plausível, já que FHC foi lançado como candidato e apoiado pelos poderosos como um antídoto a Lula.

No final, depois de gastar mais algum espaço com gravatas de Lula e outras besteiras do mesmo tipo, o jornalista percebe que não conseguiu explicar o radicalismo original de Lula e acaba descambando para a mentira: ?O Lula que um dia defendeu a luta armada como uma via para que os oprimidos chegassem ao poder e a expropriação do grande capital é hoje um senhor de cabelos bem cuidados e barba aparada, ternos de corte fino e sorriso contínuo?.

Assim ele confundiu Lula, líder das greves do ABC e fundador do PT, com Marighella, fundador da ALN. Confundiu o respeito de Lula pelos que morreram lutando pela melhoria das condições de vida do povo, entre os quais Marighella, com o apoio à luta armada, com a qual Lula não teve nada a ver.

O Watergate brasileiro

A operação de espionagem política do governo contra o PT dificilmente se tornará um Watergate brasileiro por um motivo muito simples. Para que se constitua um Watergate, a imprensa – por definição – precisa servir o interesse público. Não é o que aconteceu neste final de semana, quando foi dado um amplo espaço às explicações fajutas do Polícia Federal para a espionagem política, em contraste com o pouco ou nenhum espaço para a pronta resposta do porta-voz do PT, André Singer, que provou com documentos, a mentira do governo.

Paradoxalmente, apenas o Estadão deu amplo espaço à resposta do PT. Época fez cinicamente o jogo da Polícia Federal ignorando a documentação do PT. Época nem pode alegar que não teve tempo. André Singer reuniu a imprensa ás 16h30 da tarde da última sexta, mais ou menos na mesma hora em que a Polícia Federal invadiu a Lunus, episódio que foi capa de Època do dia seguinte.

As falácias da Polícia Federal

A direção da Polícia Federal tentou justificar a espionagem política divulgando uma carta de Lula e Zé Dirceu, datada de 22 de janeiro deste ano, em que eles pediam a FHC que usasse todos os meios legais para esclarecer a morte de Celso Daniel, inclusive a escuta telefônica. Mas a primeira manobra para espionar Lula começou um ano antes, em 4 de dezembro de 2000. E a escuta telefônica sobre líderes do PT foi ordenada por um delegado chamado Marcelo Vieira Godoy, o qual nada teve a ver com as investigações de Santo André. Esse último justificou seu pedido a partir de uma denuncia anônima do dia 21 de janeiro, um dia antes da entrega da carta de Lula e Zé Dirceu a FHC. Além do mais, esse delegado enganou o juiz, alegando em seu pedido de grampo que estava investigando ações do narcotráfico. Clique aqui para ver a íntegra da nota do PT.

Não deixe de ler:

O artigo de Luiz Gonzaga Belluzo na página B2 da Folha de domingo: ?Jogo perigoso?, em que ele relaciona as fraudes empresariais ao uso político do aparelho de Estado. São duas facetas da promiscuidade – típica do neoliberalismo – entre o púbico e o privado.

O artigo de Klaus Kleber, na Gazeta Mercantil de hoje, ?As lições de Stiglitz?,em que ele faz um histórico das críticas de Stiglitz ao FMI.

1/6/02

A edição desta semana da Veja é uma notável demonstração de como a pauta da mídia nacional, inclusive a da própria Veja, está descolada do interesse popular. Nas amarelinhas da revista, Marcos Coimbra diz e repete que a preocupação central do eleitor brasileiro, desde antes da reeleição de FHC, não é a estabilidade e sim o emprego, a educação, a saúde e a habitação.

?Uma agenda neoliberal não está na cabeça do eleitor… o que a população deseja é uma agenda que não se limite á obsessão em torno da estabilidade. Ao longo desses anos fizemos várias pesquisas de opinião em que se perguntou o que era mais desejável: baixíssima inflação com pouco emprego ou um pouco mais de inflação com uma queda na taxa de desemprego. Sempre foi esmagadora a maioria de pessoas favoráveis a alguma concessão no terreno da estabilidade para ter mais emprego e alcançar melhores salários?.

(…) e quer impor a agenda neoliberal

Na mesmíssima edição de Veja o que encontramos, logo depois das amarelinhas? Uma grande reportagem querendo impingir ao leitor e, pasmem, aos próprios candidatos à presidência, a agenda neoliberal. A mesma agenda que Marcos Coimbra diz que não interessa ao povo. Veja determina o que deve ser feito e diz textualmente, sem pudor: ?(…) prosseguir na política de metas de inflação (…) pagar sem discutir as dívidas interna e externa; e sustentar a superávit nas contas públicas…?

Veja ainda descarta como promessas nas quais não se deve acreditar a diminuição da pobreza e das taxas de juros ou maior crescimento econômico: ?Se crescer fosse uma decisão pessoal do presidente, Fernando Henrique Cardoso teria dado essa ordem há muito tempo?. Mas a frase que mais impressiona é: ?pagar sem discutir as dívidas interna e externa?. Vejam bem, ?pagar sem discutir?.

A falácia da competência

O pressuposto da receita de Veja para o próximo presidente é que a economia é um sistema natural com leis invioláveis que só admitem uma solução tecnicamente competente. Tanto assim que relaciona ?as tarefas que o presidente deve manejar de forma técnica, do jeito que é feito hoje?.

Se a população não pauta Veja, quem pauta Veja? A revista alega ter entrevistado 39 especialistas. Quem são esses especialistas? Veja só cita dois: Antonio Kandir e Reis Velloso, dois tucanos neoliberais. Os outros são: ?economistas, sociólogos, cientistas políticos, empresários, banqueiros e políticos?. Interessante a mixórdia de categorias: por que empresários e não sindicalistas? Por que banqueiros e não bancários? Por que ?pagar sem discutir?

E das manchetes auto-referentes

O Estadão também se saiu com uma jóia da pauta neoliberal, na sua manchete de primeira página do domingo: ?Economia vira centro do debate político?. A tese do jornal é que pela primeira vez temas como ?inflação e superávit primário estão recebendo mais atenção no debate dos presidenciáveis do que segurança ou saúde.?

É como se isso tivesse acontecido naturalmente, e não como resultado de uma verdadeira guerra de mídia, martelando o tempo todo os tema da Lei de Responsabilidade Fiscal, das metas de inflação e do respeito aos contratos. É a pauta dos banqueiros, que a mídia conseguiu efetivamente emplacar como principal agenda de debates nacional.

A teoria da determinação da agenda

A oposição foi vencida por esses processos e ainda está discutindo a agenda que os bancos determinaram, e não sua própria agenda. Os teóricos americanos de mídia chamam esse processo de ?agenda setting?, que quer dizer ?a determinação da agenda?. Dizem que em geral o processo se dá em duas etapas. Passa primeiro pelos formadores de opinião e depois atinge o grande público. Em nosso caso os principais formadores de opinião são os colunistas chapa-branca, que há meses vem insistindo na inviolabilidade das metas de inflação e de superávit primário, erigidas por eles em dogma. É a pauta dos banqueiro, do ?pagar sem discutir?.

E as malandragens dos formadores de opinião

Na semana passada, o próprio governo mudou suas metas de inflação. Imaginem as manchetes se as mudanças das metas tivesse sido um ato do governo de Lula? Seria o ?caos?. Mas como foi o governo que mudou, os colunistas de plantão ficaram quietos. Alguns até aplaudiram como uma decisão realista.

Na semana anterior, outra decisão, essa do FMI, mudou o cálculo do déficit público: investimentos da Petrobrás deixaram de ser contabilizados como déficit. Entenderam como era? Se a Petrobrás investia, mesmo com seu próprio dinheiro, isso era contado como déficit público. O déficit público, um dos temas centrais da agenda neoliberal e uma da manchetes mais recorrentes do Estadão é mera construção contábil e ideológica. É uma ficção contábil e não o mundo real do emprego, da habitação e do transporte que rege os destinos do Brasil neoliberal e a pauta de nossa mídia.

Mistérios da Investigação de Entorpecentes 08/02

A descoberta de cerca 40 fitas com gravações de conversas de petistas deve conduzir o noticiário deste começo de semana. As fitas confirmam que foi organizada uma vasta operação de devassa e espionagem política contra o PT. Três frentes irregulares já foram descobertas: a escuta telefônica sob pretexto de combate ao narcotráfico ( Procedimento IE 008/02), a Operação Távola Redonda, supostamente de investigação do morte de Celso Daniel, e o procedimento contra Lula.

A escuta e a operação estão interligadas. A vigilância em cima de Lula parece ter ficado ao no papel, mas tem um aspecto ainda mais o escandaloso: a denúncia do Tenório Cavalcanti contra um prefeito do PSDB foi torcida pelo delegado da PF para se transformar numa denúncia conta Lula e com objetivos eleitorais, conforme ele relata ao JORNAL DO BRASIL do sábado ?de testemunha a alvo da polícia?. (Pg 4).

Fernando Rodrigues anunciou na sua coluna do sábado, na Folha, que é inevitável o vazamento do conteúdo das fitas e que elas poderiam comprometer o PT. A TV Record disse que eram 42 fitas. O Jornal Nacional da Globo falou em 40 fitas e disse para os seus 30 milhões de telespectadores que as gravações foram feitas com autorização da justiça, o que é mentira. As gravações foram feitas a partir de um ofício duplamente fraudulento, que alegava mandato inexistente CPI do narcotráfico e ainda omitia os nomes dos usuários da linhas a serem gravadas."

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