Sexta-feira, 15 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

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Bernardo Kucinski

Por lgarcia em 24/07/2002 na edição 182

CRÍTICA DIÁRIA

"Cartas Ácidas", copyright Agência Carta Maior (www.agenciacartamaior.com.br)

"22/07/02

O entreguismo a ferro e fogo

Nunca foi tão apropriado recuperar as velhas palavras do imaginário dos anos 60: imperialismo, entreguismo, testas-de-ferro. ?Quando FHC disse que seu governo significaria o fim da era Vargas, ninguém pensou que fosse tão longe? , lembra solitariamente Élio Gaspari na sua última coluna. FHC entregou ao velho imperialismo anglo- holandês a Companhia Siderúrgica Nacional, a maior da América Latina, a primeira grande siderúrgica brasileira, semente raiz e tronco de toda a nossa industrialização e símbolo supremo da era Vargas. Realmente, o governo FHC vai entrar na história como o mais entreguista de toda a triste história do entreguismo nacional.

Os testas de ferro do capital estrangeiro

Com a absorção da CSN pela Corus revelou-se toda a hipocrisia do discurso nacionalista de Benjamim Steinbruch, quando disputou o controle da CSN. Na época, proclamou-se nacionalista e acusou o grupo rival Votorantim de estar associado a capitais estrangeiros.

O que é pior, com esse discurso recebeu o apoio de fundos de pensão e um empréstimo de US$ 660 milhões do BNDES, o banco que deveria ajudar o desenvolvimento nacional. Steinbruch desempenhou mais uma vez o velho papel das elites brasileiras: foi um mero corretor dos interesses de grupos estrangeiros nos corredores do Palácio.

O futuro por US$ 600 milhões

ISTOÉ Dinheiro fez a conta de quanto ?o rei do aço?, como diz laudatoriamente a revista, ganhou nesse negócio: ?…Steinbruch controlava uma empresa avaliada em US$ 1,2 bilhão. Na última quarta-feira, ao bater o martelo e selar o acordo era dono de 17,5% de um conglomerado três vezes maior, uma participação avaliada em US$ 1,8 bilhão..a assinatura valeu aos acionistas da CSN um ganho imediato de US$ 600 milhões no valor de seu patrimônio.?

De onde surgiu esse lucro? Por que duas empresas separadas passam a valer mais quando se fundem? Porque Steinbruch vendeu algo que não estava na contabilidade do patrimônio da CSN, uma espécie de mais-valia patrimonial: vendeu o controle estratégico de nossa siderurgia, vendeu o nosso futuro. Esse valor de patrimônio nacional virou patrimônio pessoal de Steinbruch e de um punhado de acionistas brasileiros, como a fundação Valia, que tem 10,3% do capital da CSN..

O cretinismo jornalístico

A maioria dos jornais, inclusive os especializados VALOR e Gazeta Mercantil engoliu sem pensar o enorme e cuidadoso press- release preparado por Steinbruch, que tentou nos convencer que foi a CSN que incorporou Corus e que o Brasil se tornaria, assim, controlador da quinta maior multinacional do aço. Todos os jornais reproduziram o mesmo texto básico, como os mesmos quadrinhos, a mesma abordagem,as mesmas palavrinhas. Apenas um ou outro jornal acrescentou um pequeno Box por conta própria.

O truque midiático que inverteu o sentido dos fatos, foi baseado numa filosofia e numa linguagem. A filosofia foi a de tratar a CSN como unidade mercantil, uma mera empresa como qualquer outra, ignorando sua origem, seu papel estratégico. Com isso, foi possível usar as palavrinhas mágicas da linguagem neo-liberal, mostrar que a CSN vai operar com mais ?sinergismo?, que ? crescerá no mercado internacional.? , que passará a ter um novo ? canal de distribuição de seus produtos?, e por aí a fora.

Sofismas e enganações

O truque mais interessante foi a introdução de algumas palavrinhas especiais como ?parceiro estratégico?, eufemismo para designar um parceiro minoritário, apenas com direito a poltrona de couro no Conselho, ou a balela de que Steinbruch, lá pelo ano 2004 vai dirigir a Corus.

Houve também uma curiosa inversão de ênfase. A imprensa brasileira deu manchete para o fato de que a CSN vai ter 37.6% da nova Corus e que com isso vai controlar a Corus porque o resto das ações está ?pulverizado.? Mentira.

A imprensa londrina e a própria Corus no seu site informaram que os atuais acionistas da Corus vão ter 62,4 da nova empresa e a CSN vai ter ?não mais do que 29,9% dos votos?, ?exceto em certas circunstâncias.?.Ora , se a CSN terá menos votos do que sua participação acionária (justamente um pouco menos de 30%), é porque com 30% teria certos direitos que a Corus não quer que tenha.

Assim se vendeu a ilusão de que a CSN vai controlar a Corus. Chico Santos, na Folha, foi um dos poucos a por o dedo na ferida e apontar a falácia: ?Fusão sepulta o sonho da multi brasileira do aço.? Todo o resto dos jornais enganou descaradamente os leitores. Fusão ? só se o rato ficou mais forte do que o gato? , disse Chico Santos.

Revistas corrigem ligeiramente o discurso

O cretinismo dos jornais ficou tão evidente que não foi possível sustentar a mentira. As revistas semanais corrigiram o tratamento, admitindo como fizeram ÉPOCA e ISTOÉ, que o centro estratégico da decisão sobre a siderurgia nacional mudou para Londres. VEJA não reconheceu nem isso. Apresentou o negócio como muito bom ?para as duas partes?. Mas, meio envergonhada, escondeu a mais importante história da semana numa coluninha sob o titulo ?CSN vira multi.? Carta Capital, a mais crítica das revistas semanais, paradoxalmente deixou a postura crítica de lado fez uma mini-entrevista com Steinbruch em que levantou a bola para ele chutar.

A mãe de todas as falácias: o controle nacional

A primeira conseqüência da perda de controle nacional foi a decisão já embutida no próprio acordo de absorção, de cortar os investimentos da CSN em energia elétrica, tanto térmicas como hidroelétricas, o que contraria o interesse nacional e afronta decisões de governo.Isso apareceu apenas no pé da matéria do Estadão sobre o caso. E nenhum jornalista questionou como foi possível Steinbruch negociar a venda, se do outro lado da mesa havia apenas ?acionistas pulverizados?? A negociação só poderia ter sido feita com um corpo dirigente, com mandato conferido por uma maioria acionária. Então essa maioria existe e a história das ?ações pulverizadas? apenas encobre a essência dos fatos. As ações podem até estar em sua maioria pulverizadas, mas uma maioria existe.

Derrota estratégica

Os jornais fizeram pesquisas supérfluas sobre a história da CSN de 40 anos, apenas para produzir calhaus acríticos, e com isso deixaram de lado a verdadeira história da guerra do aço dos últimos meses.

Nossa derrota nessa guerra começou com o medo do governo, em março deste ano, de reagir às restrições combinadas de cotas tarifas impostas por Bush ao aço brasileiro e de outros países. Celso Láfer preferiu ?negociar? as cotas.

A decisão de Bush foi um golpe sério contra siderurgia brasileira, e não se resolvia por mudança da cota. A própria sobrevivência da nossa siderurgia estava em jogo. Durante duas décadas o BNDES, gastando cerca de US$ 10 bilhões do dinheiro dos brasileiros, promoveu o saneamento da siderurgia .O Brasil estava hoje preparado para dar um novo salto, graças à sua alta produtividade, com um custo de apenas US$ 100 por tonelada, contra US$ 131 na Europa e US$ 168 nos EUA. Novos investimentos estavam programados para aproveitar essa vantagem comparativa.

Foi quando Bush deu o seu golpe. De imediato, as siderúrgicas terão de cortar investimentos programados da ordem de US$ 1 bilhão, conforme os jornais de março passado, que nenhum jornalista consultou na semana passada. É o estrangulamento da nossa siderurgia. Foi nesse ambiente, e antes de uma vitória de Lula, que Steinbruch decidiu entregar os pontos. E ainda embolsou 46,48% de US$ 600 milhões, sua parte das ações da CSN.

Vantagens comparativas

O Brasil tem o melhor minério de ferro do mundo. E a siderurgia mais eficiente. Toda essa vantagem comparativa será suplantada pela vantagem comparativa política do governo Bush. E a Corus ficará com nossa mina Casa de Pedra, a menina dos olhos da CSN, motivo principal de todos esse negócio.

Exportar minério pode, exportar aço não pode

Essa é a história que a mídia poderia ter contado. Não contou, revelando neste único episódio boa parte de suas características: o entreguismo, a preguiça de pensar, a cumplicidade com as assessorias de imprensa, a aceitação a- crítica dos press- releases, e falta de memória e de mancômetro. Um episódio realmente exemplar.

15/7/02

A vitória final do crime organizado

Assim termina a era FHC. Com uma grande vitória do crime organizado, que nas palavras do derrotado ministro Miguel Reale Júnior, ?deve estar soltando fogos?. Mais do que isso: José Carlos Gratz, o presidente da Assembléia Legislativa do Espírito Santo, apontado pela mídia como o chefe do crime organizado no Estado, apareceu na TV criticando ?esses petistas dos direitos humanos? , e em Valor desta segunda-feira, anuncia que ainda vai ser o governador do Estado.

Foi a mais humilhante derrota do governo FHC. Todos tripudiam sobre o presidente, desde a vetusta OAB, que formulou o primeiro pedido de intervenção, mais tarde aprovado por unanimidade pela Comissão Nacional de Direitos Humanos, até o grupo Tortura Nunca Mais, que questiona ?se a reviravolta teria algo a ver com as próximas eleições?. No entanto, ainda não há na mídia, uma semana depois do arquivamento do pedido de intervenção, uma explicação convincente sobre os motivos do dramático recuo de FHC.

A natureza do problema

O Espírito Santo difere dos outros Estados porque enquanto no Rio e em São Paulo o crime organizado criou áreas em que atua como Estado paralelo, no Espírito Santo ele ocupou o próprio aparelho de Estado. Gratz e mais 27 pessoas no Espírito Santo foram indiciados pela CPI do narcotráfico e nada aconteceu, porque eles já mandam na polícia e no judiciário local. Um bom balanço dessa situação foi feito por Roberto Pompeu de Toledo na Veja deste fim de semana. Época revela que o procurador da justiça Wellington Citty, que mandou arquivar tudo por falta de provas, hoje é amigo do peito de Gratz e disso se vangloria.

O mistério da não intervenção no Espírito Santo

Dora Kramer admitiu que ?algo de muito grave aconteceu? para o recuo da intervenção. Eliane Cantanhêde contou com riqueza de detalhes, na Folha, como a decisão de intervir foi cuidadosamente negociada e conferida por Miguel Reale com a cúpula do Palácio e com o próprio FHC. Daí o espanto de Reale quando ficou sabendo pela TV que o procurador-geral da República, Geraldo Brindeiro, havia mandado engavetar o pedido de intervenção, cancelado tudo no último minuto. Brindeiro chegou a ajudar o Conselho a redigir o pedido, e foi um dos que o haviam aprovado. Cantanhêde disse que as razões do recuo são um mistério.

A hipótese econômica

Ricardo Amaral tentou explicar o mistério no dia seguinte ao recuo, no jornal Valor: ?FHC foi convencido a cancelar tudo porque a equipe econômica teme que o agravamento da crise financeira force o governo a tentar a medida espetacular de apressar ainda este ano a mudança do artigo 192 da Constituição Federal, para emplacar a independência do Banco Central?. Segundo o artigo 60 da Constituição, nenhuma mudança constitucional pode ser feita se um Estado estiver sob intervenção ou estado de defesa. Os outros jornais não seguiram a dica do Valor de que o recuo na intervenção se deve ao desejo de declarar o BC independente. Mas o próprio silêncio pode ser a corroboração de que é isso mesmo.

Valor é o jornal que tem as melhores fontes no mercado financeiro, ao ponto de seu enfoque quase se confundir com o enfoque dos banqueiros. A proposta de negociar um pacto de transição com o FMI apareceu com primazia na matéria do editor de Valor, Celso Pinto, sob o título: ?Acordo teria que ser rápido e enxuto?. Parece que o próprio jornal está promovendo o acordo, e não apenas reportando as negociações.

Pela tese de Valor, portanto, FHC não teria recuado por vacilação ou hesitação, ou ?choque da realidade da intervenção?, como sugere Eliane Cantanhêde – apesar de ele ser um vacilante, todos sabemos. O recuo reflete o medo que o governo tem da intensificação da crise financeira e sua rendição ao capital financeiro. O medo dessa crise é hoje um fator dominante de suas ações. A segunda bomba do Rio Centro de fato explodiu. A mudança, se foi esse o caso, deve ter sido comandada por intervenção de Malan.

E a hipótese política

Época e IstoÉ trabalharam com a hipótese política. Para Época, a intervenção levaria a descoberta de vínculos de Gratz e do crime organizado com o ex-governador Gerson Camata. Isso respingaria obviamente em Rita Câmara, a vice de Serra. IstoÉ reforça essa versão, dizendo que ?a mal explicada guinada na verdade encobriu uma ação capitaneada pela candidata a vice na chapa governista, Rita Câmara?. E revela que Rita Camata telefonou a Miguel Reale pedindo que a intervenção fosse sustada.

Mas a história de IstoÉ está muito mal contada e contraditória. Mistura a história de Rita Camata com outra, sem pé nem cabeça, sobre uma suposta advertência da Abin (Agência Brasileira de Inteligência) a FHC, de que a intervenção poria a perder anos de investigação sobre o crime organizado no Espírito Santo e que estaria prestes a chegar à verdade final. IstoÉ pensa que o leitor é idiota. Uma intervenção só poderia facilitar essa investigação, e não atrapalhar.

E a falácia da intervenção branca

Jânio de Freitas apontou corretamente, na Folha deste domingo, a enganação que é a operação de ?intervenção branca?, anunciada pelo governo como um remendo para tapar a crise que ele mesmo provocou. Intervenção branca é o equivalente a um golpe, porque não é formalizada."

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