Quarta-feira, 26 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1006
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PRIMEIRAS EDIçõES > CRÍTICAS DIÁRIAS

Bernardo Kucinski

Por lgarcia em 17/10/2001 na edição 143

CRÍTICAS DIÁRIAS

"Cartas Ácidas", copyright Agência Carta Maior (www.agenciacartamaior.com.br)

15/10/2001 – Capítulos do ?bioterrorismo? que os jornais não contam

Todos os jornais de hoje dão manchete ao bioterrorismo, mas nenhum se lembrou de investigar porque os Estados Unidos rejeitaram o protocolo de verificação de armas biológicas, que estava para ser assinado em Genebra em agosto passado, e a eventual relação dessa recusa com o bioterrorismo.O Estadão reproduz reportagem do Wall Street Journal historiando os programas de armas biológicas do Iraque e de países comunistas, mas omitindo os programas americanos. JB, Folha e Estadão reproduzem o relato da jornalista do New York Times, Judith Miller, sobre o momento em que ela abriu o primeiro envelope com o antraz, mas omitem o livro que a própria Judith Miller acaba de publicar revelando programas secretos norte-americano com armas biológicas, chamado: ?Germs, biological weapons and America?s Secret War?.

Revelações de um cientista

Cartas Ácidas foi atrás dessa história e falou com um dos principais participantes das reuniões de Genebra. Eis um resumo do que esse cientista nos disse: quando a delegação americana rejeitou a proposta que já vinha sendo elaborado há dez anos, causou tanto espanto que até a CNN foi lá reportar. Os Estados Unidos deram três pretextos para a recusa: ?razões de segurança nacional?, ?proteção dos direitos de propriedade industrial? e a alegação absurda de que, como as inspeções não protegeriam contra o bioterrorismo, seriam inúteis. A verdadeira causa da recusa poderia ser o reengajamento dos Estados Unidos em programas de armas biológicas, proibidos pela convenção de 1975. O protocolo propunha instrumentos de verificação do cumprimento da convenção, como já existe para armas químicas.

Os programas secretos de guerra biológica norte-americanos

Já vazaram informações de dois programas secretos de guerra biológica levados a cabo nos últimos anos pelos Estados Unidos, em violação do tratado de proibição de armas biológicas. Um deles é conduzido por uma Defense Threat Reduction Agency (DETRA), que coincidentemente fica em Nevada, local de um dos ataques com antraz. Seu objetivo é justamente o de verificar se grupos terroristas poderiam fabricar armas biológicas e, para isso, organizou uma operação que consistia em tentar obter todos os meios para produzir um agente biológico de modo clandestino, como se fosse um grupo terrorista. Não se sabe que agente biológico foi produzido, mas é provável que tenha sido o antraz, porque esse foi o agente biológico mais usado nos programas anteriores das grandes potências e no do Iraque. Fotos desse laboratório chegaram a ser publicadas em reportagens da Judith Miller.

Um segundo programa americano é conduzido pela CIA e comprovadamente mexe com o antraz. Foi provocado por um artigo científico russo relatando a produção de uma variedade geneticamente modificada do antraz resistente às atuais vacinas. Os americanos pediram amostras aos russos e, frente a sua recusa, desenvolveram um programa secreto para reproduzir a experiência russa. Mas enquanto a experiência russa, por ser publicada em revistas científicas, poderia estar dentro do permitido pela convenção, a americana certamente não, por ser secreta e conduzida pela CIA.

O antraz e a disputa entre pombos e falcões

Há, portanto, a possibilidade de que o antraz dos ataques de bioterrorismo tenha escapado de um desses grupos, do interior do próprio estabelecimento militar. O cientista com quem conversamos chega a formular a hipótese de que poder existir uma relação entre a forma como os despachos de antraz vem sendo noticiados de modo direcionado, e as tentativas do grupo dos falcões em torno do vice-presidente Cheney de estender a guerra ao Iraque.

Os tucanos preparam o discurso da sucessão

Já está sendo costurado o discurso da candidatura tucana, revela reportagem na página A1 do Estadão do domingo. Os tucanos vão prometer uma política industrial, que este governo não tem, e um olhar para frente. Nada de olhar para trás, muito menos criticar o governo FHC. É o discurso que já vem sendo delineado por Sérgio Amaral. Os tucanos esperam que a crise internacional os favoreça e que a crise energética não lhes seja atribuída, e sim a São Pedro. A posição precisa ler essa reportagem com atenção.

Mas não conseguem esconder o pânico

Só no final da reportagem está sua revelação principal: o pânico tomou conta dos tucanos, devido ao crescimento da candidatura de Roseana Sarney e da persistência das candidaturas de Ciro e de Itamar. Nesse quadro, ficariam fora do segundo turno. A Folha do domingo faz um balanço das alianças estaduais em tono das candidaturas à presidência, concluindo que o governo entra na campanha enfraquecido e arriscando perder apoios cruciais, se o PMDB sair com candidato próprio. A Folha provavelmente erra ao especular que Roseana sairia sozinha e que, portanto, o PFL abandonaria o governo. Mas a simples hipótese de Roseana exigir a cabeça de chapa, aventada tanto na reportagem do Estadão como na da Folha, basta para semear o pânico entre os tucanos.

A hipótese da intriga palaciana no caso Medeiros

Se os tucanos estão em pânico, ganham credibilidade as reportagens que indicam o governo e José Serra como mentores das acusações de que Luiz Medeiros fundou a Força Sindical com dinheiro de empresários, e ainda desviou parte para o seu próprio bolso. O objetivo seria desacreditar o atual presidente da Força Sindical, Paulo Pereira Leite, que apóia Ciro Gomes. E, por tabela, desacreditar o PT, que negocia apoio do PL, partido de Medeiros. De fato, a notícia era velha, o que sugere uma campanha para queimar Medeiros. Mas nesse caso, FHC pagou um preço alto, o que dá a medida do desespero tucano: o governo confessou que mais um de seus aliados principais é um corrupto. E mais: que o próprio governo é corrupto, porque além do dinheiro dos empresários, a Força Sindical recebeu muito dinheiro do próprio governo. Dinheiro do FAT desviado de seus objetivos legais.

E a intriga jornalística de Veja

Veja não se conformou com a revelação de que a Força Sindical foi criada por empresário e por Collor para combater a CUT, e produziu um dos exemplos mais cristalinos de manipulação jornalística, colocando Medeiros e Menegelli no mesmo saco, que ela rotulou de ?sindicalistas das arábias?. Ancorando-se numa foto de arquivo de uma viagem que ambos fizeram a convite a Israel há mais de dez anos, Veja tenta associar Meneguelli ao estilo de vida de mordomias, boa vida e oportunismo de Medeiros.

A manobra de Veja é uma forma de manipulação da informação que exige malícia. É um jornalismo desonesto praticado por jornalistas desonestos. Nessa manipulação nem a informação e muito menos a lógica importam, porque o objetivo não é explicar e sim enganar o leitor. O mero raciocínio lógico mostraria que se Medeiros criou a Força Sindical com dinheiro dos patrões para combater a CUT, Força Sindical e CUT são adversárias, inimigas. Portanto não são farinhas do mesmo saco.

Retrato do Brasil

A impunidade de grandes empresas poluidoras do meio ambiente esta retratada na reportagem de Marina Viveiros, nas páginas C3 e C4 Folha deste domingo. De 13 grandes casos de desastres ambientais dos últimos 16 anos, apenas um gerou processo criminal, ainda em curso e outro, o do Césio de Goiânia, levou a condenações. O Fundo Especial de Defesa e Reparação das pessoas atingidas, criado no Estado de São Paulo, recolheu R$ 4,95 milhões em multas ambientais, mas nunca pagou um tostão de reparações às vitimas. Está aí uma excelente bandeira para o candidato da oposição. Sacudir e moralizar as leis ambientais.

Não deixe de ler

A mini-entrevista de Antonio Cândido na Folha de hoje, em que ele contextualiza as negociações de um possível apoio do PL ao PT. Compare com o comentário raivoso de Vinicius Torres Lima, na página 2 do mesmo jornal, em que ele passa por cima dos fatos, especialmente das últimas eleições, dizendo, entre outras besteiras, que ?o PT perdeu base popular?. Seu comentário se intitula: O PT que diz qualquer coisa. Mas poderia se intitular: ?O jornalista que diz qualquer coisa?.

11/10/2001 – Escondendo a greve do INSS

Ao dar algum espaço ao fracasso das negociações para acabar com a longa greve (já dura 64 dias) dos funcionários do INSS, O Globo é uma exceção nas edições de hoje dos jornais de referência nacional, Mesmo noticiando, o jornal não menciona as reivindicações dos grevistas, ou seja, a razão da greve. A ênfase da sua notícia está nos prejuízos dos pensionistas e outros dependentes do INSS por causa da greve. Diz que 800 mil benefícios deixaram se ser concedidos desde o início da greve, e não esqueceu de frisar ?inclusive licenças maternidade?.

A greve como notícia

Greves são quase sempre noticiadas pela grande imprensa como um conflito entre o interesse público e interesses menores, ou corporativos de determinada categoria de funcionários públicos que, não raro, são tratados como privilegiados e até como vagabundos. E são quase sempre abordadas pelo ângulo dos prejuízos que causam ao publico, à economia, ou até mesmo a trabalhadores que não aderem à greve e são impedidos de trabalhar por uma ?minoria de radicais?. Ou seja: o noticiário da greve na grande imprensa tem o objetivo de enfraquecer a greve, de criar junto ao público uma postura de hostilidade aos grevistas. Por isso a ênfase nas suas conseqüências negativas e o silêncio sobre as reivindicações dos grevistas, sempre mais do que justas.

E escondendo as outras greves

Se o noticiário da greve é um instrumento do patronato de combate à própria greve, estranha o fato dos meios de comunicação abdicarem desse instrumento, estarem em geral ignorando as atuais greves ou relegando-as a cantos de página. Ontem estourou mais uma greve pipoca: a dos 3.500 funcionários do Banco do Brasil em Brasília. Dois dos principais jornais de referência nacional, Folha e Estadão, sequer noticiaram. Ambos também vêm ignorando as greves pipoca nas montadoras de automóveis do ABC. Só a Gazeta Mercantil, e em matéria diminuta, noticiou hoje a greve pipoca na Volkswagen. Ontem apenas a Rádio CBN atribuiu importância eclosão das greves do ABC.

Além da greve do INSS, não estão sendo noticiadas satisfatoriamente duas outras longas greves de funcionários públicos: a dos servidores do judiciário de São Paulo, a dos professores e funcionários das universidades federais. Hoje, o Estadão noticia discretamente a retomada de negociações entre o MEC e os professores, assim como a decisão dos servidores da Justiça de São Paulo de manter a paralisação, já no seu 46o dia. A Folha informa de modo ainda espremido o adiamento do vestibular da UFRJ e ignora a assembléia dos servidores da justiça. Sobre a igualmente longa greve do INSS, Folha, Estado e Gazeta Mercantil não publicam uma só palavra.

A morte do ?operário padrão? e a crise da greve como notícia

Deve estar acontecendo uma espécie de crise no padrão da greve como notícia. Ou porque o próprio trabalhador formal deixou de ser o padrão, ou porque toda a ideologia neoliberal deslegitima a luta sindical, preferindo enaltecer o sucesso pessoal à figura do empreendedor, do autônomo, do empresário ou do executivo de sucesso. Na sociedade pós-industrial, a fábrica não é o principal lugar de criação de excedentes de valor. Hoje no Brasil, mais de 50% do PIB está no setor de serviços, fora das fábricas.

No ideário neoliberal, o herói não é o esforçado ?operário padrão?, o herói é o executivo que tem o sangue frio e a determinação de levar até as últimas conseqüências uma radical ?reengenharia? da empresa, demitindo centenas de funcionários, cortando chefias e hierarquias, terceirizando. Esse ideário é hegemônico, atinge jovens repórteres e editores -eles também todos neoliberais. Nesse ideário, o operário com carteira assinada é um privilegiado e, portanto, não merece simpatia alguma.

E a greve como direito de cidadania

Mas nessa crise do padrão da notícia da greve há também mecanismos de simpatia indireta aos grevistas, na medida em que os jornais estão evitando estigmatizar os movimentos. Onde está aquela notícia de primeira página, com direito a foto em três colunas, da velhinha que veio do bairro distante para receber sua pensão e bateu de cara na porta trancada do INSS? Ou da criancinha que morreu no corredor do hospital público por causa da greve? Nada. É o silencio absoluto. Por um lado, o trabalhador se tornou tão descartável que a greve deixou de ser notícia e sua estigmatização pela mídia deixou de ser critério relevante de cobertura. Por outro lado, a reivindicação dos grevistas passa a ser entendida como politicamente correta, como parte de uma postura de modernidade dos meios de comunicação, no mesmo nível da defesa da coleta seletiva do lixo e da defesa dos direitos de cidadania dos portadores de deficiências físicas. Como essa simpatia não pode ser enfatizada, melhor não falar nada."

    
    

                     

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