Sábado, 19 de Agosto de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº954

PRIMEIRAS EDIçõES >   CANAVIAL DE PAIXÕES

Bia Abramo

Por lgarcia em 14/10/2003 na edição 246

MULHERES APAIXONADAS

“Noveleiro bossa nova apela para absurdo”, copyright Folha de S. Paulo, 12/10/03

“E, (quase) no final, mataram o pobre Fred. O garoto era um exemplo: sério nos estudos, bom amigo, amante galante e dedicado. Ainda por cima, foi graciosamente interpretado pelo estreante em TV Pedro Furtado. Mas acabou morrendo no mesmo acidente que vitimou o espancador e psicopata Marcos (Dan Stulbach).

Nos últimos capítulos de ?Mulheres Apaixonadas?, o afã de fazer a audiência atingir alguma espécie de recorde produziu mais uma solução absurda, numa novela que foi recheada delas.

O incongruente e a incoerência fazem parte, é claro, dessa ficção construída aos olhos do público, testada por especialistas em marketing, regida pelo merchandising.

A telenovela é pródiga em ressuscitar mortos, fazer aparecer desaparecidos, mostrar caráteres mudando da água para o vinho etc. Também estende-se por muitos meses, e isso acaba por cansar; é, portanto, necessário recuperar os espectadores perdidos para outros canais ou atividades recorrendo a recursos os mais esquisitos.

Em que pese a nota de saudosismo, houve um tempo em que imperava nas novelas da Rede Globo o chamado ?padrão de qualidade?, e a emissora esforçava-se por levar ao ar roteiros mais ou menos coesos. Nas últimas novelas, os critérios parecem ter se esfumaçado. É sempre preciso lembrar que o período do ?padrão Globo de qualidade? coincidia com o quase monopólio da Globo, ou seja, a pressão para dominar a audiência era menor do que é hoje.

A campeã ainda é ?O Clone?, de Glória Perez, que, de tão esburacada em termos de coerência espaço-temporal, fazia parecer que o Marrocos era logo ali na Baixada, que uma mulher não envelhece nada em 25 anos e assim por diante.

Perez manipulou de maneira tão grosseira as linhas gerais da história, os personagens, as passagens de tempo, que a novela parecia ter voltado ao período pré-Janete Clair, em que Glória Magadan costurava suas tramas mirabolantes com xeques e príncipes. A ficção é uma construção, mas é necessário que o autor firme algum pacto de verossimilhança com o seu leitor/ espectador.

Mesmo numa obra de puro entretenimento como a novela, é preciso delimitar uma fronteira a partir da qual a história, no fundo, perde a graça. Quebrar o pacto e inventar para além dos limites pode ser que infle a audiência, mas corre-se o risco de aborrecer o espectador.

É um sinal dos tempos que Manoel Carlos também tenha recorrido tanto a esse tipo de solução barata e perversa. A morte de Fernanda (Vanessa Gerbelli), as surras em Dóris (Regiane Alves), as facadas de Heloísa (Giulia Gam), as raquetadas em Raquel (Helena Ranaldi): mais ainda sinal dos tempos, o fato de que todas elas envolveram a exposição de algum tipo de violência.”

“Platéia feminina foi cativada por ?Mulheres?”, copyright O Estado de S. Paulo, 12/10/03

“Depois de 200 noites, o Brasil se despede da trupe de mulheres de Manoel Carlos. Mulheres Apaixonadas entra no currículo do autor como um dos seus maiores sucessos – talvez, o maior – e ganha um lugar de destaque na galeria das novelas das 8, da Globo.

Mulheres estreou bem em fevereiro (42 pontos de média no Ibope, na Grande São Paulo), afinal, assim como Gilberto Braga, Manoel Carlos tem um público fiel que aprecia seu estilo. Essa audiência sabe de antemão que com ele vai penetrar no universo da classe média carioca, presenciar discussões sobre temas e causas nobres e testemunhar grandes casos de amor.

O maior mérito do autor neste caso foi agregar progressivamente novos espectadores (chegou a registrar 56 pontos na morte da personagem Fernanda) à sua platéia. Telespectadoras provavelmente, uma vez que elas representam 63% da audiência de Mulheres Apaixonadas.

Maneco (como seus discípulos adoram chamá-lo) é um novelista talentoso e experiente. Sua primeira novela Maria, Maria foi exibida em 1978, mas ele estava na TV desde os anos 50, como ator, roteirista e diretor. Suas histórias são bem montadas, os diálogos são vibrantes e o texto é fluente.

O sucesso de Mulheres Apaixonadas pode ser creditado também a outros predicados. Maneco capturou e fidelizou essa grande platéia feminina porque conseguiu esculpir personagens quase verossímeis. Distribuiu entre suas mulheres qualidades, defeitos, medos e fantasias perfeitamente capazes de ser encampadas por qualquer telespectadora.

O terror da rejeição (que enlouqueceu Heloísa) turva o horizonte de qualquer apaixonado. E quem nunca teve o medo de perder o controle por ciúme? Qual mulher não pensou algum dia virar a mesa do tédio no casamento como fizeram Helena e Sílvia? Ou descobrir um câncer no seio como Hilda?

O público pôde se enxergar em quase todas as personagens. Afinal, elas representam extremos de sentimentos e atitudes recorrentes na natureza humana. Submissão (de Raquel ao marido espancador), recalque (da Paulinha), perversidade (da vilã Dóris), futilidade (da Estela) e ousadia (de Lorena em bancar relacionamento com o garotão) são elementos passíveis de conviverem em uma mesma pessoa.

Na vida real, poucas coisas são maniqueístas. E isso também é uma qualidade das personagens de Manoel Carlos. Não há registro no terreno das novelas de uma heroína com tantos defeitos. Helena (Christiane Torloni) trai, mente e ainda por cima humilha quem se escandaliza com seu comportamento. É generosa, amiga, companheira, mas coloca seu prazer e felicidade acima de tudo. Helena é uma personagem humanizada e aí é que ela fisga a audiência.

Como ela mesma diz (em uma das cenas desta semana): ?As Helenas sofrem, mas dão a volta por cima?. É uma fala auto-referente do Maneco que costuma batizar suas heroínas como Helena desde Baila Comigo (1981).

Mas a Helena de Mulheres Apaixonadas é, sem dúvida, a melhor de todas.”

“?Mulheres? escapa de dramas da realidade”, copyright Folha de S. Paulo, 10/10/03

“Se o que mais contribuiu para a enorme repercussão de ?Mulheres Apaixonadas? foi o fato de a novela mostrar personagens e dramas facilmente encontrados na vida real, o final da trama das oito da Globo, que chega hoje ao seu último capítulo, vai distanciá-la dessa realidade: a grande maioria dos personagens terá um final feliz, digno de qualquer folhetim que se preze.

O telespectador pode esperar um último capítulo com o elenco reunido numa festa de casamento, com muitos sorrisos, talvez algum bebê por vir, como costuma acontecer em todo final de novela. Pelo menos uns sete casais que passaram a trama toda separados devem viver felizes para sempre, ou até aparecer a palavra ?fim? na tela da TV esta noite. As doenças -o câncer de Hilda, o alcoolismo de Santana e o ciúme doentio de Heloísa- continuarão em tratamento, mas quem assistir ao último capítulo vai desligar a televisão com a certeza de que tudo vai acabar bem.

Talvez o único desfecho triste será o do adolescente Fred (Pedro Furtado), que no capítulo de ontem morreria em um acidente de carro. Trágico, mas por outro lado um alívio: o acidente que o matou acabou também com Marcos (Dan Stulbach), o marido violento e desequilibrado que aterrorizava a mulher. O único vilão verdadeiro da história teve o desfecho dos vilões nos finais felizes e não vai mais incomodar a frágil Raquel (Helena Ranaldi).

De resto, só alegrias. Helena (Christiane Torloni), a apagada protagonista, que passou boa parte da novela só olhando fotos do seu grande amor da juventude, César (José Mayer), finalmente se casa com ele -que, pelo visto, deixará de ser mulherengo como foi durante toda a trama e se tornará um marido fiel.

Ex-marido de Helena, Téo (Tony Ramos) também termina bem. Numa espécie de troca de casais, vai acabar a novela com a médica Laura (Carolina Kasting), ex-noiva do personagem de José Mayer. O casal ainda deve dar um final feliz à sofrida menina Salete (Bruna Marquezine), apesar de o autor, Manoel Carlos, guardar segredo sobre se ela é mesmo filha de Téo.

Mais uniões duradouras virão com os casais Cláudio e Edwiges (Erik Marmo e Carolina Dieckman), Estela e o ex-padre Pedro (Lavínia Vlasak e Nicolas Siri), os primos Diogo e Luciana (Rodrigo Santoro e Camila Pitanga) e Vidinha (Julia Almeida e Marcelo Anthony) e Sérgio.

Até o ator Reynaldo Gianecchini foi escalado para garantir o final mais feliz de Lorena (Susana Vieira), que adotou mesmo a idéia de namorar garotões.

Feliz também deve estar Manoel Carlos. Com 48 pontos de média no Ibope até o final de setembro -anteontem alcançou 52, segundo dados preliminares-, ?Mulheres?, anunciada como sua última novela, pode terminar hoje como a novela mais vista dos últimos quatro anos.”

 

CANAVIAL DE PAIXÕES

“México vai para o interior de SP”, copyright O Estado de S. Paulo, 12/10/03

“Ex-globais de todos os tempos se encontram na nova novela do SBT, Canavial de Paixões, que estréia amanhã. De Vitor Fasano a Thierry Figueira, passando por Cláudia Ohana e Débora Duarte, a trama mexicana reúne atores famosos e outros nem tanto, para contar a história de um amor (quase) impossível, no estilo Romeu e Julieta, que tem como cenário o interior de São Paulo. Mas não se assuste se o sotaque lembrar mais o Leblon de Manoel Carlos…

No novo dramalhão (é claro!), Bianca Castanho (ex- Terra Nostra, Malhação e Beijo do Vampiro) é a romântica e ingênua Clara, da família Faberman Santos.

Gustavo Haddad (ex- A Padroeira) vive Paulo, da família Giácomo. Giácomos e Santos não se dão nada bem e a situação piora após um acidente – e um incidente -, que leva o patriarca Fausto Santos, interpretado por Jandir Ferrari (ex-Rainha da Sucata e Zorra Total), a virar uma ?Santana? e passar a beber até destruir sua vida. Cláudia Ohana completa a família Santos. Os Giácomos contam com Vitor Fasano e Débora Duarte.

Canavial de Paixões é mais uma versão brasileira do SBT para um texto mexicano da Televisa. A rede paranaense CNT já transmitiu o original em 1997. A próxima novela a ser adaptada pelo SBT deverá ser Os Ricos Também Choram, segundo o diretor de Teledramaturgia do SBT, David Grimberg. O megadramalhão também já teve a versão original mexicana transmitida no Brasil, pelo próprio SBT em 1982.

Para o diretor-geral da novela, Jaques Lagoa, o SBT está aprimorando cada vez mais a técnica de tornar mais crível as tramas mexicanas. ?É uma questão de interpretação. Lá, as mulheres já chegam em cena com aquele cabelo (em referência aos topetes moldados à custa de muito laquê) e muita maquiagem?, fala. ?Não é nem uma questão de texto, mas sim de atitude dos atores.? O diretor acha que Canavial de Paixões apresenta um elenco mais homogêneo do que as produções anteriores – como A Pequena Travessa, Pícara Sonhadora e Marisol. ?Há muita gente com experiência, seja na TV ou no teatro.?

Concorrência desleal – Jaques Lagoa conta que a estréia de Canavial no mesmo dia de Celebridade, na Globo, não é mera coincidência. Segundo ele, a direção do SBT preferiu concorrer com o início da trama de Gilberto Braga a enfrentar o fim de Mulheres Apaixonadas – que está muito bem de audiência, com média superior a 50 pontos no ibope. ?Mas claro que vamos sair arranhados dessa decisão?, fala. Lagoa espera que o primeiro capítulo da trama mexicana atinja, ?no mínimo?, 15 pontos no ibope.

Outra questão que mostra bem essa concorrência desleal é financeira.

Enquanto a Globo gasta R$ 200 mil, em média, por capítulo em suas produções, o SBT tem verba de R$ 90 mil por capítulo. Canavial de Paixões conta com cerca de 150 pessoas envolvidas na produção. No elenco, são 40 atores. Já Celebridade tem 200 pessoas na produção e um elenco de 48 artistas. E é até pouco. Mulheres Apaixonadas estreou com um time de mais de 100 atores.

Jaques Lagoa, porém, defende que o estilo de teledramaturgia do SBT difere do da Globo. ?O que fazemos são folhetins?, afirma. David Grimberg concorda e endossa que na hora de escolher as tramas que são apresentadas pela Televisa (mais de 150), ele tende a se agarrar nas mais dramáticas. ?Há muita novela moderna hoje no México, mas acho que elas não funcionariam aqui?, conta o diretor, que avalia também a popularidade dos títulos oferecidos com pesquisa de audiência e aceitação do público.

Só resta saber se a nova trama mexicana do SBT, transportada para o interior de São Paulo, vai segurar o público no embate contra Celebridade, de Gilberto Braga, autor que sempre retrata a realidade brasileira em suas novelas.”

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