Terça-feira, 21 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

PRIMEIRAS EDIçõES > DEUS É INOCENTE

Bia Moraes

Por lgarcia em 29/01/2003 na edição 209

DEUS É INOCENTE

?Deus é inocente? não é bem aceito, copyright Comunique-se, 27/1/03. Fonte: Gazeta do Povo (PR)

“Um repórter de grande visibilidade em todo o país – há vinte anos trabalha na Globo – escreve um livro sobre a mídia e o pós-11 de setembro. Imagina-se que a imprensa deveria dar especial atenção ao lançamento do livro, mas não é o que está acontecendo. Carlos Dorneles, autor de ?Deus é Inocente?, sabe o porquê, e não esperava atitude diferente por parte dos colegas jornalistas, especialmente da mídia impressa. No livro, ele analisa (e mostra) o despreparo da imprensa brasileira para lidar com assuntos internacionais, especialmente depois do atentado às Torres Gêmeas, e expõe erros, vícios e mazelas da cobertura de temas como a iminência da guerra ao Iraque e o confronto entre Israel e palestinos.

O Caderno G, editoria de Cultura do jornal Gazeta do Povo, deu página inteira para uma matéria de capa com Dorneles, publicada nesta semana. Em entrevista ao repórter Luís Henrique Pellanda, Dorneles afirma não ter ficado surpreso com a pouca receptividade do livro na mídia. ?Não consigo imaginar o Estadão fazendo uma matéria sobre um livro que critica o trabalho deles?, disse o repórter.

Acompanhe a seguir a íntegra da reportagem da Gazeta:

O repórter Carlos Dorneles, na Globo há 20 anos, ex-correspondente em Londres e Nova Iorque, acaba de lançar um livro. Pouca gente sabe. O trabalho não está sendo muito comentado pela mídia nacional. Trata-se de ?Deus É Inocente?, um estudo sobre a forma parcial, conivente ou passiva com que a imprensa viria divulgando, desde os atentados de 11 de setembro de 2001, informações sobre a Guerra do Afeganistão, as ameaças ao Iraque, o terrorismo e os conflitos entre judeus e palestinos.

Durante um ano, Dorneles consultou várias agências internacionais de notícias e alguns dos maiores jornais e revistas mundiais, como os norte-americanos The Washington Post, The New York Times e Time Magazine. No Brasil, concentrou sua pesquisa sobre sete veículos: O Estado de S. Paulo, Folha de S. Paulo, Jornal do Brasil, O Globo, Época, Veja e IstoÉ. As conclusões do autor são desanimadoras. Em entrevista ao Caderno G, concedida na última terça-feira, Dorneles falou sobre manipulação de informações e a crise de confiabilidade por que passa a imprensa.

Caderno G – Como a imprensa recebeu o lançamento de seu livro? Houve algum retorno?

Carlos Dorneles – Nenhum. E eu não esperava o contrário. Não houve, em nenhum dos jornais ou revistas, qualquer referência ao livro. Tenho a impressão, mas não a certeza, de que o Estadão deu uma pequena nota sobre o lançamento. Mas não consigo imaginá-los fazendo uma reportagem sobre um livro que critica o trabalho deles.

Caderno G – Como as redações brasileiras poderiam fugir do texto das agências internacionais?

Carlos Dorneles – Não é fácil. Não só no Brasil, mas no mundo ocidental inteiro, o massacre das agências de notícias é impiedoso. Elas têm o monopólio da informação. mas não basta dizer: ?Vamos resistir?. Porque não é apenas o leitor que é influenciado por essas informações. Os próprios jornalistas acreditam no que publicam. Acreditam por acreditar ou por passividade.

Caderno G – E a crise entre Estados Unidos e Coréia do Norte? Assim como fez com Bin Laden e Saddam Hussein, a imprensa estaria pintando Kim Jong II como louco ou exótico?

Carlos Dorneles – Sem dúvida. Vi ontem, na televisão, uma chamada mais ou menos assim: ?O ditador esquisito?. Para provar sua esquisitice, a matéria falava que ele gosta de velocidade e cinema. É exótico gostar de cinema? O importante é que os Estados Unidos estão pipocando para a Coréia do Norte, enquanto são extremamente exigentes com o Iraque. A diferença entre um e outro é óbvia: petróleo. Mas você pode ter certeza de que não foi um redator ou um editor da Record ou da Band que resolveu chamar Kim Jong de exótico. Isso já veio pronto nas agências de notícias. Então é esse o tom de todas as coberturas.

Caderno G – E dentro da Globo?

Carlos Dorneles – A dificuldade é a mesma de qualquer outro órgão de imprensa. É muito complicado você dar uma visão que seja diferente da passada pelas agências. Quando isso acontece, dizem: ?O quê? Está todo mundo falando que o ditador da Coréia do Norte é um insano e você conta uma história diferente??. Um colega meu, de jornal, me disse: ?Peguei uma reportagem sobre Israel que era obviamente um informe oficial do exército israelense. Os palestinos não tinham história. Sobre os israelenses havia todo um drama?. Ele quis saber: ?O que eu faço? Corto do jornal??. É muito complicado decidir. O primeiro passo é ter um espírito crítico – o que já é difícil. O segundo é colocá-lo em prática. Difícil também. Mas acho que há sempre um meio-termo. Você não precisa romper com os limites da grande imprensa ou botar sua cabeça a prêmio para fazer um trabalho honesto. Nem é preciso fazer editoriais. Não há condições ou poder para isso. Mas você pode, no dia-a-dia, ir limpando essas informações, dando prioridade à notícia, não acreditando no que não tem fundamento jornalístico, no que não foi comprovado. Ou apenas tentando apurar os fatos – coisa que não se faz em cobertura internacional.

Caderno G – Em relação à cobertura dos conflitos entre judeus e palestinos, o medo de ser considerado anti-semita influencia muito o jornalista?

Carlos Dorneles – Como os maiores desastres da humanidade aconteceram com os judeus, isso é usado politicamente para calar vozes críticas, hoje, quando Israel já domina um povo há décadas. Absurdo. São fatos absolutamente distintos.

Israel deve ser cobrado duramente pelo que pratica hoje. Mas é evidente que o conservadorismo judaico usa isso com muita eficiência, inclusive no Brasil. Qualquer crítica é considerada anti-semitismo.

Caderno G – Seu livro é direcionado mais à opinião pública do que à imprensa. Por quê? A imprensa nunca muda?

Carlos Dorneles – Não tenho a ambição de muda-lá. Seria muita petulância. Mas quero dar minha contribuição. Em pesquisas de confiabilidade, a imprensa nunca aparece entre os primeiros. É aquele descrédito iconoclasta e incendiário: nada presta na imprensa, os jornalistas são todos uns abutres. O que eu quis foi dar subsídios para que as pessoas reflitam não só sobre os acontecimentos internacionais, mas sobre as entrelinhas dos jornais, para que saibam como consumir tanta informação. Aliás, sempre se diz que a informação é uma coisa ótima, quanto mais melhor. Tenho convicção de que a quantidade de informação não representa nada. Se fosse assim, o povo americano seria o mais sábio do mundo. Hoje, o acesso à informação é fantástico. Isso significa que as pessoas estão mais esclarecidas?

Caderno G – A melhor e a primeira crítica aos métodos da imprensa deveria, então, ser feita por ela própria?

Carlos Dorneles – A primeira, eu diria. E não é feita. A imprensa é muito corporativista, não admite críticas.

Caderno G – Sobre o Iraque, você vê futuro nessa guerra anunciada?

Carlos Dorneles – Bush está numa situação difícil. Ele quer a guerra de qualquer jeito. E quanto mais o tempo passa, mais difícil fica. Essa guerra é injustificável, um escândalo. A Coréia do Norte abertamente desafia os Estados Unidos. E, com os norte-coreanos, eles negociam. Qual a diferença? A Coréia do Norte tem uma bomba nuclear e o Iraque tem petróleo. São tratamentos diferenciados. Então o mundo começa a reagir contra a guerra. E, mesmo que encontrem armas no Iraque, isso já seria um absurdo. Por que a maior superpotência do planeta pode possuir armamentos de todo tipo e o Iraque não? Antes, os Estados Unidos prometiam guerra se o Iraque não permitisse a entrada dos inspetores. Tinham certeza de que Saddam nunca aceitaria isso. Mas aceitou. Agora, têm que achar outro motivo para a guerra. Então começam as provocações: fazem os inspetores entrar em palácios. Imagine uma comissão, no Brasil, mandada pelos Estados Unidos, entrando no Palácio do Planalto. É uma humilhação. Querem que alguém diga: ?Aí já é demais, aqui não pode entrar?. Pronto. É ali que estarão as tais armas nucleares. Bush é um perigo para o planeta. Mas, à medida que o tempo passa, vou ficando mais otimista. As coisas estão ficando mais difíceis para ele.

Caderno G – O que você achou da cobertura das eleições no Brasil e das manchetes sobre o nervosismo do mercado?

Carlos Dorneles – Mais uma vez, a imprensa serviu como massa de manobra do chamado mercado. Foi para o lado que ele definiu. Todas as manchetes econômicas eram ao sabor da sua vontade. Isso continua, mesmo depois das eleições: ?O mercado pede, quer, espera?. A chantagem do mercado foi imediatamente absorvida pela imprensa. Eu gostaria de escrever, para o futuro, um trabalho mais detalhado sobre a atuação do tal Mercado com M maiúsculo no Brasil. Quem é o mercado e quem é a imprensa nessa relação?

Caderno G – E o chamado ?poder paralelo? no Rio, como ele é tratado pela imprensa?

Carlos Dorneles – Você fala do tráfico? Sempre me questionei sobre o que seria o tal crime organizado. Para mim, é desorganizado. Mas a imprensa cria uma organização que, na verdade, não existe. O que tenho visto é chamarem de organizado o crime na favela. Uma garotada que morre muito cedo. O que eu chamo de crime organizado é aquele que nunca aparece. Mas a imprensa tem o hábito de transformar a bandidagem em mito. É o Comando Vermelho, o PCC. Como se fossem organizações extremamente eficientes. Transformam uma pessoa no maior dos bandidos. Daí matam aquele bandido e começa tudo de novo.

Caderno G – A imprensa, então, viveria da substituição constante de um mito por outro?

Carlos Dorneles – Em todos os setores, do esporte à economia.”

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