Terça-feira, 19 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

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Biaggio Talento

Por lgarcia em 04/12/2002 na edição 201

OS SERTÕES, 100 ANOS

"Bahia realiza simpósio para celebrar e discutir livro", copyright O Estado de S. Paulo, 1/12/02

"Uma ampla programação marcará as comemorações do centenário da publicação do livro Os Sertões na Bahia. Considerado um divisor de águas na literatura brasileira, principal instrumento de interpretação da Guerra de Canudos e da nossa nacionalidade, a obra será debatida, exaltada, cantada, interpretada e comentada no Simpósio Internacional Os Sertões: 1902-2002 – Permanência e Rasuras, entre 1.? e 7 de dezembro, em Salvador, Feira de Santana e Canudos.

A organização é do Centro de Estudos Euclides da Cunha da Universidade Estadual da Bahia (UnEB) com o apoio da Universidade Federal da Bahia (UFBa), da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS) e da Universidade Católica de Salvador (UCSal).

Durante a abertura solene do simpósio, hoje à noite na Reitoria da UFBa, serão homenageados quatro pesquisadores, que dedicaram suas vidas ao estudo da grande tragédia brasileira que teve como palco o sertão nordestino, os professores José Calasans, Renato Ferraz e Roberto Ventura e João de Régis, morador da região do conflito, todos já mortos.

Prefaciando a festa, contudo, ocorreu na semana passada, em Salvador, um pacote de eventos culturais relacionadas ao tema, como as leituras dramáticas de peças inspiradas na Guerra de Canudos pelos alunos da Escola de Teatro da UFBa, no Teatro Martim Gonçalves; a exposição Visões do Sertão, de imagens dos fotógrafos Claude Santos, Luciano Andrade e Maira Azevedo, no Aeroclube Plaza; e um show/palestra no câmpus da Universidade Católica com o compositor Gereba e convidados. Na ocasião ele lançou o livro/CD do show.

A partir de amanhã, os participantes dos debates vão trocar idéias procurando analisar, entre outros aspectos, as pressões que impulsionaram o processo de ?canonização? de Os Sertões, transformando-o em principal referência sobre a refrega de Canudos.

Entre os outros temas, pode-se destacar uma série de conferências a respeito da interpretação da obra por meio da música, palestras discutindo o imaginário criado à sua volta e mesmo de seu autor, um debate a respeito da possível relação entre literatura e história e também sobre a permanência de problemas sociais apontados por Euclides.

Multiplicidade – Conforme os organizadores, o simpósio buscará também ?redimensionar a multiplicidade de discursos que tece a malha textual da obra, através dos quais se constroem determinadas imagens e representações da nação?, da identidade e formação do povo nordestino. Além disso, os pesquisadores pretendem discutir o legado literário de Os Sertões: as diversas teses, obras e ?rasuras? que o livro inspirou.

Reflexão – Um dos aspectos mais interessantes do evento certamente será a visão de estudiosos internacionais sobre a obra euclidiana. O professor francês Antoine Seel que traduziu Os Sertões para a sua língua natal, participará de uma das mesas-redondas do simpósio, evento que tem como uma de suas propostas básicas ?atender à demanda de uma reflexão sobre a obra?.

Nem tudo será teoria e discussão de teses. No programa que ocorrerá na cidade de Canudos, os participantes visitarão o cenário da guerra, dentro do Parque Estadual de Canudos, podendo percorrer, entre outros locais, o Morro de Antonio Conselheiro e o açude de Cocorobó, sob cujas águas estão as ruínas do arraial destruído pelo exército republicano no final de 1897.

Um dos organizadores do simpósio, Manoel Neto, informou que 400 pessoas devem participar dos eventos. ?Pelo menos 40 pesquisadores e estudantes se inscreveram para apresentar textos e comunicações sobre o tema?, disse, reforçando que celebrar o centenário de Os Sertões é ?resgatar as razões de esse livro permanecer como uma referência na literatura brasileira até os dias de hoje?."

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"Livro cria uma nova expedição para Canudos", copyright O Estado de S. Paulo, 1/12/02

"Canudólogo de primeira hora, daqueles que não deixam apagar da memória nacional a história de Antonio Conselheiro e seus ?sequazes? (como dizia Euclides da Cunha), o escritor Oleone Coelho Fontes lançou na capital baiana (em meio às comemorações dos cem anos de Os Sertões) o livro Canudos – A Quinta Expedição (Editora Ponto e Vírgula, 435 págs.), seu quarto trabalho sobre o tema. Antes, escreveu Guerra de Canudos em Quatro Atos, Uauá, Terra dos Vagalumes e O Treme-Terra, este sobre a vida do coronel Moreira César, o implacável comandante da terceira expedição ao Arraial de Canudos no sertão baiano, massacrado pelos jagunços de Conselheiro.

Somente a quarta expedição do Exército, comandada pelo general-de-brigada Artur Oscar de Andrade, destruiria Canudos no fim de 1897. Oleone Coelho Fontes decidiu, com sua criatividade e o farto material de pesquisa que dispõe, organizar uma hipotética quinta expedição nesse seu novo livro. Ele tenta provocar a imaginação do leitor, passando a idéia de que toda fantasia do livro é uma realidade que testemunhou, ?como uma máquina de filmar na mão?, costuma dizer.

Seguiu à risca uma frase do seu professor, o pesquisador José Calasans, considerado um dos maiores especialistas sobre a Guerra de Canudos, segundo a qual o assunto é inesgotável. De fato, Canudos ainda rende estudos no Brasil e no mundo. Fontes tem conhecimento de várias dessas iniciativas: o coronel Durval Matos coleta dados para obra sobre tática, estratégia, armamento, abastecimento e assuntos afins sobre a guerra no sertão.

Existe A Guerra do Fim do Mundo, de Llosa e recentemente foi traduzido para o português o romance Veredito de Canudos, do autor húngaro Sandor Márai (Companhia das Letras, 160 págs., R$ 26) e, no próximo ano, o americano George Brown deverá publica o romance Rivers of Milk. E Fontes acrescenta outra obra importante que está sendo gestada, um trabalho sobre sociedades apocalípticas no mundo, com ênfase na turma de Conselheiro, do americano Thomas Oliver Beebee, professor de PennState.

Curiosamente, Beebee foi transformado em principal personagem da Quinta Expedição. Ele serve de fio condutor para a narrativa na qual Fontes usa uma técnica comum à novelística inglesa, o contraponto. Assim, correm duas histórias em paralelo, a do professor americano que a mando de um jornal canadense viaja para o sertão da Bahia em 1896, para estudar o fenômeno Canudos; e a empreitada do major do Exército Vaz Sampaio organizada em 1957, 60 anos após a guerra.

Vaz Sampaio reúne um punhado de personagens estranhos para refazer a jornada do fracassado coronel Moreira César, morto na terceira expedição a Canudos.

?Há, na urdidura, duas fantasias que se interpenetram e podem ser lidas independentemente?, diz o autor que levou quatro anos escrevendo a imaginária quinta expedição.

Crueldade – Natural da cidade de Senhor do Bonfim, próxima ao teatro da Guerra de Canudos, Fontes se impressionava com as histórias que seu pai lhe contava sobre o conflito. Quando leu Os Sertões, chorou em vários trechos diante da ?crueldade republicana? e se surpreendeu ao descobrir que Queimadas, cidade que havia morado na adolescência, foi um dos cenários do episódio de Canudos. A vontade de conhecer mais a fundo o assunto ocorreu quando teve a sorte de ser aluno do professor Calasans. A partir de então, fez várias viagens aos cenários da guerra e coletou muito material de pesquisa, que até hoje lhe rende livros e artigos sobre Canudos. Depois de Salvador, A Quinta Expediçccedil;ão será lançado em São Paulo no dia 10, no Restaurante Gato Que Ri, com noite de autógrafo do autor."

"Os Sertões Passo A Passo", copyright Folha de S. Paulo, 1/12/02

"?Os Sertões? foi publicado pela editora Laemmert em 2/ 12/1902, com 637 páginas, contendo desenhos de paisagens e mapas geológicos, botânicos e geográficos como ilustrações, além de fotografias do conflito feitas por Flávio de Barros. No dia seguinte, um artigo elogioso do crítico literário paraense José Veríssimo, publicado no ?Correio da Manhã?, o apontava como obra de literatura, história e ciência, iniciando um padrão de interpretação sustentado por muito tempo. Veríssimo censurava, porém, o abuso de termos técnicos e o rebuscamento do estilo. Seguiram-se artigos de Coelho Neto, em ?O Estado de S. Paulo?, e de Araripe Júnior, no ?Jornal do Commercio?, atacando o colega paraense e exaltando o livro. Euclides da Cunha havia voltado deprimido e doente da cobertura da campanha de Canudos e demorou quatro anos para concluir o livro. A maior parte foi redigida em São José do Rio Pardo (SP), onde o autor viveu de 1898 a 1901 executando um trabalho de engenharia pública (construção de uma ponte metálica em substituição a uma outra, destruída em uma enchente). É o relato mais famoso da Guerra de Canudos (novembro de 1896 a outubro de 1897), que terminou com o massacre pelas Forças Armadas do povoado liderado por Antônio Conselheiro (1830-97).

Entre as principais edições da obra de Euclides estão a de Alfredo Bosi, com texto cotejado e estabelecido por Hersílio Ângelo (ed. Cultrix, 1975), e a ?Edição Crítica de ?Os Sertões? (Brasiliense, 1985), por Walnice Nogueira Galvão, que é considerada a edição de referência. Walnice Galvão também organizou, com Oswaldo Galotti, a ?Correspondência de Euclides da Cunha? (Edusp, 1997), com quase 400 cartas do escritor. Em 2001, saiu outra edição -?Os Sertões – Campanha de Canudos? (Ateliê Editorial/Imprensa Oficial do Estado/Arquivo do Estado)-, em volume alentado, embora sem pretender ser crítica, organizada por Leopoldo M. Bernucci.

A obra-prima de Euclides é dividida em três partes: ?A Terra?, ?O Homem? e ?A Luta?.

A Terra Estudo da natureza que simula um vôo panorâmico sobre o planalto para descrever a geografia brasileira desde as escarpas do litoral ao sul, passando pela beira-mar do Rio de Janeiro, Espírito Santo e Bahia rumo à bacia do rio São Francisco, até o vale do rio Vaza-Barris, à margem do qual se encontrava a comunidade de Belo Monte. ?O planalto central do Brasil desce, nos litorais do Sul, em escarpas inteiriças, altas e abruptas?.

Além da explanação do clima semi-árido e da caatinga, Euclides aborda o problema das secas da região. Espécie de versão laica do ?Gênesis?, a primeira parte seria uma recriação de ?mundos revoltos e instáveis, varridos por mares pré-históricos e labaredas bíblicas?, em que o autor desce às profundezas do solo e recua até a origem da região e seus habitantes ?para explicar a irrupção quase vulcânica do Conselheiro e de seus seguidores?.

Outra iconologia que Euclides obtém na comparação entre a natureza e Canudos é a antecipação, pelo cenário árido, da tragédia: assim, as cabeças-de-frade estendidas sobre as pedras criariam ?a imagem singular de cabeças decepadas e sanguinolentas jogadas por ali, a esmo, numa desordem trágica?. Para sustentar a profecia de Conselheiro, segundo a qual o sertão viraria mar, apóia teorias controversas sobre a existência pré-histórica de mar na região de Canudos. A propósito da passagem ?em 1896 há de rebanhos mil correr da praia para o sertão; então o sertão virará praia e a praia virará sertão?, Roberto Ventura sublinha que, designando zonas úmidas entre o litoral e o semi-árido, ?praia? simboliza uma ?terra de promissão, capaz de abrir as portas do paraíso?.

O Homem Estudo do sertanejo ou, em suas palavras, dos ?traços mais expressivos das sub-raças sertanejas?, tributário que era de teorias deterministas da época. Euclides afirmava que os sertanejos estavam destinados ao desaparecimento ante as exigências da civilização: ?Retardatários hoje, amanhã se extinguirão de todo?.

Tendo por base concepções racistas de teóricos como o austríaco Ludwig Gumplowicz, Euclides apresentava uma visão fatalista do Brasil como resultado dos malefícios da mestiçagem. Os ?mulatos? do litoral seriam desequilibrados por resultarem da mistura entre brancos e negros, e os ?curibocas? do sertão apresentariam vantagem em relação àqueles devido ao isolamento histórico que contribuiria em sua evolução racial e cultural: ?O sertanejo é, antes de tudo, um forte. Não tem o raquitismo exaustivo dos mestiços neurastênicos do litoral?.

A Luta Narrativa da guerra de Canudos propriamente dita, em que o autor evidencia o fanatismo de ambas as partes: ?A luta pela República, e contra os seus imaginários inimigos, era uma cruzada?. Os soldados cultuavam a memória do marechal Floriano Peixoto assim como os jagunços aclamavam Antônio Conselheiro. Euclides observava tudo do alto do morro, ao lado dos oficias do alto comando e da comissão de engenharia: ?Aplaudia-se. Pateava-se. Estrugiam bravos. A cena -real, concreta, iniludível- aparecia-lhes aos olhos como se fora uma ficção estupenda, naquele palco revolto, no resplendor sinistro de uma gambiarra de incêndios?.

A descrição da guerra encerra um paradoxo: o de, apesar de pretender-se denúncia do crime cometido em Canudos, não relata o massacre dos prisioneiros e a destruição da cidade, que seriam o mote principal de sua acusação contra as Forças Armadas. O autor argumenta tratar-se do inenarrável: ?Forremo-nos à tarefa de descrever os seus últimos momentos. Nem poderíamos fazê-lo. Esta página, imaginamo-la sempre profundamente emocionante e trágica; mas cerramo-la vacilante e sem brilhos?.

Fonte: ?Folha Explica ?Os Sertões? (2002, Publifolha), de Roberto Ventura."

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