Terça-feira, 25 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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PRIMEIRAS EDIçõES > GUERRA NA MÍDIA

Bill Carter e Felicity Barringer

Por lgarcia em 03/10/2001 na edição 141

GUERRA NA MÍDIA

"Liberdade de expressão ameaçada", copyright Jornal do Brasil / The New York Times, 29/09/01

"A onda de orgulho nacional que tem varrido os Estados Unidos depois dos ataques terroristas do dia 11 deu partida a um novo e mais difícil debate sobre o equilíbrio entre segurança nacional, liberdade de expressão e patriotismo. No caso mais badalado e divulgado, o apresentador de um programa de entrevistas televisado para toda a nação foi rejeitado por muitos dos seus anunciantes e criticado pelo porta-voz da Casa Branca, por fazer o que alguns consideraram uma observação antipatriótica sobre soldados americanos.

Mas o debate também tem acontecido em palcos menores. Um professor universitário no Sudoeste do país foi ameaçado com ação disciplinar devido a comentários feitos sobre a tragédia do World Trade Center e pelo menos dois jornalistas do interior perderam o emprego depois de criticar o presidente.

Um programa das obras de um compositor alemão foi cancelado em Nova York, depois que ele fez comentários que sugeriam que a destruição do World Trade Center poderia ser considerada ?a maior obra de arte imaginável para todo o cosmos?.

Floyd Abrams, do escritório de advocacia Cahill Gordon & Reindel e especialista em assuntos relacionados à Primeira Emenda à Constituição americana, disse que, em tempos de crise, os EUA freqüentemente debatem problemas como patriotismo e liberdade de expressão. ?Tempos difíceis para o país tendem a ser também difíceis para a Primeira Emenda?, declarou Abrams. ?Quando nos sentimos ameaçados, em perigo, a Primeira Emenda (que trata da liberdade de expressão) ou seus valores às vezes ficam subordinados a outros interesses.?

Cuidado – Um dos exemplos mais visíveis desse debate acalorado envolveu uma briga entre a Casa Branca e Bill Maher, apresentador do programa Politically Incorrect (Politicamente incorreto). Na semana passada, Maher disse que os seqüestradores não eram covardes mas que era covardia os Estados Unidos lançarem mísseis de cruzeiro contra alvos a milhares de quilômetros de distância.

Alguns dos seus principais anunciantes suspenderam imediatamente o patrocínio ao programa, que se propõe ser controvertido. Depois, ele pediu desculpas pelas declarações. Na quarta-feira, o porta-voz da Casa Branca, Ari Fleischer, criticou Maher, dizendo sobre as organizações noticiosas e todos os americanos que, em tempos como estes, ?as pessoas têm de prestar atenção ao que dizem e ao que fazem?.

Quando a Casa Branca liberou depois a cópia oficial do pronunciamento de Fleischer, a parte dos comentários recomendando que as pessoas ?prestem atenção ao que dizem? não foi incluída. Como isso provocou outra série de discussões sobre os comentários do porta-voz, Anne Womack, sua assistente, declarou que a cópia realmente divergia do pronunciamento, chamando isso de ?erro de transcrição?.

Anteriormente, Flescher tinha mencionado as críticas do presidente George W. Bush ao deputado republicano John Cooksey, devido a observações consideradas depreciativas para os árabes. À noite, Fleischer afirmou que sua sugestão de que as pessoas ?prestem atenção ao que dizem? se referia a Maher e Cooksey.

Cancelamento – Karlheinz Stockhausen, o compositor alemão, se desculpou por observações que fez em Hamburgo depois dos ataques, dizendo: ?Em nenhum momento pensei ou senti da maneira como minhas palavras agora estão sendo interpretadas na imprensa.? O Conjunto Ossia da Escola de Música de Eastman cancelou uma apresentação da obra de Stockhausen Stimmung, marcada para 7 de novembro.

Foi rápida e furiosa a reação da comunidade quando colunistas de jornal em Texas City, no Texas, e Grants Pass, no Oregon, criticaram as ações do presidente no dia dos ataques. Tom Gutting, colunista do Texas City Sun, escreveu que o presidente estava ?fugindo pelo país como uma criança assustada, procurando refúgio na cama de sua mãe, depois de ter um pesadelo?.

O jornal recebeu dezenas de cartas e telefonemas. Les Daughtry Jr., editor do Sun, depois pediu desculpas na primeira página, dizendo que a coluna o deixara aborrecido. ?O artigo de opinião a que me refiro não era adequado para se publicar neste momento vivido por nosso país e nossos dirigentes.? Gutting perdeu o emprego.

Fuga – No Oregon, Dan Guthrie, de 61 anos, disse na segunda-feira que foi chamado ao escritório de Dennis Mack, editor de The Daily Courier em Grants Pass, e demitido por causa de uma coluna que criticava o presidente, dizendo que ele ?fugiu precipitadamente? após os ataques.

Numa reação mais sutil à quebra da frente unificada, correspondentes de jornais e cadeias de televisão disseram que autoridades do governo pararam de responder a seus telefonemas por algum tempo, depois que eles se mostraram céticos ante a afirmação da Casa Branca de que o Air Force One tinha sido ameaçado por terroristas. A história foi contestada em vários noticiários desta semana e a Casa Branca parou repentinamente de falar no assunto.

A suscetibilidade do governo Bush face à cobertura da crise esteve em evidência nesta semana, quando o porta-voz do Departamento de Estado, Richard Boucher, criticou a Voz da América por desafiar os desejos do Estado e transmitir um informe baseado numa entrevista do mulá Mohamed Omar, o misterioso líder da milícia talibã, que governa o Afeganistão."

 

"Comediante politicamente incorreto se desculpa", copyright O Globo, 29/09/01

"A melhor coisa do programa ?Politicamente incorreto?, veiculado pela rede ABC de segunda à sexta-feira, à meia-noite, é que os convidados não falam deles mesmos, muito menos de seus projetos. Vão para discutir um tema proposto pelo apresentador, o comediante Bill Maher – mas ele mesmo ainda não foi tema do programa desde que, no último dia 17 chamou as Forças Armadas americanas de covardes, em comparação com a suposta bravura dos seqüestradores dos aviões causadores das tragédias em Washington e Nova York.

O comentário, mais infeliz que politicamente incorreto, atingiu o próprio Maher: seus dois maiores anunciantes, Federal Express e Sears, cancelaram os respectivos contratos, e 17 estações retransmissoras, afiliadas da ABC, suspenderam a veiculação do programa.

Maher divulgou um pedido de desculpas e foi ao maior número possível de programas de rádio e TV para explicar o que exatamente quis dizer quando afirmou: ?Nós temos sido os covardes. Lançar mísseis a uma distância de quatro mil quilômetros, isso é covardia. Ficar dentro de um avião quando acerta um prédio, diga o que disserem sobre isso, não é covardia.?

O comediante desculpou-se, divulgando um comunicado no programa do último dia 21. ?De jeito nenhum eu quis dizer que os homens e as mulheres de uniforme que defendem nossa nação não são corajosos e valentes, e ofereço minhas desculpas. Minha crítica era destinada aos políticos que, temendo a reação pública, não permitiram aos nossos militares fazerem o trabalho que estes obviamente estão prontos a fazer, querendo fazer e são capazes de fazer.?"

 

"O gosto de cada um", copyright Folha de S. Paulo, 29/09/01

"Pergunta frequente em entrevistas e questionários que aparecem por aí, nunca teve resposta consensual. O leitor deve pautar o jornalista? Em outras palavras: o jornalista deve adivinhar o que o leitor deseja ler?

Evidente que sou o último ser humano na face da Terra que terá uma resposta para a questão. Cabe ao político agradar ao eleitorado, temos exemplo disso em certos profissionais que, mesmo ocupando a presidência da República, variam de opinião conforme o momento e o auditório.

O jornalista não tem um auditório definido, compactado num recinto contínuo. Daí fica difícil para ele captar o que os leitores desejam ler. O orador tem esta vantagem: pode cheirar o clima e dizer exatamente o que o pessoal quer ouvir.

Há regras, contudo, que podem ser observadas por oradores, por políticos e por jornalistas. Uma delas foi enunciada por Dickens. Quando não existe órfão na história, ele até que é um excelente romancista.

Em ?Mr. Pickwick?, narra que o seu personagem, líder do clube que tinha o nome dele, chega a uma cidade e encontra o povo dando vivas a alguma causa ou pessoa. Pickwick começa a dar vivas também, mas seus discípulos estranham: ?Mestre, o senhor sabe o que está vivando??.

O mestre responde: ?Quando encontrares uma multidão dando vivas, dê vivas com ela?. O discípulo argumentou: ?Mas, se encontrarmos uma multidão dando vivas e outra multidão dando morras, qual delas devemos seguir??.

Pickwick não se apertou: ?Grite com aquela que estiver gritando mais alto?.

Nem sei por que lembro isso. Com o atentado do dia 11, todo mundo gritou, cada qual procurando gritar mais e mais alto. Alguns leitores começaram a reclamar contra o assunto único. Um deles chegou a pedir que eu voltasse a falar dos ossos da Dana de Teffé. Há gosto para tudo."

    
    
                     
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