Sexta-feira, 15 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

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Biografias e história de vida

Por lgarcia em 19/08/2003 na edição 238

EM BUSCA DO OUTRO

Alberto Dines


Comunicação apresentada ao Seminário Internacional "Memória, Rede e Mudança Social", realização do Instituto Museu da Pessoa.Net e Sesc São Paulo, de 12 a 14/8/03, no Sesc Vila Mariana (São Paulo)


A morte de Roberto Marinho pode servir de ilustração ou gancho para esta pequena introdução. Tivemos obituários, opiniões, testemunhos, documentos fotográficos mas não tivemos biografias. Uma formidável massa de informações pessoais, profissionais, políticas e sociais sem contudo chegar perto de uma biografia

Embora obituários sejam acionados pela morte recente e, biografias, por qualquer pretexto (inclusive a morte), ambos são histórias de vida. Os gêneros se sobrepõem e se confundem porque o objeto de ambas são os percursos humanos. E nestes percursos devem estar registrados os seguintes elementos:

** Dados essenciais sobre a figura, inclusive ancestrais.

** Passagens cruciais da sua existência, inclusive formação;

** Feitos e obras;

** Traços pessoais marcantes.

Mas o que autentica uma biografia é a sua capacidade de produzir a faísca que dará vida ao ser humano. A biografia não é uma coleção de documentos arranjados sob forma literária, é um coro de vozes para fazer falar a outra voz, a do biografado.

Em 1995, o Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor) organizou no departamento de Lingüística e Literatura da Unicamp um seminário de pós-graduação com o mesmo título ? "Em busca do outro".

Atrás do título havia uma premissa ? a tal faísca só pode ser produzida através das faíscas que a própria vida nos deu. A busca do outro só se faz a partir de nós mesmos.

Crítico veemente

O biografismo brasileiro ou luso-brasileiro não se desenvolveu por razões que a antropologia poderia estudar: a sociedade tribalista, fechada, não admite o Outro, só admite iguais. E desta forma nosso biografismo foi prensado entre a apologia ou hagiografia e a iconoclastia. Ou somos reverentes ou irreverentes, impolutos ou vilões. Quando digo nós refiro-me a nós, biógrafos ou biografados.

Mirrou a nossa galeria de vultos ilustres, menos por falta de atributos de nossa gente e mais pelos partidarismo que encosta no paredão aqueles dos quais divergimos ? ou simplesmente não gostamos ? e coloca aqueles com os quais concordamos no pedestal da perfeição.

Esta penúria não significa que devemos considerar insignificante a escola biográfica que floresceu até os anos 60 e 70 do século passado: Pedro Calmon, Raimundo Magalhães Jr., Luis Viana Filho, José Honório Rodrigues ? para citar apenas alguns ?, magníficos biógrafos e magníficos historiadores.

Exemplo desta aversão aos grandes vultos é o caso de Rui Barbosa, que talvez tenha tido mais biógrafos-detratores do que biógrafos-biógrafos.

O patrono do nosso jornalismo, Hipólito José da Costa, antes mesmo de ser aquinhoado com alguma evocação positiva foi vítima de uma sucessão de aleivosias de concorrentes mais longevos ou pósteros, enciumados com os seus feitos e glórias [volume XXX, tomo I de "Hipólito da Costa e o Correio Braziliense"].

Lembro que Antônio Houaiss ficou felicíssímo quando, em meados de 1980, procurei-o no Rio para falar-lhe do meu projeto para uma biografia de Stefan Zweig. "É preciso resgatar o gênero", disse ele. "Até que enfim aparece um jovem [eu era jovem naquela época] disposto a fazer uma biografia moderna, sobre tema contemporâneo".

Quando lancei Morte no Paraíso fui convidado para almoçar com um jornalista famoso e best seller.. Ele queria apenas que falássemos sobre biografias. Estava escrevendo um livro sobre uma figura da nossa história recente mas o concebera como "reportagem", e então percebia que poderia desenvolvê-lo como "biografia". Foi um tremendo sucesso embora continuasse sendo apenas uma reportagem ou, no máximo, um "flagrante biográfico".

Embora a biografia tenha começado no Velho Testamento e com os gregos, continuando com os romanos e dominado não apenas a literatura mas sobretudo a historiografia européia, ao que eu saiba existem na bibliografia brasileira apenas três estudos teóricos sobre biografias: o de Luis Viana, A verdade na biografia, de 1945; e a Contribuição para uma sociologia da biografia, de Gilberto Freyre, de 1978 ["Narrativa documental e literária nas biografias", Alberto Dines, Ana Miranda, Fernando Morais, Jorge Caldeira e Roberto Ventura, revista "Manguinhos", vol. 2, n? 2, julho-outubro de 1995].

Mais recentemente, mestre Antonio Cândido escreveu dois brilhantes e brevíssimos ensaios denominados "Os limites da biografia" e "Perenidade da Biografia", nos quais descortina aspectos fundamentais do gênero e insinua um dos defeitos do biografismo: substituir o exame dos processos históricos pela galerias dos varões ilustres [Antonio Cândido, "Remate de males", edição especial, Unicamp, Campinas, 1999].

O mais veemente crítico das biografias foi Sigmund Freud. Começou falando mal das biografias e biógrafos em 1910, quando ainda não era uma unanimidade, e continuou deblaterando em 1930 e 1936, embora tenha sido assunto de uma biografia assinada por um dos mais famosos biógrafos europeus, Stefan Zweig. Acabou sucumbindo à veneração do autor.

Atrás dos anônimos

O mais instigante nesta aversão de Freud para com as biografias é que ele escreveu pelo menos três, duas delas marcos da literatura psicanalítica: o estudo sobre Leonardo da Vinci e a ficção histórica em torno de Moisés, na qual fez o magistral estudo sobre o monoteísmo. A terceira experiência de Freud com as biografias deveria servir de exemplo para tudo o que ele próprio nelas criticou. O perfil do presidente americano Woodrow Wilson, em colaboração com William Bullit, é preconceituoso, parcial, engajado e pernicioso [Thomas Woodrow Wilson, um estudo psicológico, Graal, 1984].

A má-vontade de Freud com biografias e biógrafos tinha uma razão quase estratégica ? ele precisava diferenciar a pesquisa biográfica com objetivos literários ou históricos do método científico das rememorações e associações sobre o qual fundamenta-se a psicanálise.

Esta foi uma de suas únicas derrotas: a biografia que detestava como gênero gerou a psico-história, uma ferramenta essencial de pesquisa histórica; gerou também a biografia em grupo como um método terapêutico; e gerou, sobretudo, a biografia como fator de integração ou, se preferirmos uma palavra da moda, como inserção social.

A biografia democratizou-se. Hoje ela deixou de interessar-se apenas pelos Grandes do Mundo e está à espreita do joão-ninguém. Deixou celebridades e agora vai atrás dos anônimos.

Sob a égide do Museu da Pessoa estamos aqui "Em Busca do Outro". Na verdade estamos aqui "Em busca de Nós Mesmos".

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