Domingo, 16 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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Bioterrorismo em empresas jornalísticas

Por lgarcia em 31/10/2001 na edição 145


DOSSIÊ

Beatriz Singer

Informações apuradas nos sítios CNN.com, MSNBC.com, Time.com, Sun-Sentinel, Village Voice e The Associated Press.

Os casos da AMI

No dia 1o de outubro, Ernesto Blanco, funcionário de 73 anos da American Media Inc. (AMI), em Boca Raton, Flórida, foi hospitalizado com pneumonia. Algumas horas mais tarde, Robert Stevens, editor fotográfico do tablóide The Sun e colega de Blanco, chegou ao hospital com febre alta, vômitos e confusão mental. Stevens, de 63 anos, havia sido contaminado pelo antraz e estava sendo tratado com penicilina intravenosa, mas sua situação deteriorou rapidamente.

A AMI chamou o Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA (CDC) para saber se seu prédio e cercanias deveriam ser isolados ? ao que o CDC diz não. Todos continuaram trabalhando normalmente até que, na tarde de 4 de outubro, o Centro Médico JFK (que internou Stevens) e o Departamento de Saúde da Flórida convocaram uma coletiva de imprensa para confirmar um paciente com antraz. No dia 5 de outubro, Stevens morreu e tornou-se a primeira fatalidade do que passaria a ser considerado bioterrorismo nos EUA (o último caso de antraz no país havia ocorrido em 1976).

Dois dias após a morte do fotógrafo, o CDC ordenou o isolamento do prédio devido à detecção de esporos da bactéria no teclado do computador da vítima e nas vias nasais de Blanco. Em 8 de outubro, funcionários da AMI faziam fila no Centro Médico Delray para se submeterem a testes e receber antibióticos para um período de duas semanas.

Quando muitos achavam que a situação estava em vias de se normalizar, nova surpresa: em 10 de outubro o FBI anunciou que os testes num terceiro empregado da AMI deram positivo para exposição à bactéria. A partir daí, o caso da editora de tablóides de supermercado da Flórida se tornaria oficialmente investigação criminal.

No dia seguinte, investigadores encontrariam mais esporos de antraz no prédio da AMI. A terceira vítima, Stephanie Dailey, tem 36 anos, está tomando os antibióticos e não apresenta sintomas da doença. Seguidos de Stephanie, em 13 de outubro, outros cinco funcionários da American Media Inc. registravam presença de antraz.

Em 16 de outubro, a AMI decidiu abandonar definitivamente o prédio e adquirir novas instalações.

O caso da NBC

Em 18 de setembro, envelopes contendo cartas e substâncias granulares foram enviados à NBC News em Nova York, ao New York Post e ao gabinete do senador Tom Daschle, líder da maioria democrata do Senado americano. Todas as correspondências originaram-se de Trenton, no estado de Nova Jersey. Dois dias depois, um envelope com carta e pó branco foi remetido à NBC, vindo de St. Petersburg, na Flórida.

No dia 25 de setembro, uma funcionária da NBC anunciou ter recebido correspondência de St. Petersburg endereçada ao âncora Tom Brokaw, e postada de 20 de setembro. O envelope continha o pó branco, mas exames do FBI deram negativo para antraz.

Em 1o de outubro, a assistente de Brokaw, apresentador do programa Nightly News da NBC, recebeu prescrição do antibiótico ciprofloxacin ao apresentar sintomas de antraz ? como febres e erupções cutâneas. No dia 12 do mesmo mês, uma biópsia da pele da funcionária que costuma abrir as correspondências do jornalista revelou que ela foi exposta ao antraz, tornando-se, cronologicamente, o terceiro caso de contaminação confirmado em pessoas do meio jornalístico. Neste dia, as instalações da NBC foram evacuadas enquanto investigadores realizam testes.

Em 13 de setembro, a equipe da NBC, aturdida, recebeu a notícia de que a carta ameaçadora enviada a Brokaw deu positivo nos exames de antraz. Algumas horas depois, um segundo funcionário da NBC News que manuseou o envelope contaminado apresentou sintomas da doença. No dia seguinte, o número de indivíduos expostos ao antraz nos EUA subiu para 12. Três novos casos de antraz foram confirmados ? nenhum de pessoas da área midiática, mas todos envolvidos nas investigações do prédio da NBC em Nova York.

O caso da ABC

Em 28 de setembro, o filho de sete meses de uma produtora da ABC em Manhattan passou parte do dia nas instalações da emissora. Pouco mais tarde, a criança desenvolveu erupções na pele. Após hospitalização, o diagnóstico indicou a presença de antraz cutâneo.

A emissora esperou até 15 de outubro para anunciar publicamente a contaminação da criança. David Westin, presidente da ABC News, afirmou ser possível que a criança tenha sido infectada em outro lugar.

O caso da CBS

O ataque bacteriológico chegou à terceira maior emissora dos EUA em 18 de outubro. Uma assistente de Dan Rather, âncora da CBS News, teve diagnóstico positivo para a forma cutânea da contaminação, em Nova York. A funcionária, uma jovem cuja função é cuidar das correspondências de Rather, está tomando Cipro e responde bem ao antibiótico. A polícia nova-iorquina ainda não sabe exatamente como a assistente contaminou-se com o antraz.

Por precaução, as sucursais de Nova York da CBS News e da ABC fecharam seu setor de correspondências. A matriz da CNN, em Atlanta, fez o mesmo. Além disso, a CBS afirmou que todos os prédios da Viacom, dona da CBS, também fecharam o setor de correspondências.

O caso do New York Post

Em 19 de outubro foi a vez do New York Post. Um funcionário desenvolveu a forma cutânea de antraz, tornando-se o oitavo americano a contrair a doença. Dois dias depois, o Post informa que a carta contaminada que chegou à redação é quase idêntica às enviadas a Brokaw e Daschle.

NBC e NY Post, parte II

Até sábado, 27 de outubro, os últimos casos de antraz em pessoas da mídia (ou a ela ligadas) oficialmente divulgados foram o de um segundo funcionário do tablóide New York Post, e de mais um empregado da NBC News ? respectivamente nos dias 24 e 25.

Ameaça ao New York Times

Da assombrosa estatística de ataques de antraz à mídia ? das 14 contaminações confirmadas, todos os infectados estão ligados à imprensa ou ao serviço postal ? nem o New York Times escapou. Em 14 de outubro, Judith Miller, repórter especializada em guerra bacteriológica, escreveu, em primeira pessoa, sobre sua experiência com uma carta mal-intencionada que chegou à redação em 12 de outubro. Judith é autora do livro Germs: Biological Weapons and America’s Secret War, sobre armas biológicas como o antraz.

A carta remetida ao Times foi escrita a mão e enviada de St. Petersburg, na Flórida. A letra era muito semelhante à da carta enviada à NBC, cujo exame deu positivo para antraz. No entanto, análises minuciosas revelaram não ter havido qualquer tipo de bactéria ou vírus na correspondência.

    
    
                     

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