Quarta-feira, 22 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

PRIMEIRAS EDIçõES > CASA DOS ARTISTAS

Boçalidade multiplicada

Por lgarcia em 19/12/2001 na edição 152

CASA DOS ARTISTAS

Cláudio Weber Abramo (*)

Que diabo é essa tal de Casa dos artistas? A julgar pelo espaço que a mídia impressa dedica ao assunto, deve ser um baita troço importante. Faço a observação porque sinto como se me faltasse alguma dimensão fundamental de minha cidadania. Só se fala de uns sujeitos e de umas fulanas em coabitação. Se são "artistas", não sei. Artistas, para mim (e para ficar nas manifestações mais populares), são Sofia Loren, Eric Clapton, Benedito Lacerda, Count Basie, Picasso, Chico Buarque, gente assim. Duvido que esses se dispusessem à invasão de privacidade que, intuo, motiva o programa.

Seja como for, a intensa cobertura que a mídia tem proporcionado ao programa me faz refletir, pela enésima vez, que não entendo mesmo nada de jornalismo. Pois, se me fosse dado decidir o que publicar e o que derrubar numa dada edição, minhas primeiras candidatas seriam matérias que tratassem desse tema. O pauteiro seria proibido de listar o assunto entre as prioridades do dia seguinte, men&cceccedil;ões na reunião de primeira página seriam coibidas, a insistência seria punida com rigor oriental.

O que faz um editor decidir seguir semelhante assunto? Decerto se dirá que a motivação é dada pela audiência. Bom, e daí? No máximo, isso mereceria notinha numa coluna especializada em audiência televisiva: por volta de uns três centímetros e estamos conversados. Decerto aquilo que os "artistas" da tal Casa dizem uns aos outros não será de molde a nos fazer refletir sobre a vida, ou a sociedade, ou a política, ou qualquer coisa medianamente relevante. Tampouco terão importância os sentimentos dos parentes do pimpolho que aparece na TV, ou o contrato que esta ou aquela starlet emplacou ou emplacará por conta de ter participado ou poder vir a participar da promiscuidade em tela.

Visto de outro ângulo: será que algum leitor da Veja, IstoÉ, Época, Estadão, Folha ou Globo (se é que este último cobre o programa) deixaria de comprar ou assinar a publicação caso a Casa dos Artistas simplesmente não fosse mencionada? Creio (ou ao menos meus preconceitos me fazem acreditar nisso) que ao menos uma parte dos leitores deixaria de consumir um produto informativo que omitisse sistematicamente a campanha bélica no Afeganistão, ou a Intifada, ou a correção na tabela do Imposto de Renda, ou as últimas manobras sucessórias. Mas um bobajal televisivo qualquer?

Assim, repito: de onde raios sai a decisão de cobrir o assunto? Não sendo também de modo algum descabido refletir sobre os efeitos que a cobertura intensa têm sobre a própria audiência do programa. Sendo ao menos plausível imaginar que a cobertura aumenta a audiência, resulta a instalação de um evidente círculo vicioso, em que ganham colunistas que não têm o que dizer, publicitários que programam anúncios a serem veiculados ali, o dono da TV em pauta, alguns profissionais altamente situados na emissora, as mencionadas starlets e rapazotes ? mas não ganha o público, que resulta ainda mais boçal do que já é.

(*) Secretário-geral da Transparência Brasil <http://www.transparencia.org.br>. E-mail: <cwabramo@uol.com.br>

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