Domingo, 19 de Maio de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1037
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Boas-vindas aos “Caçadores de Imagens”- mas cuidado com os vídeo-paparazzi!

Por Alberto Dines em 20/04/1997 na edição 20

As vídeo-denúncias de Diadema (SP) e da Cidade de Deus (Rio) consagram a abertura de um novo capítulo na história do telejornalismo brasileiro. As novas tecnologias e a abertura do mercado aos produtos importados forçaram o estabelecimento de uma ponte interativa – para usar a expressão da moda – entre os emissores de imagens e o destinatários das imagens.
A apregoada participação, numa sociedade caracterizada pela exclusão, acabou ocorrendo pela via da violência e do protesto. Com dois mil reais de equipamentos e um conhecimento mínimo de luz, câmera e som, qualquer cidadão, jovem ou velho, ágil ou imobilizado – tal como o personagem da Janela Indiscreta de Hitchcock -, pode colher imagens poderosas capazes de abalar o mundo.

E ganhar uma grana, nada desprezível (Veja, 1491, sobre os Caçadores de Imagens)
A democratização da informação pode finalmente estar sendo inaugurada sem que fosse preciso assinar qualquer manifesto. Mas, atenção para o inevitável efeito perverso: se as emissoras não estabelecerem um código muito claro para o aproveitamento da vídeo-denúncia, breve teremos uma multidão de vídeo-paparazzifuxicando a vida alheia ao invés de servirem de agentes sociais para desmascarar desmandos e violências (ver TV: sai o governo, entra o cidadão.

A marcha do MST, algumas distorções de edição

* Veja finalmente deixou as sandálias de verão e calçou sapato e meia. Já pode ser lida novamente. A edição 1491 contém contribuições jornalísticas relevantes e sérias como a matéria sobre os sem-terra, trabalho de campo meritório, sem paixões ou “leituras” ideológicas. Desdramatiza o fenômeno político mais importante dos últimos anos e apresenta-o com naturalidade. Mas a chamada de capa – “A Marcha dos Radicais” – nada tem a ver com o tom sereno da esmerada matéria. Estes artifícios de edição para contentar as duas facções não servem à credibilidade da instituição jornalística. Ou os sem-terra estão seriamente empenhados em resolver o problema intocado da reforma agrária ou são radicais e baderneiros. A capa sugere esta hipótese mas nas páginas internas mostra-se algo diferente.

* Algo parecido aconteceu em O Globo (1ª página, domingo, 13/4). A manchete diz: “Exército e PF começam a desarmar fazendeiros”. O subtítulo complementa: “Operação com 940 homens também reprimirá tráfico e contrabando”. A foto logo abaixo é da marcha dos sem-terra a caminho de Brasília. Mas o texto da chamada volta ao tema da manchete: trata-se de uma operação no Pará. Embora os dois fatos refiram-se à questão fundiária, não se relacionam entre si. A junção pode induzir o leitor desavisado a imaginar a iminência de um confronto que a matéria não aventa.
Este OBSERVATÓRIO procura não entrar no terreno das tecnicalidades, deixando-o para os foros apropriados. Mas nestes casos, por opção ou descuido, podem produzir ilações ou desvios que afetam a compreensão dos acontecimentos e desservir a sociedade.

Atenção, marqueteiros:
vem aí nova alta de papel

Deu na Gazeta Mercantil com chamada na 1ª e matéria de página inteira (10/4): Os estoques americanos de papel de impressão foram reduzidos em um milhão de toneladas, os fabricantes esperam a inevitável pressão de compra e aumento de preços. A oferta ainda é grande mas a ansiedade pode reduzi-la drasticamente.
Portanto, cuidado com a tentação dos recordes históricos de circulação, os cadernos descartáveis, as fotos de arquivo ampliadas sem propósito (só para atender ao “projeto” visual).
Se os preços mundiais do papel vão subir e se, no caso do Brasil, acabar o financiamento às importações estamos com uma crise delineada para o 2º semestre. A terapia é conhecida: corta-se a arraia-miúda (reportagem) e contratam-se meia dúzia de celebridades.
Voltaremos à questão do financiamento da importação de papel, merece.

Notícias do Rio:
desanimadoras

* Pela 2ª vez em menos de um ano, alunos de jornalismo da PUC-Rio e da Facha (Faculdades Hélio Alonso) fretam um ônibus e vêm passar alguns dias em São Paulo para conhecer o mercado e detectar oportunidades de emprego na metrópole mais saturada do país.
Se, por um lado, a idéia denota louvável esforço e espírito de iniciativa por parte dos futuros comunicadores, revela também um quadro sombrio das perspectivas de expansão do mercado jornalístico nas cercanias da Cidade Maravilhosa.
* A mídia local, às vezes, parece estar firmemente decidida a fazer do Rio versão meridional de Miami. Exemplo é a manchete dominical do Jornal do Brasil em duas linhas de oito colunas – mais destaque não poderia haver – sobre uma desavença entre os ministros Malan e Paulo Renato… ocorrida dez dias antes e equacionada logo em seguida.
Neste cenário não estranha que Ari de Carvalho, de O Dia, seja considerado guru do jornalismo.

Violência e idolatria
pelas armas de fogo

O país ainda não esqueceu a dolorosa sensação de vergonha produzida pela exibição dos vídeos sobre as PMs. A questão da violência está na ordem do dia de uma sociedade que já foi apresentada como protótipo da cordialidade. Mata-se no Brasil como se estivéssemos em guerra.
Executivo e Legislativo recentemente aliaram-se e aprovaram a lei que considera crime o porte ilegal de armas de fogo. No entanto, uma série de comerciais no Jornal Nacional (edição São Paulo, semana 7-11 de abril) demonstra que há gente que aposta no diabólico fascínio dos instrumentos de morte.
A caríssima campanha visa promover uma coleção de fascículos e vídeos sobre armas ligeiras de fogo. Ora, se o Ministério da Saúde obriga que se coloque uma advertência em toda a propaganda de cigarros, por que não se faz a mesma coisa com o estímulo disfarçado ao uso de armas?
A TV Globo tem um invejável faturamento publicitário, poderia dar-se ao luxo de recusar a divulgação da cruzada e ainda faturar uma notícia na sua mídia impressa. Estranha que às entidades de publicidade e propaganda tenha escapado esta apelação aberrante ao culto de armas. Os alemães adoravam a sua Luger, jóia dedesign e eficácia. Vejam no que deu.

Jornalismo & Desenvolvimento:
hora de sair das redações

O Estadão já havia feito alguns ensaios mas a largada, exemplar e em grande estilo, foi dada em sua edição de domingo (6/4, Caderno2) com a empolgante reportagem sobre a Hidrovia do Mercosul de autoria de Moisés Rabinovici e Agliberto Lima.
O “moderno jornalismo brasileiro” é basicamente de redação, trabalho de repórteres setorizados e burocratizados, editores fascinados pelo inusitado e colunistas sapecadores de opinião. Aposta na controvérsia mesmo quando não há controvérsia, estimula o circo, o denuncismo e as bravatas das drag-queens de plantão, extasia-se diante de estatísticas e pesquisas de opinião.
Ir à periferia leva tempo, dá trabalho, além de que a periferia jamais é cogitada pela pauta. Correr o interiorzão para flagrar o que está nascendo ou acabando necessitaria antes de tudo que pautas e pauteiros farejassem este manancial de assuntos. Além disso, há o orçamento – custa mais caro encher três páginas com uma viagem de 15 dias do que colunizar o espaço com colaboradores permanentes que depois serão revendidos à imprensa regional.
E por que não encontramos na imprensa regional o retrato vivo do que acontece no país? Simplesmente porque o modelito “moderno”, metropolitano e trivial para lá foi exportado nos seminários organizados pela ANJ junto com Navarra. E quando um jornal resolve sair do ramerrão (caso de O Povo, de Fortaleza) isto não repercute no eixo Rio-São Paulo. Quantos são os pauteiros que se dão ao trabalho de vasculhar diariamente pelo menos os dez bons jornais regionais brasileiros?
A viagem de 2.400 quilômetros no comboio de 16 chatas de minério começou no Mato Grosso do Sul e acabou na Argentina não muito longe do Atlântico (seriam mais mil quilômetros se fosse até o fim). Fascinante relato de viagem – este um dos primeiros veios do jornalismo – é, no entanto, insatisfatório. Deveria ter sido serializado durante os dias seguintes. Mas faltou ânimo, ninguém é de ferro.

Clonagens, plágios e
apropriações em geral

Não é só no Brasil que grassa a doença do plagiarismo. A Era da Informação já começou mas as cabeças pensantes ainda não esquentaram o suficiente para produzir material original. Leia-se, a propósito, o excelente “What’s wrong with copying” para avaliar a extensão mundial do fenômeno (The Economist, 5 de abril, p. 77).
Este OBSERVATÓRIO, porque pretende a multiplicação das suas idéias e proposições, não se incomoda com as apropriações ou imitações. Favorece-as, embora o ideal fosse a menção da fonte, até para defender-se em caso de contestação.
Em função disto, apressamo-nos a completar uma informação que ficou faltando à primeira edição do mensário Caros Amigos. O texto de autoria de Gabriel Garcia Marques lá inserido foi por nós traduzido, editado e publicado (em 20 de outubro de 1996).
Comunicamos na ocasião o fato à agente literária Carmen Balcels e esta enfureceu-se, só calando-se depois que lhe demos o merecido tranco junto com uma aula sobre a diferença entre manifesto público e peça literária. Cópia do entrevero foi enviada por fax ao autor.
Para evitar complicações legais com Mme. Balcels, sobretudo porque há diferenças entre a inserção restrita na Internet (ainda não estávamos no site UOL) e a publicação em letra de forma, conviria que os caríssimos amigos fizessem o registro de onde foi extraída a magnífica peça sobre o novo jornalismo humanista.

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