Quarta-feira, 22 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

PRIMEIRAS EDIçõES > FHC & GIANNOTI

Bob Fernandes e Mino Carta

Por lgarcia em 06/06/2001 na edição 124

ASPAS

FHC & GIANNOTI

"Trevas, mentiras e videoteipe", copyright Carta Capital, 6/06/01

"?O importante é a comunicação de massas.?

Fernando Henrique Cardoso

Vamos chamar o vento, sugeriria Dorival Caymmi ao rei de Portugal. Chamaram, ou melhor, inventaram – e o descobrimento se deu ao sabor de uma mentira, primeira de série infinda, ao menos do lado debaixo do Equador. No lado de cima a série fora inaugurada muito antes.

Cinco séculos depois da chegada de Cabral às nossas paragens, o poder continua mentindo, e com alcances nunca dantes navegados graças à inestimável colaboração da mídia, pronta a oferecer às versões dos manda-chuva (rarará, gargalharia o colega Simão) caixa de ressonância bem mais clangorosa, e, portanto, persuasiva, do que as tubas e os bumbos do rei.

No caso, neste exato instante, temos um príncipe. O presidente da República, ao longo de seis anos e cinco meses no poder, a amigos e assessores muito próximos repetiu o bordão acima.

Do bordão se valeu com freqüência nos meses que antecederam a reeleição em 1998. A cada dia, antecipando-se a uma mudança cambial que, também a cada dia, o presidente e todo o governo negavam, deixavam o País US$ 1 bilhão, US$ 800 milhões, US$ 1,5 bilhão…

SURPRESA, SURPRESA. Dias tornados inesquecíveis por Paulo Henrique Amorim, voz quase solitária e incômoda, no Jornal da Band enunciava, noite após noite, a fuga de capitais. Fernando Henrique negou, muito mais que três vezes, a mexida no câmbio. Enquanto negava, não tomava atitude alguma; qualquer gesto poderia lhe custar a reeleição. Passado o pleito, vieram o gesto e a conta.

Junto ao FMI, um empréstimo de US$ 41,5 bilhões, quase o tamanho do buraco criado pela inação eleitoreira. Além da conta – numa dívida que já bate nos US$ 232 bilhões -, o anúncio, 13 dias depois da posse, da mudança no câmbio. Sim, ele mesmo, aquele que não mudaria nunca.

Nesse pacote, de passagem, apenas porque recordar é viver, veio o rocambolesco enredo envolvendo os bancos Marka e Fonte/Cindam, Salvatore Cacciola, Tereza Grossi, Chico Lopes, todo um assunto que neste outono de 2001 freqüenta as delegacias e páginas policiais.

O presidente da República, então, mentiu. Muitas vezes, e para o País inteiro. Três anos depois, mente de novo quando diz ter sido ?pego de surpresa? pela crise energética. Quem diz que ele mente é um ex-sócio no consórcio de poder, o agora ex-senador Antônio Carlos Magalhães:

– Todos os ministros da área mostraram a ele o problema e disseram que era preciso investimento.

Há aí uma verdade. Todos os que são do ramo sabiam do que viria. Rodolfo Tourinho, por exemplo, ex-ministro das Minas e Energia, há um ano, numa conversa reservada no Sul do País, admitia a proximidade do apagão, mas adiantava: ?Eu não serei o ministro do racionamento?. Não foi.

GOEBBELS E GIANOTTI. Pois o presidente, e não apenas ele, depois de anos a fio preocupando-se acima de tudo com a comunicação de massas, e empenhado em dizer mentiras e mentiras até que tudo se tornasse verdade – Goebbels, ainda na primeira metade do século passado, sintetizou o espírito da coisa -, vem agora a público exclamar: ?Chega de fascismo!?

Foi o que disse e Tereza Cruvinel publicou na edição de O Globo em 23 de maio. Uma projeção, ou uma negação, diria qualquer iniciante em psicanálise. Resta a dúvida. Os nossos governantes parecem ser dotados exclusivamente de certezas, mas açulam dúvidas. O ministro da Saúde, José Serra, por exemplo.

Em apoio à entrevista presidencial, que acusou a imprensa de leviana e a oposição de golpista ?sem armas?, de sorte a criar ?um clima de fascismo e de terror insuportável?, Serra presenteou o País com a evocação das suas experiências nos tempos do exílio no Chile:

– Já vi esse filme, sempre deu errado.

Não ficou claro se o titular da saúde pública compara Fernando Henrique com Salvador Allende, o presidente socialista derrubado pelo golpe de Pinochet, ou com Eduardo Frei e Patricio Aylwin, os moderados batidos por Allende em pleito democrático. Ou seria com Pinochet em pessoa?

Dúvidas e mais dúvidas – ressalvada a nitidez do pensamento de Arthur José Gianotti, o filósofo, que tantas vezes, em benefício da nação, vulgarizou as idéias do velho companheiro, amigo fraternal e príncipe dos sociólogos. A política é mesmo aética, esclarece didaticamente Gianotti. Donde, Paulo Maluf está certo.

O ESTADÃO ACORRE. Quem votou Fernando Henrique duas vezes, e ainda confia nele, não saberá se cabe esperar para logo mais pelo terror termidoriano ou pela Marcha sobre Roma. Sem exclusão da possibilidade de que haja quem, não tendo sufragado FHC, ou desiludido com ele, sonha com a Tomada da Bastilha.

?A luz amarela – avisa o presidente – está se acendendo. Acham que a democracia resistirá até onde? Se a eleição ocorresse neste clima, quem vai segurar o País? Quem segura o mercado??

Pelo jeito, Fernando Henrique vive uma crise de catastrofismo e fracassomania. Bondosamente, o editorial número um de O Estado de S. Paulo de sexta-feira, 25 de maio, se prontifica ao diagnóstico: o presidente padece de ?forte desgaste emocional?. Também, pudera.

A receita do tratamento é óbvia, e depende exclusivamente da oposição. Bastaria que desistisse do pérfido propósito de ?paralisar, desmoralizar e, no limite, derrubar o presidente?. Óbvia, mas inviável.

A oposição – afirma-se no editorial – não tem ?o mínimo interesse em contribuir com críticas construtivas para que o governo faça o melhor para o povo?. Ao que tudo indica, a crise presidencial vai se agravar.

A grandeza do jornal paulista está demonstrada pela solicitude e pelo desvelo com que se posta na conjuntura, embora Fernando Henrique tenha se permitido na entrevista a Tereza Crunivel, certamente vítima de extremo desconforto, a referência ao ?ambiente neo-udenista contaminado?, a qual deve ter soado blasfema no palácio da Marginal de São Paulo.

A INGRATIDÃO. Com a imprensa, e a mídia em geral, o presidente se mostra ingrato, por tudo o que fez por ele e seu governo, em seis anos peculiares, digamos assim, em proveito de suas fantasias, digamos assim.

A mídia cumpriu admiravelmente o papel que o presidente lhe reconhece, com razões de sobra, e nos colocou dentro de um entrecho romanesco distante anos-luz da realidade dos fatos. E agora vem ele, e a chama de leviana?

Leviano o generoso Estadão? Leviana a Veja, que ainda há quatro semanas garantia: racionamento não vem… Ou que já caricaturou Itamar Franco na sua capa, metido em roupas de napoleão de hospício… Ou que nesta semana se desculpa por ter publicado uma reportagem sobre o Caso Marka ?num momento delicado da política brasileira…?. Não é de comover?

Com raras exceções, raríssimas, a comunicação de massas prestou seus serviços ao presidente e ao seu governo com dedicação comovedora, o que não causa espécie. A mídia serve o poder porque é um dos rostos do próprio, sem que isso invalide a frase recente de Antônio Carlos Magalhães: ?A mídia é safada?.

O que, trocado em miúdos, e salvo melhor juízo, significa: ela também pode ser ingrata ao abandonar ao seu destino o santo caído do altar. Até Santo ACM, que a favor dela fez tantos milagres, sobrelevando aqueles praticados na aprazível área carioca do Jardim Botânico. Mas não se dá por acaso que o chute do cadáver seja o mais genuíno esporte nacional.

Talvez imaginando um futuro cadáver, por motivos diversos, na véspera de sua renúncia, Antônio Carlos insinuava que ?o presidente leu a lista?. A mesma lista da cassação que tornou o Santo um Anjo Caído.

AS SEMENTES. Tais aspectos da situação nativa trazem à memória a Idade Média, com o perdão pela desagradável comparação, a qual, a rigor, se encerra com a Tomada da Bastilha e os eventos que a ela se seguiram. Enforcamento de Luís XVI inclusive. Não faltam, aliás, historiadores dispostos a crer que o Brasil ainda não alcançou o século 18 e, portanto, não conheceu a Revolução Francesa. Aquela da burguesia, se bem recordam.

Não é que sementes de fascismo não tenham sido lançadas ao ar e que muitas tenham caído nesta nossa terra de Santa Cruz, onde, em se plantando, tudo dá. E não somente em tempos fernandistas. Isso vem de longe.

O exemplo mais recente, e talvez o mais clamoroso, é o pacotão do apagão imposto por medida provisória, que nos obriga a pagar pelos erros e pela irresponsabilidade governistas, em perfeito estilo fascista, via aplicação retroativa da lei. Somente Hitler tirou esta do quepe.

No varejo, são 5.296 as edições, ou reedições, de medidas provisórias, e são três as tentativas de leis da mordaça. E tem mais: as pílulas de fascismo distribuídas a granel, e no atacado, nas tardes e noites de domingo, em transmissões esportivas, programas de auditório, no uso e abuso escancarado da mulher e da imagem feminina, nos cerca de 15 mil assassinatos/ano no conjunto Grande São Paulo e Grande Rio.

?Importante é a comunicação com as massas?, diz o presidente e sabe o mundo todo. Tanto sabe que em qualquer paragem onde existam as massas e os meios de comunicação – em especial os eletrônicos -, existem regras democráticas minimamente sintonizadas com o momento, com o país onde se monta tal equação. No Brasil, a lei em vigor data de 1962.

ZAPEIE E APRENDA. Há seis anos, o então ministro Serjão Motta produziu uma minuta da Lei de Comunicação Eletrônica de Massas. O projeto dormita, ora nas gavetas do ministro das Comunicações, Pimenta da Veiga, ora em um escaninho do Congresso. Enquanto isso, no varejo, o couro come.

Uma tarde/noite de domingo e o zapear produzem uma extraordinária aula. Gugu está no ar. Ao seu lado, em tangas tão escassas e diáfanas quanto seus véus, a Proibida e a Ninja do Funk. Do outro lado, Alexandre Frota, o volumoso ator e promotor de bailes funk. A Proibida e a Enfermeira convivem na mesma pessoa; o poblema é que deu poblema com o sindicato das enfermeiras.

Zap. Luciano do Valle está no ar na Band. Transmite as 500 Milhas de Indianápolis. Zap. Xuxa está no ar, com Faustão e Wanderley Luxemburgo. Zap. TV a cabo, SporTV, Zagalo está no ar. Zap de volta ao Gugu.

Alexandre Frota está possesso. Grita, exibe um documento. A Proibida e a Ninja pertencem a ele. Ele criou as imagens. As tangas, perdão, as moças, pernas cruzadas, vendem seu peixe: elas não pertencem a ele, ainda que admitam ser ele O Criador. Alexandre exibe os documentos e grita para a Nação:

– A Proibida e a Ninja têm de cumprir o contrato, têm de fazer o show, foi feita uma permuta, o silicone, o médico deu o silicone e em troca elas fazem uma apresentação no Donna (a propósito, o Donna é uma danceteria de Adriane Galisteu.) Elas não vão fazer?

O GRITO E A CHUVA. O grito de Frota prende a atenção na tarde de domingo. Frota se aproxima da câmera e comunica à Nação:

– A Proibida e a Ninja fizeram silicone no peito e na bunda (uma fez no peito, outra na bunda, mas, perdão, leitores, no calor da batalha não foi possível memorizar quem fez o quê e onde). Fizeram no peito, na bunda, e tem uma permuta…

Alexandre Frota se aproxima ainda mais da câmera:

– Custou sete mil dólares (o silicone), sete mil dólares, no peito e na bunda, tem o médico, tem a permuta, não vão cumprir? Não vão cumprir? Eu quero meu peito de volta, devolve o peito, cadê o meu peito?

Alvoroço, a palavra volta para Gugu, algum ruído na comunicação, não foi possível ouvir se, além do peito, Frota pediu devolução também do resto do material. Zap. Na segunda noite, no programa da Dona Adriane Galisteu, Frota voltaria ao tema:

– Eu quero o peito, quero a bunda.

O ATALHO. Chove em Indianápolis no domingão. Hélio Castro Neves está na frente. Luciano do Valle informa ao povo: ?O Helinho, se ganhar, vai meter a mão em mais de um milhão de dólares?.

Chove. Luciano indica: ?O Brasil está na frente, o juiz podia acabar a corrida?. O comentarista tenta sugerir: ?Mas ele pode apenas suspender, esperar a chuva passar e dar nova largada…? Luciano pega o atalho:

– O Brasil está na frente, o Helinho, ora, o juiz acaba a prova e nós levamos esta…

Talvez, caro Luciano, seja melhor declarar a vitória de um brasileiro ainda antes de a prova ser iniciada. Os rapazes correm tantos riscos, são tantas as batidas no circuito oval, são 500 as milhas, para que a prova? Zap.

Wanderley Luxemburgo está no condomínio Xuxa/Faustão, criado para enfrentar precisamente o Gugu, de quem têm tomado uma surra, segundo o Gestor do Grande Irmão, o Ibope (leia à página 33).

Xuxa repete o coro do Morumbi: ?Luxemburgo? ?Luxemburgo?. Faustão, toca nas ?críticas, tão injustas?, mas abre espaço para o jornalismo. O presidente da CPI da Nike, deputado Aldo Rebelo (PC do B-SP) ataca:

– Em relação ao Wanderley há a questão de falsidade ideológica, na falsificação da idade, indícios de evasão fiscal, de lavagem…

A bola volta para Wanderley. Ele diz que, ?pela última vez?, vai falar sobre o assunto. Uma hora antes, na entrevista coletiva pós-título do Corinthians, falou sobre o assunto ?pela última vez?, como ?pela última vez?, falaria às 21 horas, no Bola na Rede, de Juca Kfouri.

O Wanderley – que de fato foi vítima de um massacre de mídia, independendo dos seus erros – conhece o jogo: negue evidências, negue fatos, repita sempre ser aquela a ?última vez?, mesmo sabendo que não será. Confie na ignorância, na coletiva ausência de memória. Costuma dar certo. Nem sempre. Zap.

ENGOLINDO ZAGALO. SporTV. Petkovic, à Zico, de curva, aos 43, meteu lá em cima, onde a coruja dorme. Explode o Maracanã, delira o Brasil, país de 26 milhões de flamenguistas (deu no Ibope), Zagalo, camisa número 13 às costas, colete da Nike por cima, chora. Teme-se um infarto. Zagalo não consegue falar, chora, balbucia alguma coisa, até tomar fôlego e reeditar o berro:

– Vocês vão ter que me engolir.

Zap. Nivaldo Prieto transmite o teipe do jogo Roma x Milan. E repete, a cada intervenção: ?O Roma, o Roma?. Italianos, que depois telefonariam a CartaCapital para reproduzir os fatos, ligam para Band, e informam:

– Por favor, assim como não existe a Flamengo, a Corinthians, a Guarani, na Itália não existe O Roma, O Lázio, O Juventus; é A Roma, A Lazio, A Juventus…

No esporte da Band a observação foi anotada, mas uma torcedora, incomodada com a continuidade do artigo masculino antecedendo a Roma, ligou novamente. Explicou-se e foi informada:

– Desculpe, mas vai ser assim mesmo, são normas da casa.

Os italianos desistem do Band e da Nivaldo. Zap. Vai começar o Fantástico. Zap. Voltamos, mais tarde, ao Band. Milton Neves e a Super-Técnico. Com Wanderley Luxemburgo. Pela última vez. Zap.

HAJA VELAS. Fascismo – ou vulgaridade, ignorância, desfaçatez? O fascismo tinha um forte traço de grosseria, gerada pela prepotência, e de mau gosto, precipitado pela combinação de falta de senso de humor e de senso estético. Mas, por enquanto, não vamos confundir as coisas e, se possível, as idéias.

Anote-se que, súbito, inesperado Profeta do Apocalipse, o presidente, em quem, segundo o Estadão, é natural o uso elegante do florete em lugar da borduna, informa: ?Se não chover, o País vai parar?.

Piores o descaso e a incompetência do governo, ou a crítica da oposição? Segundo o ministro Malan, é a oposição que ?leva o País ao caos?. Se sobrarem velas."

"Ameaça fascista ou colapso das preposições?", Folha de S. Paulo, 31/06/01

"Os áulicos do ora refluente tucanato e os intelectuais que ainda não desembarcaram da nau fernandina poderiam poupar-nos de muita estultice dita e escrita nos últimos dias. Disseram e escreveram que a democracia no Brasil está ameaçada, que não podem garantir a sobrevivência das instituições neste clima de fascismo. Como não sou parte da Intelligentsia, arrisco uma resposta muito mais simplória do que essa. Trata-se de uma crise prepositiva. Isso mesmo. As preposições não têm sido empregadas corretamente, o que nos sequestra capacidade de compreensão.

A tal propaganda petista dos ratos roendo a bandeira nacional é burra. Ela coroa uma opção do maior partido de oposição por fazer tábula rasa da política, tendo o governo do presidente Fernando Henrique Cardoso aberto imensas avenidas por onde se poderiam explorar temas que fariam a diferença entre uma gestão conservadora e outra popular. O apagão é apenas a parte mais visível desse fenômeno. Há uma penca de outros exemplos: juros e dívida pública nas alturas; privatizações que queimaram patrimônio estatal sem dizer bem para quê; desnacionalização indiscriminada; gestão canhestra do ajuste fiscal; política social medíocre etc. etc.

Porém não se pode dizer que haja golpismo no privilégio que o PT confere às questões comportamentais. É uma estratégia eleitoral que pode ou não dar com os, na falta de animal melhor, burros n?água. E o simples fato de os nazistas terem usado alegoria semelhante (ratos, bandeira) não autoriza que se classifique de ?fascista? a propaganda do PT. Os contextos Alemanha hitlerista e Brasil fernandista são incomparáveis, o que até a Resistência iluminista de FHC teria dificuldades para refutar em poucas linhas.

Tampouco se pode vislumbrar estratégia de golpe ou anomalia institucional na acusação de crime de responsabilidade contra o presidente, protocolada na Câmara dos Deputados por juristas de esquerda, classificados por FHC como ?ex-amigos?.

Se não há clima fascista no ar, a não ser que os meteorologistas tenham criado essa categoria, por que raios o presidente e seu séquito soltaram o fantasma da ameaça à democracia? Talvez porque vejam o cavalo encilhado da sucessão sair em disparada, descontrolado, e apenas dêem voz ao que muitos de nós jornalistas temos ouvido nos círculos de elite: crescem os temores com a possibilidade de haver alternância de poder. Nesse caso, seria melhor empregar outra preposição e transformar a ameaça ?à? democracia em ameaça ?de? democracia.

O raciocínio vale também para a propalada crise institucional, que de fato existe. Mas não é uma crise ?nas? instituições. Elas, como evidencia a condução do escândalo do painel eletrônico no Senado, até que têm dado conta de atender bem às demandas do conflituoso cotidiano político. O que há é uma crise ?de? instituições. A solução conferida pelo concerto governista ao problema na última vez em que ele resplandeceu foi a reeleição. Agora aumenta a agonia, pois só restam opções parciais e/ou de difícil implantação, como a independência do Banco Central e o parlamentarismo. E a base situacionista está esfrangalhada.

Mas eles não desistem facilmente."

"Moralismo e política", Folha de S. Paulo, 2/06/01

Nos últimos dias pegou fogo a discussão sobre moral e política, provocada por artigo do filósofo José Arthur Giannotti. No entanto o tema é relevante para reflexões adequadas sobre o que esperar do futuro da política, do direito e do jornalismo.

O filósofo não defende os atos imorais, os crimes, as reportagens passíveis de punição penal. Ele fala acerca de uma zona cinzenta, de amoralidade, praticada por todos os partidos indistintamente.

O que vem a ser a zona cinzenta? As barganhas políticas, por exemplo, que são elementos intrínsecos à atividade política. Empresas, quando colaboram com caixinhas políticas de candidatos -seja de FHC, Lula ou Bush-, esperam, no mínimo, boa vontade para seus pleitos. Deputados federais, estaduais e vereadores, quando apóiam presidentes, governadores ou prefeitos, buscam, em troca, benefícios para seus aliados -sejam eleitores, regiões ou empresas que os apoiaram.

É amoral por isso (atenção, patrulheiros: estou dizendo que é amoral, não estou defendendo). Não se trata de um ilícito -quando isso ocorre, se sai do campo político para o criminal-, mas também não é uma prática que seja aceita, pacificamente, no plano moral.

Justamente por isso trata-se de combustível a alimentar todas as oposições, seja a FHC, ao PT ou a Bush. É jogo político relevante porque estabelece limites às barganhas dos governantes, desgasta quem está no poder e abusa e abre espaço para a oposição.

A situação se complica quando essas condenações morais passam a ser manipuladas politicamente por meio da confusão maliciosa entre o ato político e o criminal. Por exemplo, procuradores alimentando jornais com meras suspeitas e, a partir das reportagens publicadas, abrindo processos para atingir adversários políticos. Advogados que são sistematicamente contra o governo apresentando um pedido de impeachment, como se fossem elementos neutros e guardiões da lei.

São inúmeros os exemplos de como esse ?moralismo? é utilizado politicamente. Vou me ater à brigada ?carlista? na mídia, por ser episódio mais recente. Como trataram FHC e como tratam ACM?

FHC foi moralmente condenado por exercer uma política econômica anti-social. A principal perna política desse sistema foi ACM, na condição de presidente do Senado. No entanto ACM é ?absolvido? porque, em certo momento, liderou uma campanha pelo aumento do salário mínimo, uma mera campanha de mídia, sem implicações maiores, a não ser seu próprio marketing político. Virou santo. Se isso não é uso político do ?moralismo?, que nome dar a essa discrepância de critérios?

Por ocasião da revelação do vazamento da lista de votação do Senado, buscou-se de toda maneira algo que diferenciasse ACM de Arruda, para poder poupar o líder baiano. Os mesmos ?catões? definiram um novo princípio moral: romper o sigilo não configurava um ato moralmente condenável; mentir, sim. Quiseram dizer que cometer um crime não é crime, mas dizer que não cometeu é. Aí se descobre que ACM mentiu e não se toca mais no assunto.

O mesmo ocorreu em relação às CPIs. Há um fato único a ser julgado: a posição dos senadores, sua truculência, seu exibicionismo, os ataques sem provas etc. Tomem-se as análises feitas pela mesma brigada em relação à CPI dos Bancos (ou dos Precatórios) e o julgamento de ACM. No primeiro caso, os senadores eram heróis destemidos; no segundo, inquisidores sem ética.

O próprio procurador Luiz Francisco era enaltecido semanalmente, como exemplo da probidade e da coragem equilibrada. Bastou investir contra ACM para deixar de merecer o mesmo respeito.

Ao embarcar nesse jogo e avalizar cada denúncia de fundo político, sem conferir sua veracidade e sem apontar sua intenção política, deixa-se de fazer jornalismo e se passa a fazer política.

Arantes e Fausto

Recebo do pensador Boris Fausto o seguinte e-mail: ?Em seu artigo na Folha de 29 de maio, você atribui a mim uma frase de crítica a Paulo Arantes que não escrevi (poderia até ter escrito…). Peço-lhe a atenção de retificar em sua coluna?. Na verdade, a frase sobre o ?culturalismo? do filósofo Paulo Arantes -mencionada na coluna de terça-feira- é de Ruy Fausto."

    
    
                     

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