Sexta-feira, 15 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

PRIMEIRAS EDIçõES > MÍDIA NA COPA

Bola na trave

Por lgarcia em 10/07/2002 na edição 180

MÍDIA NA COPA

Fabiana Amaral (*)

O que se viu antes, durante e principalmente depois da Copa, pela TV, foi de envergonhar qualquer pessoa que tenha um pouco de noção de jornalismo ? na verdade, nem precisa ter qualquer noção. Que as boas imagens e entrevistas exclusivas da poderosa Rede Globo são, de longe, melhores que as das outras emissoras, tudo bem ? mesmo que para isso ela tenha manipulado as transmissões dos jogos ?, mas daí a fazer de idiota o pobre telespectador é muita coisa.

Já víamos em todos os jornais uma incrível tendência em priorizar a Copa em detrimento das outras notícias, em sua maioria muito mais importantes. Mesmo os jornais ditos "sérios" ocupavam a primeira página com as imagens estouradas dos jogadores caindo, chutando, rindo ou chorando. O preocupante, no entanto, é que enquanto a imprensa se voltava para o festejo futebolístico deixava de noticiar ? de caso pensado ou não ? as falcatruas eleitorais e políticas, a situação do real e da economia, entre outras coisas muito mais relevantes para a vida prática dos brasileiros. Atendendo a interesse de quem é que se quer saber. Sabia que o combustível subiu?

Mais ridículo, no entanto, nem é o que se deixou de noticiar. Várias vezes ouvi chacotas sobre o desempenho dos comentaristas da Globo e seu principal narrador, Galvão Bueno. Resolvi então, eu mesma, acompanhar um jogo. Deveria ter confiado nas interpretações dos meus interlocutores.

Que bizarrice! Um falava por cima do outro, sem nexo. Comentários descabidos e preciosas oportunidades de calar a boca! Mas a cobertura da emissora, finalizado o campeonato, reservava outras surpresas. Durante todo o domingo não se fez outra coisa senão falar da conquista do penta. Retiraram alguns programas e os que deixaram foi só para cantar a tal da Festa, da baiana Ivete Sangalo com as imagens dos gols.

Tudo bem, posso estar sendo um pouco insensível, afinal o domingo tinha sido o dia do grande título do futebol. Pela quinta vez a seleção, que viajou desacreditada, recebera a taça de campeã. Era a melhor. Tinha os melhores jogadores, melhor técnico. Ok, dava até para entender essa euforia no dia da vitória, por mais repetitivas que estivessem ficando as imagens apresentadas. Diziam: "A gente não cansa de mostrar, você não casa de ver". Ah, cansou sim!

Terça-feira, ufa! A televisão e toda a imprensa voltarão ao normal, pelo menos era de se esperar. Por mais que sobrassem os resquícios dos papéis picados e pichações em verde e amarelo, esperávamos o jornal e a programação normal. Que nada. Logo de manhã aquela "moderna" transmissão ao vivo estava a postos para transmitir a chegada dos "guerreiros" ao Brasil. Com todo o atraso, a transmissão continuou firme mostrando um avião que nunca aterrissava e um monte de gente, sob o sol, olhando para o alto, para não perder um só minuto daquele evento.

Qualidade preocupante

O pior de tudo ainda estava por vir. E nem era o fato de eu própria estar na frente da TV acompanhando aquele espetáculo estapafúrdio. De repente as repórteres furavam o bloqueio dos policiais ? mais de seis mil foram postos em ação para a cerimônia ? e corriam atrás dos jogadores com as mais criativas das perguntas: "Como você se sente?", "Imaginava que chegaria aqui?"

Por favor! Ganharam o penta, mal dormiram, estão sem a família. Será que não dá para deduzir, com um pouquinho de esforço, como as criaturas se sentem? Não basta uma cobertura como aquela, que nada de novo acrescenta, ainda somos obrigados a ouvir, repetidas vezes, a mesma pergunta ? feitas por vários repórteres? Incrível como conseguiram ser tão chatos. Fiquei com dó dos jogadores quando o narrador chamou um comentarista e este, se achando com a maior razão do mundo, afirmou categoricamente: "Os jogadores agora não têm cidade. São do Brasil e do povo e têm que seguir todo o roteiro, afinal o torcedor tem o direito de vê-los".

Ora, antes de brasileiros são seres humanos que, a despeito de toda a adoração, também sentem cansaço, principalmente depois de horas de viagem sem dormir. Toda a programação, principalmente os telejornais, se pintou de verde e amarelo, inclusive para omitir o apedrejamento que o ônibus da seleção sofreu.

O show pós-penta só me fez ficar mais e mais preocupada com a qualidade da televisão. Sobretudo da que mais é vista. É bem verdade que esses jogadores trouxeram alegria a esse povo que tanto carece. Mas fazer de sua chegada uma apoteose de super-exposição já é demais. Como se não bastasse, ainda agridem a inteligência dos telespectadores com comentários e perguntas imbecis e redundantes. Enquanto acham que estão batendo um bolão, em matéria de jornalismo só metem bola na trave.

(*) Aluna do 2? ano de jornalismo do Unasp

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