Sexta-feira, 15 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

PRIMEIRAS EDIçõES > GUERRA DO IRAQUE

Bom dia, Bagdá

Por lgarcia em 12/08/2003 na edição 237

GUERRA DO IRAQUE

José Hamilton Ribeiro (*)


Prefácio de Diário de Bagdá ? A guerra do Iraque segundo os bombardeados, de Sérgio Dávila e Juca Varella, 144 pp, Editora DBA, São Paulo, 2003; preço R$ 59,00


Para ter um bom jornalismo de guerra, um país precisa ter bastante guerra e bastante jornalismo. No nosso caso, por Deus ou pelo diabo, não temos de sobra nenhum dos dois. No entanto, por força da raça ou de alguma "fatalidade dessas que descem do além", temos uma correspondência de guerra de escol; mais que jornalística ? literária. E literatura do melhor nível internacional.

(A diferença que eu faço entre jornalismo e literatura é de que esta permanece em frescor, dura no tempo, é uma notícia permanente, enquanto aquele passa e se esgarça no ar.)

Outra coisa: as guerras só se tornam relevantes historicamente quando há quem escreve sobre elas com talento. Que seria da Guerra de Tróia sem Homero? Da Guerra do Peloponeso sem Tucídides? A qualidade excepcional da correspondência de guerra no Brasil está ancorada em três pilares monumentais: Euclides da Cunha (com Canudos), o visconde de Taunay (com a retirada da Laguna) e Rubem Braga (com sua cobertura da Segunda Guerra).

Por falar nisso, se não houvesse Euclides da Cunha no Vaza-Barris, o massacre do Conselheiro e de seus beatos talvez não passasse, hoje, de um episódio militar de rotina, descrito em relatório burocrático e só acessível (acessível?) a erráticos e reduzidos historiadores da caserna.

Sem o jovem primeiro-tenente Taunay na Guerra do Paraguai, quem teria hoje a dimensão dramática e humana desse episódio, que talvez seja o momento de maior vergonha de um Exército, ao ter decidido deixar para trás (entregando-os ao inimigo) os doentes e feridos, de modo a permitir que a coluna pudesse fugir mais depressa?

Rubem Braga como correspondente de guerra é outra coisa, sem o telúrico de Euclides ou a precisão (perfeição?) de Taunay, parece que escrevia com uma pena de passarinho. Fazia crônica-poesia, ou sei lá o que isso possa ser.

Guerra é sempre coisa ruim, melhor fora viver sem ela, mas isso tem sido impossível, irreal. Nos últimos 3 mil anos de "civilização", houve só duzentos de paz. Há guerras odiosas de conquista, de usurpação, de abuso. Há, de outro lado, as guerras heróicas, necessárias, imprescindíveis: são aquelas em que se defende sua terra, sua gente, sua idéia, sua casa, seu filho. Aí, só o covarde (ou o canalha) foge.

Agora, se a guerra existe, melhor é existir com jornalista do que sem ele. Guerra sem jornalista junto, sem a presença dessa testemunha às vezes tão incômoda e até soberba, é pior do que a própria guerra. O homem aí, o combatente, fica liberado para ser a fera que o ser humano traz dentro de si. Haja horror!

Por ocasião do assassinato covarde e ominoso de Tim Lopes, o Globo Repórter fez um programa especial perguntando, entre outras coisas, o que leva um jornalista a uma situação de risco no trabalho, como fazia Tim Lopes e como fazem os correspondentes de guerra. Fui um dos entrevistados; respondi: "O que leva um jornalista à guerra é, um pouco, vaidade; um pouco, aventura; um pouco, ambição profissional; muito do espírito missionário, romântico e justiceiro da profissão, que incita o jornalista a estar onde está a notícia, para, aí, ter condição de denunciar a injustiça, a iniqüidade, o preconceito, o uso desmedido da força, o abuso do poder ? militar, econômico, psicológico, moral ou de patrulha".

Por fim, uma pitada de falta de juízo.

O jornalista está atrás da verdade, sim, tudo bem. Mas está muito mais é atrás de denunciar a injustiça, o preconceito, o abuso. E ele não se cala; o máximo que podem fazer é demiti-lo. Melhor seria que não tivesse havido essa guerra no Iraque. Mas, já que houve, é um consolo saber que havia, lá, os Sérgio Dávila da vida.

O Brasil acompanhou, entre emocionado e divertido, as peças que Sérgio mandava de Bagdá. Mas a cobertura diária, o deadline e até mesmo a restrição de espaço não permitem reflexão maior sobre os fatos, os atos, as pessoas da guerra. Isso fica para o livro. Aqui, sim, neste Diário de Bagdá, nós outros vamos encontrar realmente o que Sérgio viu e sentiu e o que Juca Varella pôde flagrar ? com o espaço, com a curtição, com o tempo necessários.

(Mais de cem fotos de Juca Varella, a maioria inéditas, agora em papel de melhor impressão ? que documentário! A louvar também o fato de que Juca se torna, com a guerra do Iraque, um dos raros repórteres fotográficos brasileiros a ter estado no front. Os jornais, as revistas, das poucas vezes que se propõem a cobrir uma guerra, mandam só o homem de texto.)

A crítica virá em cima, e ela pode até nem ser piedosa. Nem deve. Cá, por mim, estou apostando que, daqui para a frente, ao se falar de grandes correspondentes de guerra no Brasil, quando chegar a vez de citar Rubem Braga, as pessoas vão se lembrar de Sérgio Dávila em Bagdá. E aproximarão o trabalho de um e de outro. Não é pouco, tetrarca. O Braga era fina jóia.

(*) Repórter especial da TV Globo, no Globo Rural. Por seu trabalho na imprensa, é o recordista de Prêmios Esso (seis). Pela Realidade cobriu a Guerra do Vietnã, onde perdeu uma perna. Sua reportagem "Vi a guerra de perto" figura no livro A arte da reportagem, de Igor Fuser, como uma das melhores peças do jornalismo brasileiro de todos os tempos. É autor de vários livros, entre eles O gosto da guerra, sobre sua participação no Vietnã.

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