Terça-feira, 17 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

PRIMEIRAS EDIçõES > VIOLÊNCIA JUVENIL

Bárbaros, golpismo e besteirol fascista

Por lgarcia em 02/12/2003 na edição 253

VIOLÊNCIA JUVENIL

Caia Fittipaldi (*)

A idéia é bem-encaminhada, mas a indignação é pouca. Daí, talvez, algumas confusões que se lêem sobre “maioridade penal” ? que bem se poderia chamar “minoridade moral” ?, sobre a pena de morte, o rabino-matador, um infeliz pai desesperado e o filme As Invasões Bárbaras.

Antes de mais nada, para que a conversa não se desencaminhe de saída: o pai desesperado tem toda a minha solidariedade pessoal, humana e comunista; mas nenhuma solidariedade pessoal é suficiente para inibir toda e qualquer crítica social ou moral em discurso público.

Haver no Brasil um rabino-matador é loucura moral absoluta. Ponto. É amoral e escandaloso. Não há objetividade jornalística que possa esquecer disso. Há tantas semimoralidades no mundo quantas semigravidezes ou semi-honestidades.

Jamais será moral, portanto, uma reflexão em que se tentem explicar, uns pelos outros: (i) um rabino-matador; (ii) uma Hebe-justiceira-Escuderia Le Cocq em rede nacional de televisão; (iii) um pai-advogado sem “inteligência política do mundo”, dedicado, visivelmente e exclusivamente (e pessoalmente) a não enlouquecer de dor, ante o assassinato abominável de sua filha-menina… mesmo que isso se faça à custa da sanidade mental de toda a sociedade brasileira, uma sociedade que ele nem vê ? o pobre infeliz! ? e nem ninguém lhe ensina que, se vir, a dor diminuirá, pelo menos, até tornar-se suportável; e (iv) uma Folha de S.Paulo em surto de autismo fascista, cega e surda ao que se diga, se mostre, se faça ou aconteça no mundo real político moral.

Eu não sei a que ponto nos levará a loucura em que a imprensa comercial mergulhou os brasileiros, quando até os jornalistas mais críticos já parecem envolvidos no besteirol fascista que os jornais & revistas inventam e publicam, livremente, no Brasil, desde janeiro de 2003.

Fichas no lixo

Esse discurso-besteirol fascistizante foi cevado durante os governos FHC. Agora, para piorar, ele se manifesta totalmente liberto até dos mais mínimos compromissos sociais, democráticos ou morais. E não interessa, para o que aqui se discute, que o discurso antidemocrático da imprensa comercial, no Brasil, seja hoje efeito do desespero de as empresas jornalísticas verem-se sem acesso ao centro do poder político, ou que seja efeito do desespero de essas empresas descobrirem-se hoje, além de sem poder político, também atoladas em dívidas já quase impagáveis, inventadas no bojo das fantasias neoliberais dos governos derrotados, no Brasil, em 2002-3.

Pena de morte é assassinato legalizado. Ninguém pode ensinar a aceitar a pena de morte, em nenhum caso e em nenhuma imprensa democrática, nem nas linhas nem nas entrelinhas. Não se pode discutir pena de morte, nos discursos sociais, como se discute a moda do próximo verão.

Não é de “morte” que se trata na pena de morte. Trata-se é de o Estado poder (ou não poder) autorizar a matar sem que o Estado seja atacado, em situação de guerra. A pena de morte é a barbárie-limite autorizada pelo Estado e consumada pelo poder do Estado, contra os cidadãos. Na pena de morte, portanto, discute-se o limite democrático do poder do Estado contra todos os cidadãos.

Quem ensinar que o Estado pode condenar à morte os assassinos do assassinato-manchete de novembro 2003 em São Paulo ensinará que o Estado também pode condenar à morte os opositores do regime, em Cuba, ano passado. E ensinará, ipso facto, que o Estado brasileiro pode condenar os Frias, da Folha, à cadeira elétrica, por desserviço à democracia e a um governo democraticamente eleito em eleições democráticas livres e transparentes. Nada disso interessa ao Brasil; em nenhum caso pode interessar à Folha; e nunca, de modo algum, interessará aos jornalistas brasileiros, ao Observatório da Imprensa ou a qualquer ser ou entidade ou espírito democrático.

O que a Folha faz hoje, no Brasil, só se explica por dois caminhos: ou (i) a Folha o faz de caso pensado ou (ii) o faz por incompetência profissional e empresarial e ignorância civil e moral, por apostar todas as suas fichas e toda a grana dos acionistas na certeza, insana, de que a democracia brasileira é lixo.

Piraram de vez

No primeiro caso, a Folha tem de ser denunciada a todas as entidades oficiais ou não oficiais às quais caiba zelar pela ordem democrática no Brasil. No segundo caso, tem de ser denunciada a todas as entidades do item (i), acima, e, além dessas, tem também de ser denunciada em todas as praças e esquinas e mesas de bar e quintais domésticos e universidades e escolas e em todos e quaisquer espaços públicos que haja ou que se inventem, caso a caso.

O que se tem de fazer portanto, em geral, em nome da democracia brasileira ? e sempre, em todos os espaços públicos de discurso ? é denunciar o fascismo golpista de toda a chamada grande imprensa comercial brasileira. Não basta portanto, denunciar apenas a “a falta de objetividade ou de rigor” do que a Folha publica.

Bem feitas as contas, “a falta de objetividade ou de rigor” em tudo quanto a Folha publica pode ser, até, uma vantagem e, talvez seja a nossa única salvação: o que seria de nós, do Brasil, dos leitores e da democracia brasileira se, além de militantemente fascista, a Folha fosse capaz, também, de oferecer discursos públicos super objetivos?! Aí sim, de uma vez por todas estaríamos caminhando diretamente para o brejo, a democracia brasileira, o Brasil, a Folha, Observatório e tudo!

Sobre “O rabino e as invasões bárbaras”, de Luciano Martins Costa (jornalista), no Observatório da Imprensa [remissão abaixo]: o filme As Invasões Bárbaras (Arcand) nada tem a ver com pena de morte; lá se discute a eutanásia que, afinal, é consumada (no filme!), em perfeito consenso, ritualisticamente concebida e executada, entre todos: futuro morto & seus amigos e contemporâneos de universidade; e dois dos filhos daquela “turma de 68” ? uma espécie de segunda geração, em (quase) tudo diferente da primeira.

A pena de morte é assunto diferente desse, incomparavelmente diferente.

A pena de morte, em Estado democrático de direito, é a autorização que a sociedade dá ao Estado, para que o Estado, em nome dos cidadãos, mate cidadãos, em tempos de paz. Para os homens e mulheres que sejam seres morais, antes de serem seres democráticos, a pena de morte é impensável, em todos os casos. Rabino-matador, portanto, é absolutamente impensável. Piraram, agora, de vez. A eutanásia, que se discute no filme, é privada; é secreta; é ritual de confraria; é praticada à margem do mundo social; e não se pode dizer que tenha algum efeito danoso para a sociedade ou para o Estado (talvez até seja bem o contrário disso, no filme, se se pensa bem…).

O filme (não) diz

Como é discutida no filme, a eutanásia nada tem a ver com o Estado nem, muito menos, com o rabino-matador ou com a Hebe-justiceira-Escuderia Le Cocq, nem com o fascismo dos discursos públicos da imprensa comercial, no Brasil, desde 1/1/2003.

A eutanásia é a metáfora mediante a qual o filme se constrói: não há saída para aquele discurso de academia datada. Só resta, àqueles intelectuais datados, a morte com dor ou a morte assistida, quer dizer, ou a morte ou a morte.

Essa metáfora tem de ser lida no contexto do filme, dado que os personagens têm um longo passado de crítica acadêmica ao Estado, no mundo da Guerra Fria. A eutanásia está lá para dizer que aquele mundo e todos aqueles discursos de explicação do mundo estão, hoje, presos, entre a morte com dor e a morte anestesiada a cafungadas de heroína.

Verdade seja dita: aquele Estado e o mundo da Guerra Fria, que se discutia em 1968, foram problemas simplíssimos de equacionar ? e, portanto, simplíssimos de criticar, mesmo que em complexíssimas e laureadíssimas teses de doutoramento! ?, se se pensa no “problema do Estado” que todos, no mundo inteiro, temos de enfrentar, hoje, em tempos em que as finanças de metade do mundo aplicam-se em globalizar… a outra metade, onde, precisamente, estamos nós, o Brasil.

De modo nenhum e em momento algum o filme diz “que a inteligência está em extinção”. Quem diz isso é o intelectual moribundo datado: essa frase é o limite absoluto do que aquele intelectual moribundo datado sabe e consegue ler sobre o mundo político que ele (aquele determinado intelectual datado) conheceu. O filme lê mais e muito melhor, e sabe muito mais do que isso. Passar batido sobre o que aquele filme realmente diz é acreditar em Folha, quer dizer, é escolher a ignorância ou a má-fé ou um projeto político golpista.

Curto e grosso

O que o filme diz é que aquela inteligência acadêmica é insuficiente para sobreviver no mundo real globalizado, pós-Stalin, pós-Guerra Fria, pós-Vietnã, pós-maio de 1968, pós-11/9, pós-Afeganistão, pós-Iraque e pós o que mais vier por aí. Os limites históricos reais daquela inteligência acadêmica são datados e muito claramente demarcados, no filme.

Num pólo extremo, no tempo ? no início da carreira acadêmica do intelectual laureado cujos últimos meses de doença terminal o filme acompanha ?, está o protesto emocional só superficialmente racional, mais emocional que social e político (dos anos 60 e 70) e protesto que sempre esteve mais atento aos sucessos dos protestadores, em suas respectivas carreiras acadêmicas e ou ginásticas sexuais, do que ao mundo real, das pessoas reais, que nunca viram, nem de longe, o mundo daquelas academias.

No pólo extremo oposto, no fim da vida do mesmo intelectual laureado, 30-40 anos depois dos seus principais sucessos acadêmicos… só há mesmo é muita conversa fiada, muita mis-en-scène, muita citação dos clássicos, muito sexo narrado em tom épico & muita militância intelectual rememorada e muito mal criticada.

Tudo ? e só! ? papo de panela, alguma reflexão fácil, em face da morte. E nem 1/2 parágrafo de reflexão (ou preocupação, ou interesse) sobre a vida que as gerações seguintes terão de continuar a viver, como possam. Papo furado e papo furado, com bom vinho e frases… até o fim com elegância e sem dor. (Isso não é invenção minha. Isso está mostrado no filme, fotograma a fotograma. Quem não viu isso não viu o filme!)

O que o filme diz e demonstra muito claramente é curto e grosso: só dois personagens sobrevivem, como cria, herdeiros e continuadores da experiência política e histórica da geração de intelectuais que o filme observa e comenta. Os dois filhos; só esses têm ainda alguma esperança (pouca!) de alguma (pouca!) felicidade e alguma (pouca!) chance de conseguir refazer suas respectivas vidas pessoais ? e praticamente a partir do zero, ou de ainda menos do que zero.

Quem-tem-grana-é-superior

(i) O filho do intelectual moribundo é totalmente um executivo global e totalmente anti-academia das ciências sociais. Ele ignora completamente todos os saberes e talentos da academia social dos anos 60-70. Todos aqueles saberes e talentos não lhe servem para absolutamente nada do que ele entende que seja um dever que ele tem de cumprir, na vida real, no período que o filme acompanha.

(ii) A filha da intelectual-hippie-paz&amor é totalmente junkie e nunca pensa nem dá sinais de jamais ter pensado em academias e ciências sociais. A filha vive totalmente afastada da mãe intelectual-desentendida-culpada-e-só-superficialmente-liberada. E até se pode supor, no filme, que aquela infeliz filha realista ainda esteja tentando poupar a mãe idealista & fantasista, de conhecer, de verdade, nua e cruamente, a desgraçada realidade em que ela, filha, vive.

A moça junkie é o mais triste fruto fanado das mil e uma ignorâncias vigentes ? mas doentiamente encobertas, sempre, por aqueles intelectuais só muito superficialmente “engajados” ? no mundo acadêmico falsamente social e engajado em que ela nasceu. Na bela fábula política e moral que é esse belo filme, um yuppie moral mostra a uma junkie moral que pode haver alguma coisa densa e confiável no mundo acadêmico oficial em que ambos nasceram. Essa “alguma coisa”, ninguém sabe o que é nem o que possa ser, se acaso alguém conseguir salvar-se. Nem ninguém, no filme, nem ninguém na platéia.

Nem ninguém, pelo menos, com certeza, no Brasil pós FHC-Serra-Malan… não por acaso, a nossa elite universal coroadíssima, do saber-68 de academia, à brasileira.

De todo o mundo acadêmico oficial onde nasceu, o rapaz, no filme, encarna apenas a parte “quem-tem-grana-é-superior” à lei, ao Estado, ao sindicato, à burocracia, à polícia, aos vícios, à heroína (!) e a todos os saberes de livro. Tudo que, correspondentemente, no filme, o yuppie global derrota, aparentemente sem dificuldade alguma e sem culpa. Pode-se presumir, a partir do que o filme-fábula ensina, que talvez não haja culpa, no yuppie, porque ele está empenhado em cumprir um dever moral que ele fixou para si mesmo, a partir do discurso humanamente desiludido da mãe, que lhe conta, depois do jantar, das noites que o pai passou em claro, lutando para salvar o filho da meningite…

Mundo de antes

Por seu lado, a junkie moral mostra ao yuppie moral que pode haver alguma coisa densa e confiável no mundo da droga e da marginalidade, e do crime e da dependência e das misérias reais. Do mesmo mundo acadêmico oficial, a moça encarna apenas a parte da fragilidade psicológica, exposta indefesa, em sociedade politicamente e moralmente castrada, mas permissiva… Uma fragilidade que, diz o filme, talvez possa também pode ser vencida por alguma firme decisão pessoal e moral. Mas também para isso ninguém tem resposta garantida. Ninguém.

O filme não resolve o problema do encontro real, no mundo real, entre esses dois frutos complexos daquele mundo acadêmico e oficial, nascidos e criados durante as décadas de 60 e 70 (o yuppie e a junkie), naquela situação-extrema, em que um marginal dependeu integralmente de outro marginal…

Naquela situação-extrema, no filme-fábula, só se criaram laços exclusivamente reais e morais. E em relações reais e morais que, contudo, se construíram e se mantiveram, até o fim, absolutamente à margem do mundo social; nesse sentido, laços morais e reais, sim, mas laços que ainda não estão testados no mundo político real…

Muito claramente, no filme, o “futuro do mundo” só volta ao mundo social oficial e real depois de consumada a eutanásia. Quando, afinal, a junkie assalta o yuppie e o beija e, imediatamente, o empurra de volta à rua… ao avião… à Bolsa de Valores… e ao emprego de calcular riscos, para os investimentos dos capitais globais. Uma ciência tão fictícia que todos ganham sempre, até quando alguém aposta contra todas as probabilidades mais reais & calculáveis… e erra!

O filme acaba durante o vôo que está levando o yuppie moral, de volta ao mundo de antes, com a namorada intocadamente amoral, de antes. De toda a dolorosa tragédia pessoal e política da geração intelectual de seus pais, todos os filhos que aparecem naquele filme só conseguiram construir, de aproveitável (talvez!), uma meia dúzia (menos do que isso!) de dúvidas (talvez!) aproveitáveis (sabe-se lá!). OK, o filme não resolve o problema que construiu tão bem. Mas, pelo menos, o filme propõe o problema com clareza (embora com algum esquematismo).

Barreira rompida

Mas os esquematismos não comprometem nem turvam a lição (moral) dessa belíssima fábula moral contemporânea que é As Invasões Bárbaras, e que é simplíssima: quem tenha pai&mãe intelectual sociólogo dos anos 60-70 cuide de procurar soluções mais morais ? pelo menos! ? para os seus problemas pessoais, com globalização, heroína, pais & mães acadêmicos-autistas e tudo e o que seja. E do jeito que dê. E salve-se quem (ainda) puder salvar-se, porque aquele mundo acabou e babaus. Quem é filho ou filha de pais&mães como os que o filme examina, critica e julga, assistiu ao filme e entendeu perfeitamente o problema pessoal que o filme propõe a toda uma geração, praticamente em todo o mundo ocidental.

Quem for brasileiro e quem tiver vivido conscientemente os governos FHC-Serra-Malan e que tais sabe que a tragédia pessoal que o filme constrói como fábula moral pode rapidamente transformar-se em tragédia horrorosamente real e histórica e nacional.

Quem for brasileiro e tiver sobrevivido como intelectual crítico aos governos FHC-Serra-Mallan, sabe do que estou falando e já sabe ler o discurso fascista de toda a imprensa comercial no Brasil, hoje, pelo que esse discurso de fato é: fascista e fascistizante e golpista e leviano e totalmente ensandecido (ou doente).

Se o Brasil continuar obrigado a ler, nas páginas da Folha de S. Paulo, hectares de “aulas-magnas” e “palestras” de príncipe-sociólogo laureado, a nos ensinar aquele papagueado vão, de Brasil vão e “de discurso” vão… que insistem em nos ensinar a não ser o que somos, para sermos o que agrade mais à Folha e à sociologia da academia do apagão tucano+USP apenas para que todos votemos no Serra-FH, em 2006, como perfeitos imbecis suicidas (e só Deus sabe quem inventarão, para São Paulo-2004) para recomeçar tudo aquilo, outra vez, francamente: prefiro o câncer.

Se o Brasil ler mais um único parágrafo de editorial da Folha, parido na sucursal de Brasília, ou mais uma linha de editorial do Estadão, ensinando sobre “princípios da democracia ruralista”, ou mais uma linha de página amarela, ensinando sobre “os transgênicos do medo-velho” ou sobre caricaturas baratas de Trotsky ou Marx ou Lênin ou sobre retrato 3×4 da Hidra de Lerna, ou Serra-FHC em fantasia padrão-Matrix, o Retorno… temo que rompamos a barreira da gravidade, que o Brasil descole do planeta-mundo real político, que saia de órbita, de vez, e que se perca para sempre nos espaços infinitos do nada, do zero “midiático”. Sinceramente.

(*) Integrante do movimento Lingüistas Brasileiros pela Democracia

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O rabino e as invasões bárbaras ? Luciano Martins Costa

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