Quarta-feira, 17 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1009
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Brilho ameaçado

Por lgarcia em 16/01/2002 na edição 155

JORNALISMO POLÍTICO

Repórteres e analistas políticos perderam a vez após o 11 de setembro. Competindo com a guerra no Afeganistão, terroristas e casos de antraz, a seção virou atração menor nos jornais. "A agenda do país mudou, e a mídia foi atrás", resigna-se Ron Brownstein, correspondente político do Los Angeles Times. "Os jornalistas não estão conseguindo despertar o interesse dos editores por matérias políticas." Além do mais, nestes dias "é quase patriótico não ser político", observa Roger Simon, do U.S News & World Report. "Como isto deveria nos fazer sentir?"

Na maior parte do tempo, afirma Howard Kurtz [Washington Post, 7/1/02], os repórteres políticos estão no centro do universo midiático ? ou assim querem se ver. Mas notícias sobre a caça a Osama bin Laden parecem ter ofuscado o resto: as estrelas agora estão no Pentágono ou em lugares como Islamabad e Tora Bora.

"As notícias vão focalizar o Afeganistão ou onde formos procurar a al-Qaeda. Não vai haver reportagem política à moda antiga por um bom tempo", prevê Eric Engberg, correspondente da CBS que acaba de se aposentar. A decisão foi claramente reforçada pelos desdobramentos dos atentados: "Trabalho de correspondente de guerra é coisa para jovens. As habilidades e os interesses que tenho para cobrir política não servem na guerra contra o terrorismo".

Em reportagem sobre o 11 de setembro, Susan Page, repórter do USA Today, citou o historiador Robert Dallek criticando o presidente Bush por não ter retornado imediatamente a Washington após os ataques. Dallek recebeu queixas da Casa Branca e Susan compreendeu: "Ficou difícil arranjar analistas que tratem da política da situação", disse. "Fiquei impressionada com a quantidade de mensagens que recebi de pessoas dizendo que não era apropriado tocar no assunto."

A dez meses da próxima eleição, Susan espera que as coisas voltem ao normal. "O assunto está esquentando novamente", acredita. Quantas pessoas vão se importar é outra história. "Quem quer ler sobre as eleições de 2002 agora?", pergunta Roger Simon. "Quem quer ler sobre 2004? Eu é que não."

NEW YORK TIMES

O New York Times menosprezou a notícia de mortes de civis no Afeganistão causada por ataques americanos, acusa a organização de media-watching Fair (Fairness & Accuracy in Reporting). De acordo com comunicado de 9/1/02, ataques aéreos atingiram a vila de Niazi Kala – também chamada Qalaye Niaze – em 30/12, vitimando dezenas de afegãos. A história ganhou manchetes nos jornais britânicos Independent, London Times e The Guardian ("EUA acusado de matar 100 civis em ataque aéreo", publicou este), em 1?. de janeiro. O New York Times, no entanto, relatou as mortes civis sem destaque, sob a manchete "Líder afegão apóia com cautela o bombardeio americano."

A ONU estima que 52 civis foram mortos no ataque, incluindo 25 crianças, e contesta as declarações do Pentágono de que a vila era um alvo legítimo porque escondia líderes do Talibã e da al-Qaeda e um depósito de munição. Os moradores locais negam a ligação, e afirmam que muitos mortos eram convidados de um casamento. Segundo a ONU, citada pelo London Times, "mulheres e crianças desarmadas foram caçadas e mortas por helicópteros americanos". Como aponta o Los Angeles Times (8/1/02), o ataque "levanta dúvidas sobre a precisão da informação que os EUA recebem sobre a localização dos combatentes da al-Qaeda". Repórteres que estiveram em Niazi Kala fizeram descrições chocantes do que encontraram: Roy Carrol, correspondente do Guardian, diz ter visto "sapatos de crianças, saias e livros, todos ensangüentados, o escalpo de uma mulher com tranças grisalhas e enfeites de casamento", evidências que comprovam a declaração da ONU.

Mas o New York Times fugiu de descrições deste tipo, aponta a Fair. Em artigo do dia 2, trata o relato sobre os mortos não como história, mas como pano de fundo para discutir se o líder Hamid Karzai mantinha seu "apoio à guerra contra o terrorismo". No dia seguinte, apareceram mais detalhes sobre a destruição da vila, novamente dentro de outra reportagem, sobre suspeitas de que o líder local Pacha Khan Zadran teria passado informação falsa aos EUA. O ataque em Niazi Kala aparece no meio da matéria, quando se fica sabendo que foi Zadran quem indicou a suposta ligação da vila com o Talibã. O Times compara a versão do líder com a da ONU (que faz "um relato assustador do custo humano de destruir um depósito de armas", segundo o jornal) e chega a citar parte do relatório. "Mas estes detalhes importantes foram enterrados no meio da matéria da página 15, e não repercutem nem na manchete nem no lead", reprova a organização.

Em resposta à pressão internacional, o Pentágono concordou em investigar o ataque, algo que o New York Times ainda não informou a seus leitores. "A reportagem miserável que o Times deu à história mostra que a grande imprensa americana falhou ao investigar seriamente a extensão de mortes civis no Afeganistão e a legalidade dos ataques dos EUA", conclui a Fair.

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